15 de agosto de 2018

Cabo Daciolo, ou o esvaziamento do Outro e da Política

Sinceramente não entendo meus amigos crentes ou faficheiros, inclusive os que têm uma formação “social”, em relação ao Cabo Daciolo. Ele é o fenômeno recente mais interessante e complexo do Brasil e as pessoas só sabem olhar para ele com deboche.

A maior parte das pessoas na semana passada concluiu que Daciolo está bem próximo de Bolsonaro. Quem o conhece minimamente, sabe que sua formação política é do PSOL, partido que o elegeu deputado e que seu atual programa de governo é claramente progressista. Mas isso tudo é detalhe. O que importa hoje é a forma do discurso e não seu conteúdo. A política, que já foi considerada a arte da verdade e da virtude voltada para o bem comum, pode ser definida hoje como apenas estética.

Aliás, isso explica a própria causa de fenômenos assim. Não conseguimos admitir que o nosso framework ideológico é limitado e sempre vai falhar mais do que outros ao lidar e responder à algumas especificidades da realidade. Enquanto a política for dualista e achatada, enquanto não olharmos pro lado e aceitarmos que possa ser possível diferentes leituras e sentimentos para as situações dos diferentes grupos, a gente vai continuar apenas nutrindo desafetos e reacionarismos, seja à esquerda ou à direita, e no final, a leitura das realidades fica cada vez mais distante da realidade delas, explicando pouco e de modo superficial.

Estudando Daciolo, compreendemos a nós mesmos. Porque surgem discursos aparentemente tão contraditórios com a realidade? De onde surgem os Bolsonaros? Ódio e ignorância no discurso do outro é sempre refresco. Temos polarizado tanto a política e exigido em todas as situações que as pessoas sigam os nossos estereótipos e expectativas do que é fazer política “do jeito certo”. Na prática, somos contra um verdadeiro pluralismo dos discursos. E mesmo assim, depois “defendemos” a democracia com unhas e dentes.

Isso achata a própria realidade e lida com ela de forma superficial. Surge então alguém que não se encaixa nos nossos padrões prontos (de esquerda ou direita) e a gente só debocha, esquecendo que pra bem ou pra mal, ele provê ali uma representatividade pra muitos grupos, que se sentem importantes nele. Aí a gente escolhe já desqualificar toda essa parcela da população: Fascista! Porque fascismo no outro é refresco. E é mais fácil.

Lembram do fascismo de verdade, de como ele surgiu? O que gera os discursos extremistas e até totalitários é exatamente o esvaziamento e a polarização da política. Somos todos culpados quando “não dialogamos com o ‘fascista’”. E é assim que o tornamos fascistas, simplesmente porque o desprezamos, e o desprezamos como um “outro”, também dotado de lugar de fala e de dignidade. Ecoando Francis Schaeffer, não há pessoas pequenas ou sem importância. Precisamos de uma ética do reconhecimento.

Não nego que no final muitas dessas pessoas realmente se tornam fascistas, mas se tornam inclusive pela forma como nós todos, as pessoas “do bem”, da justiça social ou dos direitos individuais, temos construído a política e como tratamos uns aos outros. O clássico do jogo esquerda-direita é passado. Somos todos extremistas agora. Não é a revolução que gera a reação mais, são reações que geram outras reações sem-fim. Na guerra das gangues políticas somos todos reacionários. Falta empatia.

4 de junho de 2018

Contra a Heterossexualidade

Alasdair MacIntyre sugeriu uma vez que "fatos, assim como telescópios e perucas para cavalheiros, são invenções do século XVII". Algo similar pode ser dito sobre orientação sexual: heterossexuais, assim como máquinas de escrever e mictórios (também, obviamente, para cavalheiros), são invenções da década de 1860. Contrário aos nossos preconceitos culturais e às mentiras do que é chamado de "essencialismo de orientação", "hétero" e "gay" não são absolutos atemporais. Orientação sexual é um jogo conceitual com uma história, e uma história sombria. E é uma história que começou muito mais recentemente do que a maior parte das pessoas sabe, e que provavelmente vai acabar muito antes que a maior parte das pessoas pensa.

Ao longo de vários séculos, o Ocidente tem abandonado progressivamente a arquitetura conjugal do cristianismo para a sexualidade humana. Então, a cerca de 150 anos, começou a substituir a tradição teleológica que existia há muito tempo por uma criação completamente nova: a taxonomia absolutista, mas absurda, da orientação sexual. A heterossexualidade foi criada para servir como um ideal regulatório dessa estrutura fantasiosa, preservando as proibições sociais contra a sodomia e outras devassidões sexuais sem recorrer à natureza procriadora da sexualidade humana.

Nessa narrativa, os atos homossexuais não eram errados porque desprezam o propósito racional-animal que tem o sexo (a família), mas porque o desejo por tais atos supostamente surgem de uma desordem psicológica repugnante. Como o teórico queer Hanne Blank relata, "esse novo conceito [da heterossexualidade] apareceu de uma mistura bizarra de línguas mortas com sons impressionantes, provendo à antigas ortodoxias novas e vibrantes concessões sobre a vida ao sugerir em tons autoritativos que a ciência as pronunciou naturais, inevitáveis e inatas".

Orientação sexual não proveu uma base fidedigna para a virtude tal qual esperavam seus inventores, principalmente mais recentemente. Não obstante, muitos cristãos conservadores hoje sentem que devemos continuar a consagrar a divisão gay-hétero e o ideal heterossexual em nossa catequese popular, porque ela ainda parece a eles como a melhor forma de fazer com que as nossas crenças morais pareçam razoáveis a desejáveis.

Esses meus compatriotas cristãos estão errados ao se apegar tão fortemente à orientação sexual, confundindo essa apologia inédita e infrutífera para a castidade com os fundamentos eternos desta. Nós não precisamos de "heteronormatividade" para nos defendermos contra a devassidão. Muito pelo contrário, a heteronormatividade é um obstáculo.

Foucault, um aliado inesperado, detalha a genealogia da orientação sexual em sua obra 'A História da Sexualidade". Onde "sodomia" identificou por muito tempo um tipo de ações, pela primeira vez, de repente, na segunda metade do século XIX, o termo "homossexual" apareceu junto com o primeiro. Esse neologismo europeu foi usado de uma maneira que soaria para as gerações anteriores como um puro erro de categoria, designando não ações, mas pessoas, assim também como sua contraparte "heterossexual".

Psiquiatras e legisladores da segunda metade do século XIX, como relata Foucault, rejeitaram o entendimento clássico de que "perpetrador" de atos de sodomia era "nada mais do que uma nomenclatura jurídica para tais". Com o surgimento das sociedades seculares, e estas querendo deslegitimar publicamente as crenças religiosas clássicas, a pseudociência veio a substituir a religião como o fundamento moral para as normas venéreas. Para alcançar a estabilidade social sexual secularista, os médicos da época forjaram o que Foucault chama de uma "ordem natural de desordem".

"O homossexual do século XIX tornou-se um personagem", "um modelo de vida", uma "morfologia", escreve Foucault. Essa identidade psiquiátrica pervertida, elevada ao status de "uma forma de vida" mutante para se poder salvaguardar a sociedade educada de suas depravações, engoliu toda as características atribuídas: "Nada daquilo que ele [o homossexual] é, no fim das contas, escapa à sua sexualidade. Ela está presente nele todo: subjacente a todas as suas condutas já que ela é o princípio insidioso e infinitamente ativo das mesmas".

Os imprudentes aristocratas que encorajaram essas inovações médicas mudaram a medida da moralidade pública, ao substituir a natureza humana com as nuances da religião pela opção secular mais segura das paixões individuais. Assim, eles foram obrigados a trocar a vigorosa tradição do direito natural pelo recém construído modelo de "normalidade psíquica", com a "heterossexualidade" servindo como o novo normal para a sexualidade humana. E, o que era previsível, tal padrão vago de normalidade oferecia uma sustentação muito mais frágil para a ética sexual do que a tradição clássica do direito natural.

Porém, o fato desse novo modelo ter sido enfatizado serviu para consolidar essas categorias de heterossexualidade e homossexualidade no imaginário popular. "A homossexualidade apareceu como uma das formas da sexualidade", relata Foucault, "quando foi transposta, da prática da sodomia, para uma espécie de androgenia interior, um hermafroditismo da alma. O sodomita era uma aberração temporária, agora o homossexual é uma espécie". Orientação sexual, assim, não é nada a mais que um frágil constructo social, e um construído de forma terrivelmente recente.

Enquanto a nossa cultura popular ainda não chegou aí, os teóricos queer cada vez mais dão as cartas no nível das elites e já concordam com Foucault nesse assunto. Esses pensadores ecoam o pensamento herético (do ponto de vista LGBT) de Gore Vidal: "Na realidade, não existe algo como uma pessoa homossexual, assim como não existe algo como uma pessoa heterossexual". De fato, a divisão natural fixa entre as duas identidades tem se mostrado útil para os ativistas dos "direitos gays" em campo e não menos importante para o ethos de direitos civis que tais dinâmicas de poder invocam. Mas a maior parte dos teóricos queer, assim como a maior parte dos acadêmicos das diferentes humanidades e disciplinas sociais e comportamentais hoje, vão admitir que tais distinções são apenas constructos fluidos. Muitos desses campos tentam expor as credenciais falsas da orientação sexual e, parafraseando Nietzsche, para explica-las de forma genealógica de uma vez por todas.

Jonathan Ned Katz, um historiador da sexualidade da esquerda radical que ensinou em Yale e na New York University captura muito bem tal consenso da teoria queer em sua obra 'A Invenção da Heterossexualidade', em que ele explica: "Eu falo da invenção histórica da heterossexualidade para contestar firmemente a nossa comum suposição de uma heterossexualidade eterna, para sugerir uma condição histórica, instável e relativa a uma ideia e uma sexualidade que geralmente supomos terem sido gravadas na pedra há muito". E ele continua: "Ao contrário das biocrenças de hoje, o binário heterossexual-homossexual não reside na natureza, mas é socialmente construído, portanto desconstruível".

Meu prognóstico é que veremos esse binário completamente desconstruído ainda na geração atual. Mas a meu ver, nós que propomos a castidade cristã deveríamos ver essa destruição iminente da ruptura gay-hétero não como uma tragédia, mas como uma oportunidade. Mais que isso, eu quero sugerir que deveríamos nos empenhar pela dissolução da orientação sexual dentro das nossa próprias esferas subculturais sempre que possível.

Obviamente, tendo em vista a nossa imersão numa cultura para a qual essas categorias parecem tão naturais quanto a própria língua, desenraizá-los do nosso próprio vocabulário e cosmovisão será uma tarefa nada fácil. Por que se importar então? Contando que não sucumbamos aos atos pecaminosos, do que importa se as pessoas (inclusive os cristãos) continuam a se identificar como homossexuais e heterossexuais?

Primeiramente, dentro do essencialismo da orientação sexual, a distinção entre heterossexualidade e homossexualidade é uma construção que é desonesta sobre sua própria condição de construção. Essas classificações são mascaradas como categorias naturais, aplicáveis a todas as pessoas de todos os tempos e lugares de acordo com os objetos típicos de seus desejos sexuais (porém, talvez, com algumas opções a mais para os categorizadores politicamente corretos). Ao alegar não ser simplesmente uma invenção acidental do sec. XIX, mas uma verdade atemporal sobre a natureza sexual humana, essa acepção sobrevalorizada ilude àqueles que adotam seus rótulos, que acreditam que tais distinções são mais importantes do que realmente são.

Uma segunda razão para se duvidar desse esquema como algo que nós cristãos deveríamos usar prontamente é que sua introdução em nosso discurso sexual claramente não aumenta as virtudes, sejam intelectuais ou morais, daqueles que empregam tais conceitos. Pelo contrário, ele tem criado tanto uma obscuridade intelectual quanto um desequilíbrio moral.

Quanto ao primeiro, o essencialismo de orientação tornou a filosofia ética quase impossível: deslocou os princípios conjugais-procriativos de castidade sem oferecer nenhuma alternativa que não seja inteiramente arbitrária. A antiga perspectiva teleológica mensurava a moralidade nos termos da natureza racional-animal humana. No campo sexual, isso significava avaliar atos sexuais em referência ao bem comum do matrimônio, que integrava a união conjugal e a geração e criação de filhos. O novo sistema heteronormativo, por outro lado, não tem como explicar a depravação da sodomia homossexual a não ser por um argumento engasgado, condicionado e sem fundamentos que, não sendo justificado, se enfraqueceu consideravelmente ao longo do tempo.

Quanto ao segundo resultado, o desequilíbrio moral, a hegemonia da orientação sexual tem, de forma contraproducente, redirecionado nossa atenção cotidiana dos propósitos objetivos para as paixões subjetivas. Os jovens, por exemplo, hoje encontram-se regularmente em angústia sobre suas identidades sexuais e em autocomiseração por tentativas de discernir seus lugares nesse supostamente natural diagrama de orientações de Venn. Essas obsessões geram muito mais calor do que luz e fazem adolescentes já sexualmente excitados se concentrarem nas dimensões extrínsecas de suas próprias constituições sexuais. Essa auto-busca se torna ainda mais desnecessariamente dolorosa para aqueles que veem em si uma "orientação homossexual", ao adotarem uma identidade que se distingue essencialmente por um conjunto de desejos sexuais que não podem ser moralmente satisfeitos.

Há uma terceira razão pela qual essa categorização deveria ser descartada, esta, teológica: É oposta à liberdade para a qual Cristo nos libertou. Meu futuro superior na vida religiosa, Pe. Hugh Barbour dos Padres Norbertinos, argumentou sobre essa ideia num ensaio na Chronicles Magazine, intitulado 'Do Homosexuals Exist? Or, Where Do We Go from Here?' (Existem homossexuais? Ou, Para Onde Vamos?). Como ele argumenta, "a teologia moral tradicional avaliava atos, e não generalizava de forma demasiadamente insatisfatória acerca das tendências que levavam a esses atos. Isso era deixado para a casuística das ocasiões de pecado e para a direção espiritual. Se o pecado fosse roubo, então o padrão de avaliação era cleptomania? Se fosse bebedice, alcoolismo? Se fosse preguiça, depressão clínica?" Mesmo os cristãos ortodoxos, ele escreve,

"cederam ao costume de tratar inclinações sexuais como identidades. Pastoralmente, deveríamos pregar a liberdade para a qual Cristo nos libertou. Ao tratarmos do pecado de sodomia como uma prova prima facie de uma identidade, não estamos, sob uma aparência externa de compaixão e sensibilidade, ajudando a vincular o pecador à sua inclinação de pecado e, assim, jogando nele um fardo demasiado grande de se carregar sozinho, já que não podemos levar por ele?"

Autodescrever-se como "homossexual" tende a multiplicar ocasiões de pecado para aqueles que adotam o rótulo ao provocar, nas palavras do Padre, uma desnecessária "dramatização da tentação". Onde a infusão de virtudes teologais libertam o cristão, identificá-lo como homossexual apenas escraviza mais o pecador. Intensifica a concupiscência, uma triste distorção do amor, ao amplificar o sentido aparente dos desejos lascivos. Fomenta uma autopiedade desesperante, prejudicando a esperança, que deveria motivar virtudes morais. Além de encorajar um forte senso de direito, o que geralmente enfraquece a obediência da fé ao exigir a destruição das doutrinas que parecem reprimir "quem eu realmente sou".

Há um punhado de contra-exemplos louváveis para esse padrão desencorajante, pessoas que se identificam como "cristãos gays" que são tanto virtuosos, como fiéis aos ensinamentos da Igreja. Mas dada a tensão inerente entre a narrativa cristã e lógica da orientação sexual, não seria uma surpresa se esses louváveis isolados que tentam combinar essas duas tradições inconsonantes são a exceção e não a regra.

Batizar a identidade homossexual é repleto de perigos evitáveis. E ainda, no que diz respeito ao maior mal causado pelo binário da orientação sexual, a homossexualidade não é a culpada. A heterossexualidade a é (não que os dois males estejam separados, obviamente). Os aspectos mais perniciosos do sistema identitário da orientação é que ele tende a isentar os heterossexuais de qualquer avaliação moral. Se a homossexualidade nos vincula ao pecado, a heterossexualidade nos cega para o pecado.

Não há questão de que alguns "heterossexuais" moralmente autoconscientes existam. Todavia, como regra geral, identificar-se como uma pessoa heterossexual hoje em dia corresponde a declarar-se um membro do "grupo normal", contra o qual todos os desejos sexuais e atrações desviantes devem ser medidas. Essa heteroidentificação induz, portanto, a uma autoconfiança pateticamente acrítica e (não preciso nem dizer) sem merecimento, além de uma medida imprecisa para avaliar a tentação.

Naturalmente, nós temos uma norma que nos é modelo para a avaliação dos desvios sexuais. Porém esse modelo não é a heterossexualidade, é o próprio Cristo Jesus, o Deus-homem que tanto aperfeiçoou a natureza humana, quanto exemplificou sua perfeição, "aquele que em tudo foi tentado, porém não pecou". Que os autodeclarados heterossexuais substituam o Senhor em tal posição é o cúmulo da sandice.

É verdade que a homossexualidade pode ser distinguida por um inadequado desespero, ao se aceitar inclinações pecaminosas como constituintes de identidade e portanto, implicitamente, rejeitar a liberdade comprada para nós pelo sangue de Cristo. Mas a heterossexualidade, em suas pretensões de agir como norma para avaliar os nossos hábitos sexuais, é marcada por algo ainda pior: a Soberba, que São Tomás de Aquino classifica como a rainha de todos os vícios.

Existem razões práticas para ter cuidado com a heterossexualidade também. Pelo fato de que o nosso mundo pós-freudiano associa qualquer atração física e afeição interpessoal com o desejo erótico-genital, a amizade íntima entre pessoas do mesmo sexo e um casto apreço pela beleza do próprio sexo têm se tornado quase impossíveis de se alcançar (inclusive, Freud foi um dos mais influentes arquitetos desse vicioso mito essencialista da orientação).

Para "heterossexuais" em particular, aproximar-se de um amigo do mesmo sexo acaba parecendo perverso e ser tocado por sua beleza parece esquisito. Para evitar serem confundidas como gays, essas muitas pessoas autoproclamadas heterossexuais, especialmente os homens, se contentam com associações superficiais com seus camaradas e reservam o tipo de intimidade valiosa que originalmente caracterizava um relacionamento casto entre pessoas do mesmo sexo apenas aos seus parceiros românticos. Sua orientação sexual ostensivamente normal os rouba um aspecto essencial do florescimento humano: a amizade profunda.

Os mais antigos usos do termo "heterossexualidade" conferem maiores motivos para duvidar se devíamos celebrar essa ideia de forma tão entusiástica. É fato que até o final do século XIX, o rótulo algumas vezes era usado meramente para denotar o "sexo normal". Obviamente ainda tendemos a usar o termo dessa forma hoje e, como estou argumentando, isso é tragicamente confuso.

Mas outro proeminente significado do termo mais ou menos da época de sua invenção, incluindo o seu uso mais antigo registrado em inglês, em 1892, continua a orientar a nossa concepção distorcida de sexualidade humana, ainda que essa definição secundária tenha saído de moda. Nessa definição alternativa, a palavra não designa o "sexo normal", mas apenas uma espécie diferente de desvio sexual, como a contraparte homossexual em seu desdém pela reprodução, mas diferente no sentido do objeto típico de suas inclinações eróticas.

A infeliz história do termo "heterossexual" que temos escolhido esquecer é que esse termo chegou ao vernáculo ocidental como um rótulo para uma desordem de perversão sexual que se deleitava em atos sexuais essencialmente estéreis. Geralmente esses desejos eram para pessoas de sexo opostos, mas até mesmo essa linha era turva, porque, uma vez que o propósito gerativo do sexo foi rompido, de forma geral importava muito pouco quem era o parceiro de masturbação mútua do "heterossexual".

Nossos antepassados cristãos ficariam chocados com a nossa complacência com a questão da orientação sexual. A única razão pela qual todo esse programa não nos alarma como faria a eles é que fomos sistematicamente indoutrinados nele desde crianças, especialmente nossos jovens adultos. Porém, façamos uma analogia com algo ainda não tão familiar para nós. Consideremos como reagiríamos se um outro tipo de categoria adentrasse o nosso vocabulário cultural.

A revista online Slate recentemente publicou um artigo intitulado 'Is Polyamory a Choice?' [Poliamor é uma Escolha?], o qual argumentava que, além de inclinações em direção a homens ou mulheres, pode também haver constituições de orientação sexual no que diz respeito a uma fidelidade (e infidelidade) inata e imutável.

Imagine se as pessoas que se antevêem ser mais satisfeitas romanticamente por uma exclusividade sexual compromissada comecem a se identificar como "fiéis", enquanto aqueles que geralmente ficam mais empolgados com a perspectiva de uma promiscuidade sexual irrestrita comecem a se identificar como "infiéis". Não acharíamos que isso é problemático, especialmente quando mulheres e homens cristãos começarem a adotar a segunda definição para si, até mesmo exibindo o fato de que são "infiéis" como motivo para não se casar, já que eles não seriam suficientemente satisfeitos pela vida sexual para a qual estariam se comprometendo através dos votos matrimoniais?

"Infidelidade" obviamente está no papel da homossexualidade nessa analogia. Mas, mesmo que consideremos o número de parceiros sexuais ou a orientação de alguém, como não nos chocar quando os nossos irmãos cristãos adotam uma identidade para si que se distingue essencialmente do seu contraste por nada além de um tipo particular de tentação ao pecado? Isso é o oposto à liberdade cristã. É claro que todos nós estamos caídos e somos tentados e temos necessidade da ajuda divina. Mas enquanto continuamos a lutar contra essas tentações pecaminosas, a libertação das correntes do pecado, que nos reivindica como sua posse, nos foi dada em Cristo Jesus.

Nós não pertencemos mais às nossas transgressões. Então por que criar identidades para nós mesmos usando o pecado como critério? Eu não me importo com o quanto a promiscuidade possa ser atraente para você. Você enfaticamente não é "um infiel". É certo que poderíamos construir socialmente categorias que possam tornar essa forma de falar parecer óbvia e inata. Mas se o cristão fizer isso ou participar voluntariamente de uma estrutura assim, se esta for construída ao redor dele, ele estaria severamente enganado.

Eu não sou o meu pecado. Eu não sou a minha tentação ao pecado. Pelo sangue de Jesus Cristo eu fui libertado dessa amarra. Eu posso ter todos os tipos de identidade, com certeza, especialmente nesta nossa época desequilibradamente super-psicanalítica. Mas, no mínimo, nenhuma dessas identidades deveriam ser essencialmente definidas pela minha atração ao que me separa de Deus.

O outro lado dessa hipótese inspirada pelo Slate traz à luz os males peculiares da heterossexualidade. Além da nossa justificada desaprovação dos cristãos que desesperadamente se identificassem como "infiéis", não haveria algo ainda mais absurdo e depravado na vaidosa autoidentificação de cristãos como "fiéis"? Coloquemos da seguinte forma: O fato de que os meus desejos eróticos tendem a tomar somente uma única pessoa como objeto, ao invés de um vasto coletivo, necessariamente aponta para alguma qualidade moral inerente da minha parte? Aliás, será que sequer sinaliza que os meus desejos são virtuosos, ou será que simplesmente indica que por um acaso eu não sou fortemente tentado a um entre vários outros potenciais abusos lascivos? Assim como as pessoas chamadas "fiéis", os indivíduos "heterossexuais" não são arquétipos perfeitos de castidade apenas porque evitam "a armadilha incasta da última semana".

No entanto, apesar da falta de lógica disso tudo, as "pessoas hétero" tendem a receber mais vantagens sociais de sua definição sexual, o que torna o desmantelamento do esquema da orientação sexual uma ameaça maior a eles do que às suas contrapartes "gays" ou "lésbicas". Como Jenell Williams Paris da Messiah College escreve em seu livro 'The End of Sexual Identity' [O Fim da Identidade Sexual], "Ter a nossa humanidade mais do que categorias contemporâneas de identidade sexual como o fundamento para a ética sexual (…) vem com um custo para os heterossexuais", porque "coloca-os no jogo como jogadores ao invés de árbitros". No entanto, e por isso mesmo, são os autoproclamados heterossexuais que podem se tornar mais efetivos em assumir a vanguarda em investir contra o sistema de orientação sexual, sacrificando seu manto de segurança anticristão que é a "heterossexualidade" em nome do caritas in veritate [amor na verdade].

Ainda, se nós cristãos escolhermos nos juntar a esse entendimento ou não, com o tempo, o conceito de orientação sexual inevitavelmente vai sair de moda e perder a relevância. A nossa escolha é simplesmente se queremos ou não o mesmo para nós. Uma razão óbvia para seu ocaso inevitável é que os sentimentos são consideravelmente mais inconstantes do que os primeiros proponentes e agitadores psicossociais acreditavam. Suas categorias rígidas e definitivas se mostraram insuficientes diante das evidências empíricas.

Um segundo fator para o declínio da orientação sexual é que essas categorias hétero e homo não têm como sustentar logicamente as normas sexuais para as quais foram criadas. Os essencialistas de orientação originais não conseguiram nem oferecer uma razão coerente para defender a heterossexualidade em detrimento da homossexualidade, o que era o alicerce de sua posição. Sem mais nada, além de sensibilidades herdadas e uma ordem arbitrária, sua medida heteronormativa falhou onde sua antecessora procriadora tinha sucedido por séculos, em oferecer razões íntegras para as normas.

Falhas filosóficas condenaram a iniciativa da orientação sexual em toda a sua existência. Como o inadequado padrão heteronormativo deixa inteiramente intocadas várias instâncias lascivas entre pessoas de sexo oposto, pecados anteriormente considerados mortais, como a auto-satisfação egoísta, a pornografia, a fornicação, a contracepção e a sodomia masculina-feminina, foram progressivamente tolerados. No entanto, tendo em vista todas essas injunções citadas, compreensivelmente, começou a parecer inconsistente e portanto preconceituoso continuar insistindo em proscrições de práticas desviantes entre pessoas do mesmo sexo. A estrutura de orientação essencialista, que deveria ser uma defesa infalível contra a libertinagem homossexual, tornou-se assim a arma mais forte em seu arsenal.

O que nos leva à razão final e talvez mais surpreendente pela qual o conceito de orientação sexual vai cair: este quase esgotou sua utilidade política, algo que sempre teve uma data de validade. O plano dos conservadores morais do século XIX para a orientação saiu pela culatra, obviamente, quando o que se supunha serem condições psiquiátricas normativamente desiguais se tornaram identidades psicológicas moralmente indistinguíveis.

Entretanto, nem o liberalismo tem muito mais a ganhar com isso, já quem entre os casos Romer v. Evans, Lawrence v. Texas, United States v. Windsor e o ENDA [Em tradução livre: Ato Não-Discriminatório Empregatício], pouquíssimos casos de "direitos gays" ainda restam a ser resolvidos. O conceito de orientação ainda pode ter alguns poucos anos de capital político, mas muitos progressistas já ostentam que poderiam abandonar o mito das categorias naturais sem maiores problemas, tendo iniciado recentemente uma irresistível tendência liberadora que continuará a avançar com ou sem as categorias. Mais cedo ou mais tarde, esses pronunciamentos dos teóricos queer vão deixar suas torres de marfim e se tornarão também uma ortodoxia cultural.

Embora eu espere que muitos pensadores cristãos conservadores achem Foucault um estranho aliado, quero sugerir que o nossa cobeligerância com a esquerda radical neste assunto deveria ser entusiástico, embora também circunscrita cuidadosamente. Em essência, deveríamos ficar contentes ao juntar nossas vozes às dos teóricos queer pós-estruturalistas em suas vigorosas críticas aos ingênuos essencialistas da orientação sexual, que erroneamente pensam que "hétero" e "gay" são classificações naturais, neutras e atemporais.

Seu historicismo desiludido faz com que esses genealogistas sexuais se posicionem de forma singular de modo a enxergar os enganos e ilusões da orientação sexual. Enquanto nós cristãos não precisamos desse discurso da teoria queer de alguma forma essencial, ele pode, no entanto, de uma forma acidental, provar nos ser um grande aliado no presente. Ironicamente, esses esquerdistas radicais podem ser os únicos que podem curar a cegueira que, por falta de prudência, ultimamente nos infligimos ao adotar de forma acrítica a linguagem da hétero e da homossexualidade.

No entanto, embora possamos e devamos recomendar o diagnóstico dos teóricos queer sobre a absurdidade que infesta as nossas categorias sexuais hoje, não podemos, contudo, aderir ao seu plano de tratamento. Jonathan Ned Katz, Hanne Blank e outros teóricos queer contemporâneos de forma geral pretendem retratar de forma genealógica o rígido esquema da orientação sexual precisamente porque acreditam que isso lhes dará a liberdade e o poder de fazer, desfazer e refazer sua sexualidade como bem entenderem.

Eles querem desmantelar esses constructos sociais falidos não para que algo possa ser construído no lugar (ou, talvez, redescoberto meio ao entulho), mas porque eles esperam alcançar um nível ainda maior de libertinagem do que o que temos hoje, mesmo que o preço para isto seja ter que endossar uma espécie chula de niilismo sexual. Ressoando Dostoiévski, esses radicais gostariam de acreditar que se a orientação sexual não existe, então todas as coisas são possíveis.

O cristão não pode segui-los ladeira abaixo nesse caminho miserífico, obviamente. Mas ele tampouco pode, eu acredito, permanecer contentado com a enganosa e condenada taxonomia de orientação de orientação sexual que temos hoje. Lembrem-se do que estou dizendo: os teóricos queer darão um jeito de desmantelar a coisa em pouco tempo. Até a nossa cultura popular está começando a mostrar sinais de estresse aqui. A lista (de roupas pra lavar) cada vez maior de orientações demonstram a insuficiência dessas categorias nítidas e discretas. E o conceito agora familiar de "hasbian" sugere que essas identidades são bem menos estáticas do que antes fomos levados a acreditar (lembre-se, por exemplo, da nossa ex-homossexual, recente primeira dama de Nova Iorque).

A questão é quando essa estrutura de orientação sexual ruir, o que virá para tomar seu lugar: a ética niilista do tudo-liberado dos teóricos queer; ou a visão cristã clássica da qual tudo isso se afastou, a visão que toma o princípio conjugal-procriativo como sua finalidade e princípio organizador, avaliando as paixões em detrimento da natureza e não vice-versa?

Defender a castidade cristã hoje, penso eu, é dissociar a Igreja do falso absolutismo da identidade baseada na tendência erótica, e redescobrir o nosso próprio fundamento antropológico para princípios morais tradicionais. Se não quisermos sermos perder a relevância junto com os essencialistas de orientação modernos, precisamos lembrar ao mundo que a nossa ética sexual nunca se adaptou à estrutura moderna mesmo, e que, portanto, abandonar a estrutura não precisa levar à libertinagem niilista pós-moderna. Existe um terreno mais firme ao se aderir à tradição cristã clássica. Na verdade, parece-me o único lugar que ainda dá pra ficar.

A Bíblia nunca chamou a homossexualidade de abominação. E nem poderia, pois como vimos, o Levítico precede qualquer concepção de orientação sexual por pelo menos dois milênios. O que a Escritura condena é a sodomia, independente de quem a comete ou por quê. E ainda, como tenho dito, em nossa própria época, a homossexualidade merece o rótulo de abominável, mas a heterossexualidade também.

No que concerne à moralidade sexual, já estamos no ponto onde não é mais suficiente criticarmos as respostas medíocres da modernidade. Como o nosso Senhor nas narrativas dos evangelhos, também devemos corrigir as perguntas medíocres ou insatisfatórias que a modernidade faz. Ao invés de nos debater na problemática de como viver como "um cristão homossexual", ou também, a ainda mais problemática questão de como viver como um "cristão heterossexual", deveríamos estar ensinando os nossos irmãos cristãos, especialmente os que estão em seus anos mais formativos da adolescência, que não vale a pena usar essas categorias.

Elas são invenções recentes que são totalmente alheias à nossa fé, inadequadas para justificar normas sexuais e contraditórias a uma verdadeira antropologia filosófica. Chegou a hora de erradicarmos a orientação sexual da nossa cosmovisão da forma mais sistemática que pudermos, com toda a devida prudência aos casos particulares, é claro.

Se o Papa Francisco está certo quando diz que contextualizar o nosso discurso moral é um pré-requisito necessário para nos mostrarmos convincentes (e até mesmo inteligíveis) aos nossos interlocutores, então abandonar a heteronormatividade e ressuscitar a nossa própria tradição de castidade teleológico-familiar é a única forma de explicar adequadamente a ética sexual cristã.

Michael W. Hannon, escreve para a revista First Things e está se preparando para entrar na vida religiosa com os Norbertinos da St. Michael's Abbey em Orange County, nos Estados Unidos. Tradução de Rafael de Oliveira Faria. 

30 de março de 2018

Morte e Ressurreição

A antecipação da ressurreição dos mortos na ressurreição de Jesus dos mortos pode ter um efeito estimulante para aqueles que estão abertos para o mundo e para o futuro. Mas para aqueles que estão fechados para o futuro e sem esperança, para o homo incurvatus in se e para Narciso que está tristemente apaixonado por si mesmo, ela não tem nenhum significado, pois não os alcança. Somente o sofrimento e sacrifício substitutos de Cristo "por muitos" em sua morte na cruz trazem esperança para os desesperados, futuro para os que estão agonizando e uma nova justiça para os injustos.

Por conseguinte, é preciso dizer que, para nós, a morte de Cristo na cruz é o "sentido" de sua ressurreição. Ao contrário, qualquer interpretação do sentido de sua morte que não tenha como postulado sua ressurreição dos mortos é inútil, pois não fala do novo elemento de vida e salvação que se tornou conhecida na ressurreição. Cristo não apenas morreu como uma oferenda expiatória, na qual a lei foi restaurada ou a criação original foi reconstituída após a queda do homem. Ele morreu "por nós, os mortos", para nos dar uma porção de sua nova vida de ressurreição e de seu futuro de vida eterna. Sua ressurreição é a essência do significado de sua morte na cruz "por nós", pois o Cristo ressurreto é, ele mesmo, o Cristo crucificado. Sua ressurreição dos mortos pode ser entendida em sua "morte por muitos". Sua "ressurreição" não é uma dimensão de sua morte na cruz; pelo contrário, seu sacrifício na cruz pela reconciliação de todas as coisas é a dimensão imanente de sua ressurreição escatológica na glória do reino vindouro. Considerando a morte de Cristo como "substitutiva de muitos", devemos entender sua ressurreição dos mortos como substitutiva em beneficio daqueles que estão mortos. Nesse caso, sua morte na cruz "por nós" pode ser entendida como prova de sua ressurreição. Entender o sentido substitutivo de sua morte é entender sua ressurreição. Em sua morte por nós, o Cristo ressurreto olha para nós e nos arrebata para a sua Vida. Naquele que se tornou pobre por nós, as riquezas de Deus se tornam disponíveis para nós. Naquele que se tornou servo por nós, somos surpreendidos pela liberdade de Deus. Naquele que se tornou pecado por nós, os pecadores, tornamo-nos a justiça de Deus no mundo.

Aquele que o kerygma da Páscoa proclama Senhor se tornou servo por nós (Filipenses 2) para nos transformar de servos em livres senhores de todas as coisas. Assim sua morte na cruz "por nós" nos faz pecadores e ímpios, e ao mesmo tempo justos e filhos de Deus. "A cruz é o seu método, e ela permanece perene."*

É exatamente quando compreendemos o sentido substitutivo de sua morte como uma forma antecipada de sua ressurreição diante de nós, que a tradição temporal e escatológica de seu caráter substitutivo se torna clara. Se o reino de Cristo é delimitado em essência e tempo pela ressurreição dos mortos, que se deu com ele, mas ainda não se deu conosco, então seu caráter substitutivo é baseado e delimitado por sua morte. O poder reconciliador de seu sofrimento e morte é o poder de sua ressurreição. Porém, seu propósito não é tornar a si mesmo supérfluo, mas tornar-se a base da nova e redimida existência, que pertence ao Cristo crucificado.

*Ver W. Schrage, op. cit., 57f.

MOLTMANN, Jürgen. The Eschatological Trial of Jesus Christ. In. The Crucified God: the cross of Christ as the foundation and criticism of Christian Theology. Tradução para o ingles de R.A. Wilson e John Bowden. Londres: SCM Press, 2001, p. 190-192

O texto acima foi retirado do livro "The Crucified God", tradução livre para o português por Rafael de Oliveira Faria em setembro de 2011, posteriormente editado e lançado na língua portuguesa como "O Deus Crucificado: A cruz de Cristo como base e crítica da teologia cristã" pela editora Academia Cristã e pela Paulus.

2 de março de 2017

Sobre romance, quaresma e moderação


Prudência já foi um nome popular. Outras virtudes, como esperança e caridade, ainda detêm seu prestígio, mas ser 'prudente' não tem sido popular desde que o primeiro presidente Bush era um jovem lutando a Segunda Guerra Mundial.

Até grupos de jovens cristãos que visito costumam ostentar serem 'radicais' por Jesus. Essa é uma má ideia, porque a religião imoderada tem causado ao menos tantos problemas ao mundo quanto o secularismo imoderado. O cristianismo não é revolucionário, porque a virtude só pode ocorrer gradualmente a homens caídos, se é que há de ocorrer.

A revolução em nome da virtude é como matar um homem para salva-lo. Pergunte aos iranianos.

A imoderação religiosa pode levar aos de nós que estão no ministério a ignorar nossas obrigações familiares para 'amar a Deus'. Esquecemos que não podemos amar ao Deus que não vemos, se não podemos amar ao irmão que vemos.

A Moderação diz: "Terei o suficiente, e não mais". A Moderação requer do cosmos apenas o 'pão de cada dia' e não acha que todo dia é um dia de banquete. A Moderação diz ao Eros: "Não estrague o meu amor futuro exigindo mais hoje do que o devido".

Uma economia baseada no consumo nunca dirá "Seja prudente". Ela vai exigir o último produto da Apple e gastar milhões para zombar de quem economiza. A publicidade é tão onipresente que a usamos livremente em nossas roupas como sinal de status.

O Amor é o maior poder no Cosmos, mas o Amor requer Moderação para poder durar. O amante deseja paixão total, mas o Amor quer que o amado floresça e ame para sempre. A Moderação auxilia o Amor a tornar isso possível através de seu conselho virtuoso.

O recente longa-metragem de Jane Eyre me lembrou do papel da Moderação no romance. Quando eu era mais jovem, minha paixão natural desejava um grande romance e me levou a um tipo de amor que desafiava até a Deus, um amor que era pagão; e não cristão. A Moderação me disse para buscar intimidade e deixar o amor crescer de forma lenta e apropriada.

Por mínimo que fosse, o Eros da minha natureza pecaminosa exigia um cometimento absoluto a algum amado, seja um deus, uma causa ou uma mulher. O Amor desejava um romance cósmico e isso significa ser menos romântico hoje para que o amor possa durar para sempre.

O homem realmente apaixonado abrirá mão do banquete de hoje pelo amanhã. Ele vai reconhecer a Quaresma para poder ganhar a Páscoa. A intimidade lenta moderada é menor no início, mas se torna significativa depois de vinte cinco anos de dores e prazeres compartilhados.

O homem que bebe demais logo não poderá beber de novo. O glutão, como eu sei muito bem, eventualmente terá mais sofrimento do que prazer ao banquetear-se. O amor imoderado logo tornará tóxico o próprio objeto de desejo do amante.

A Moderação não é uma moralista aborrecida; mas uma Mãe fecunda que ama tanto o banquete que aconselha o jejum. Ela adora tanto a Beleza ao ponto de me exortar a virar a cabeça diante da Beleza que eu ainda não tenho como experimentar apropriadamente. A Moderação transforma uma primavera de quaresma em um generoso verão.

John Mark Reynolds, First Things

1 de março de 2017

A Luta entre o Carnaval e a Quaresma

A Luta entre o Carnaval e a Quaresma // Pieter Bruegel o Velho, 1559
A obra "A luta entre o Carnaval e a Quaresma" ilustra o conflito dualista humano, uma tensão entre o impulso religioso e o desejo excessivo por prazer, exclusivamente através dos sentidos (sensual). É uma expressão quase cirúrgica do que temos nas culturas da cristandade, a entrega desenfreada antes que a quaresma chegue ou, em outros casos, a entrega para o prazer antes que a seriedade do ano com sua rotina pesada chegue – afinal é carnaval e tudo está liberado.

O paradoxo entre "natureza e graça" e "santo e profano" faz com que alguns recorram a caminhos que vão do isolamento cultural, com aparente "pureza", suprimindo a natureza (os prazeres da carne) até a entrega total mesmo que termine na sarjeta.

O religioso pode no carnaval ver o caminho da vida a partir do monastério das abstinências, e de lá, levantar sua vara de "justo juiz" com nojo dos depravados em folia. O folião tende a dar vazão aos desejos obscuros dentro de si que não conseguem vir à superfície todos os dias, e se concentra apenas nisso, agindo de uma forma individualista. Ambos os casos são feios de mais, pois ignoram o que há de mais precioso e prazeroso e negligenciam as reais necessidades que nos cercam – Geralmente em tempos de prazeres assim as atrocidades não mobilizam e nem chocam.

Ante a isso tudo, o que resta geralmente ou é um sentindo de que não se aproveitou como os outros ou então uma ressaca moral por ter ido parar na sarjeta.

Que no carnaval encontremos a fonte do prazer e nos satisfaçamos por inteiros nela. Essa fonte que nos leva ao outro, ao próximo, não nos restringe à satisfação egoísta, mas nos toca para ver aqueles que têm sede de vida, aqueles que sofrem na existência.

Lucas Louback

8 de novembro de 2016

Alguns pensamentos sobre a exortação cristã

A crítica e a exortação cristãs nunca devem ser feitas considerando-se apenas o conteúdo dos pensamentos que estão sendo questionados. Elas não podem ser um debate de ideias.
Arte e stencil do Movimento Mosaico.
As críticas e exortações como práticas cristãs não devem ser feitas de forma objetiva, pois elas não exprimem uma relação sujeito-objeto; mas uma relação de pelo menos duas pessoas e esta deve ser considerada. É na relação Eu-Tu, na relação real entre pessoas reais, é que nos constituímos seres humanos. Considerar o outro ser humano e todas as suas limitações, sua estrutura, seu intelecto, sua história, sua vivência e experiências não é cair no sentimentalismo, é tornar-se humano. Quando se julga o outro, mesmo que o conteúdo do julgamento em si seja correto e mesmo que as motivações para tal sejam amorosas, corre-se o risco de passar por cima ou ignorar a pessoa do interlocutor, a outra parte da relação.

Primeiramente, reconheçamos que a natureza da verdade cristã é relacional: ela não pode ser considerada objetiva ou científica do ponto de vista moderno. Nós conhecemos o Deus do teodrama da narrativa bíblica e sua revelação no Cristo dentro e a partir do nosso relacionamento com ele e com sua mensagem. Afirmar a doutrina da Encarnação é afirmar que o Kyrios-Cristo e as próprias Escrituras assumiram (respectivamente) forma e formas humanas, foram revelados através da história e de diferentes contextos culturais. São culturas que possuem origens diversas, que são repletas de ironias, paradoxos, teodicéias e mistérios. O próprio Deus entrou em nosso mundo simbólico-pístico-econômico-psicossocial, ou, simplesmente, humano, para se relacionar conosco como comunidade de pessoas, em nossos "próprios termos": usando nossas linguagens e tradições linguísticas, com todas as ambiguidades e nuanças intrínsecas a elas.* (Para discussões mais abrangentes sobre esta questão, ver o livro "O Drama da Doutrina" do Vanhoozer e o ensaio "Transposição" do C. S. Lewis.)

E, ainda, o Espírito que nos conduz à verdade, cujo aspecto fenomenológico e relacional falamos acima, é o mesmo que nos une. Nós precisamos dele para podermos exortar a um irmão ou irmã. E precisamos do Cristo crucificado como o nosso modelo de ação e de relacionamento, além de como mediador e elo na nossa relação com o outro. Se nos recordarmos de que a própria dinâmica trinitária, que os teólogos chamam de Pericorese, é como uma dança divina em que as três pessoas da Trindade se doam e se derramam constantemente umas sobre as outras, veremos claramente como deve ser a nossa vida espiritual, se desejamos nos tornar a "imitação de Deus" (Fr. Richard Rohr), aceitando a nossa vocação de Imago Dei.

O amor se alegra com a verdade (1 Coríntios 13) e a exortação cristã é um imperativo do amor. Mas o amor também tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta (idem). Para agir com relação ao próximo, corrigi-lo quando ele se encontra em erro e amá-lo de forma cristã é preciso mais do que agir a partir do nosso próprio conceito e esforços de amor. É necessário ter o amor divino como motivação, reconhecer a natureza da verdade, amando-a, e seguir o modelo Crístico de abnegação, considerando a pessoa em mais alta estima: é andar no Espírito.

É preciso reconhecer que a linguagem meramente simbólica, com todos os seus conjuntos de códigos, é limitada e não se constitui como ponte perfeita para o relacionamento humano. A comunicação pode ser muitas vezes capciosa e traiçoeira e o que você fala pode se transformar, para quem ouve, em algo que não foi exatamente o que você quis dizer. Suas boas intenções e seu cuidado não são o suficiente para transcender todas as barreiras de valor, de cultura, de criação e de personalidade entre você e o outro e a sua repreensão pode se apresentar como temerária para ele. O amor exige que se beba o cálice do outro, que se saia de si para encontrar o outro em toda a sua humanidade. É amar o próximo como a si mesmo. É preciso um movimento humanizador intencional aqui de esvaziar-se de si (Filipenses 2) entrar no mundo do outro, colocar-se no lugar dele, conhecer seus medos, sua compreensão de mundo, seus conceitos de felicidade.

Tal movimento inclui abrir-se para todo o sofrimento que tal relação tem a possibilidade de trazer. É estar disposto a comprometer-se com o outro e a se decepcionar. Não só dar a outra face, mas apanhar. É comprometer sua própria integridade em abnegação e amor autossacrificial. É levar a cruz no lugar do outro.
"Tende em vós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus, que, existindo em forma de Deus, não considerou o fato de ser igual a Deus algo a que devesse se apegar, mas, pelo contrário, esvaziou a si mesmo, assumindo a forma de servo e fazendo-se semelhante aos homens. Assim, na forma de homem, humilhou a si mesmo, sendo obediente até a morte, e morte de cruz."

(Paulo aos Filipenses, cap. 2, vs. 5-8, tradução Almeida século 21)
Porque eu creio no Espírito Santo, na Una, Santa, Católica e Apostólica Igreja, na comunhão dos santos, no perdão dos pecados, na ressurreição do Corpo e na vida eterna. Amém.

25 de outubro de 2016

O que diabos (não) é "cosmovisão cristã"

"Eu acredito no cristianismo como eu acredito no sol que está nascendo: não apenas porque o vejo, mas porque através dele eu vejo todo o resto."
(C. S. Lewis. Is theology poetry?, Oxford, 1944)
Alguns amigos têm criticado ferozmente e, na minha opinião, de forma superficial o conceito de "cosmovisão cristã" e quem o adota. Um deles o faz como se tal conceito especialmente agregasse gente raivosa, sectária e fundamentalista. Ora, esse não é um mal da "cosmovisão cristã"; todas as "ortodoxias" cristãs do nosso contexto têm essa enfermidade, incluindo o luteranismo, o calvinismo e a ortodoxia progressista evangélica (e se tem).

Na realidade, cosmovisão cristã é um conceito que surge de um tratamento cuidadoso e realista da catolicidade da fé cristã, mas tem sido muito pouco compreendido e geralmente quem o recusa ou o execra não chega realmente a lidar com ele de forma honesta. Primeiramente, lembremos que a mensagem cristã não começa em "João 3.16" e as crenças cristãs não dizem respeito apenas à salvação do crente e à sua experiência espiritual (ou subjetiva) que dá a conversão e consequente mudança de vida, esse cristianismo dualista que a igreja atual prega, o chamado Gnosticismo Evangélico.

A mensagem cristã começa em Genesis um, e não diz apenas a respeito de uma área isolada da vida em detrimento do resto. Deus criou a vida, a beleza, as propriedades do mundo físico, as leis morais que existem dentro de nós, as possibilidades das formas do mundo social. O próprio imperativo de produção e reprodução da vida humana em todas as suas complexidades estão enraizados nas crenças cristãs históricas, incluindo os ethos e conceitos dos cristãos para a justiça, trabalho, relacionamentos sexuais, relacionamentos interpessoais e nosso relacionamento com a criação. Como dizia Bonhoeffer, Cristo é o Mediador de todo e cada um dos nossos relacionamentos. E é preciso pensar quais implicações tal mediação tem em nossos diferentes relacionamentos e nas diferentes áreas de nossas vidas. E ainda, é importante lembrar que isso não é inovação e nem exclusividade de quem fala em cosmovisão cristã; isso pertence ao cristianismo histórico.

E, no entanto, a linguagem que resgata essa perspectiva traz um renovo à visão da missão da Igreja, não como o evangelismo do mero proselitismo, de salvar "almas", ou o evangelismo racionalista de aderir intelectualmente a alguns dogmas, mas de reafirmar a vida em si com todas as instituições com as quais ela foi criada, incluindo sua teleologia de adoração ao Criador. É preciso pregar o Mandato Criacional (Genesis 2), para ser possível pregar a Grande Comissão (Mateus 28). É preciso afirmar um modelo específico de vida para discipular as nações sobre como viver. O fato é que o cristianismo tem crenças razoavelmente definidas sobre o mundo e sobre a vida, chame isso de cosmovisão cristã ou não.

Weltanschuung é o termo da filosofia e da sociologia alemã para "visão de mundo", usado de formas diversas dependendo do teórico que a usa. A tradição reformada holandesa foi a primeira a usar para se referir aos movimentos písticos da cultura e, no meio deles, às crenças cristãs. Todas as culturas têm dentro de si conjuntos não necessariamente teóricos e mais ou menos definidos de conceitos de felicidade, de eudaimonia, de belo, de verdade, de moral, cosmologias, cosmogonias, heróis, soteriologias. São experiências existenciais, linguagens e conjuntos e códigos simbólicos, ideologias e teorias do conhecimento que funcionam tanto intelectual quanto afetivamente como bússola, uma língua ou um óculos, que todo mundo possui, através do qual vemos, nos guiamos e nos relacionamos com o mundo.

Essa tradição reconheceu no teodrama do cristianismo uma metanarrativa, que, como uma forma de linguagem, explica o mundo no qual somos inseridos por Cristo por meio do Espírito Santo. Fomos inseridos na vida trinitária através da teóse, mas também fomos inseridos na história do relacionamento de Deus com o ser humano e com o mundo que Ele criou, que se rebelou contra ele, e fomos inseridos na grande história da restauração de todas as coisas. A mensagem do cristianismo é a história da salvação, mas é uma história maior. Resgatando a abordagem de Irineu de Lion, esses reformados falavam de "Criação, Queda e Redenção" dos seres humanos e do cosmos. O cristianismo não é para salvar almas; ele é a inserção de toda a humanidade e de todas as realidades atuais na realidade de Deus, que é a última realidade. Em seu contexto original, "cosmovisão cristã" apenas a afirmação da doutrinas clássicas do cristianismo e a lembrança de que ele é católico, de que ele é universal, de que ele é para toda a realidade e de que o cristão tem acesso à realidade através dele.

O perigo e o erro comum de quem conhece e usa o conceito é o de pensar que em vez de um relacionamento com o Deus trino e os princípios e pathos morais e estéticos que vêm com esse relacionamento, cosmovisão cristã é uma forma definida e dogmática de se pensar sobre cada esfera específica da vida, como (e principalmente) artes, ciência, política e economia. Originalmente usado por gente da tradição reformada holandesa, incluindo os da herança do L'Abri, o conceito cosmovisão cristã tem sido usado ultimamente por gente querendo associar o cristianismo com tradições políticas e econômicas específicas. De alguns anos pra cá tenho ouvido muitas pessoas economicamente liberais ou politicamente conservadoras se referindo às suas opções ideológicas como "cosmovisão cristã", e ainda, A VISÃO cristã correta sobre economia e política.

Não. E não é que a mensagem cristã não fale de coisas como economia ou política, é que ela é maior do que essas coisas. Ela não prescreve uma forma específica de sociedade ou fala de forma direta sobre as formas de sociedade que existem. Em alguns casos, possui convergências com determinado tipo de modelo político ou econômico, noutras, com outros (e do outro lado do espectro político ou econômico). A verdade pertence a Deus, e todos os sistemas humanos terão falhas e provavelmente terão acertos (devidos à graça comum, um conceito teológico que nós gostamos de afirmar). Lembremos que Kuyper e os filósofos reformacionais da tradição reformada holandesa pregavam tanto contra o progressismo revolucionista, quanto contra o liberalismo econômico e até mesmo contra o conservadorismo.
"No fim das contas o que a Bíblia diz sobre justiça social não pode ser ligado a nenhum sistema político ou econômico. Se possível, devemos tirar a política dessa equação quando estudamos seriamente o chamado bíblico para que se faça justiça."

(Tim Keller em Justiça Generosa)
O errado é instrumentalizar a mensagem cristã para determinado fim político, seja de direita ou de esquerda. Isso é o que queremos dizer com "ideolatria". É dizer que o keynesianismo ou o liberalismo ou qualquer outro modelo econômico ou político específico é o modelo biblicamente correto. É imiscuir ideologias políticas na mensagem cristã, agregando-as como se fossem da mesma natureza. E fazem isso tanto a direita que se aproveita equivocadamente, e até de má fé, da tradição e do conceito de "cosmovisão cristã" para defender seus (neo)liberalismos e conservadorismos historicistas, quanto os evangélicos brasileiros progressistas, que reificam o Verbo ao usar da mensagem cristã para pregar suas visões e projetos políticos, sobrepondo a pregação do evangelho pelo emprego de tais soteriologias, o que é o caso de certas alas undergrounds da ABU e a gente dos diálogos novos. Estes também execram e desprezam os que não compartilham da visão deles.

Bem, meu caro amigo. Acho que o problema aqui é exatamente a falta da hospitalidade (Schaefferiana, por ironia) no lugar do sectarismo e belicosidade fundamentalista, além do problema ideológico ao qual eu me referi, que não é exclusivo de quem faz uso do conceito "cosmovisão cristã"; e não com o conceito em si. Pelo primeiro caso, eu também lamento muitíssimo porque ele sacrifica a mais preciosa dádiva e mandamento do cristão no altar da ideologia. Porém, se o seu problema for o conceito em si, eu te peço pra deixar de lado os julgamentos mais rasos e se engajar melhor com a questão.

9 de maio de 2016

Lembrando dos Horrores de Haryana

"The Haryana horrors", matéria de autoria da jornalista e escritora Rashme Sehgal, publicada pela Deccan Chronicle em 14 de outubro de 2012. Este texto vai falar de estupro.

O território de Mahabharata continua a ser território de tabus para as mulheres e terra de licenciosidade para os homens fazerem as piores coisas. Patriarcado, misoginia e Khap Panchayats são todos responsáveis pelas atitudes que fizeram de Haryana a "capital indiana do estupro". O que mais explica o fato de que os perpetradores de 19 estupros no último mês (com vítimas que variam desde uma menina de 6 anos de idade até uma viúva idosa), todos audaciosamente fizeram vídeos de seus próprios crimes e ameaçaram torna-los públicos se suas vítimas reclamassem?

Ao menos aqui, as estatísticas não mentem. O pequeno estado de Haryana tem a distinção evidente de ser a "capital indiana do estupro". Dezenove mulheres estupradas no último mês, muitas delas por estupros coletivos. Foi relatado o envolvimento de quarenta e nove homens na perpetração dessas atrocidades.

Os horrores estão nos encarando diretamente. Uma menina dalit (da casta dos "intocáveis" da Índia) de 16 anos ateou fogo em si mesma e morreu na cidade de Jind no último sábado após ser vítima de um estupro coletivo. Uma menina de 13 anos foi estuprada na última segunda-feira em Rohtak, a cidade natal do ministro chefe Bhupinder Singh Hooda.

Entretanto, esses incidentes, e muitos antes deles, não fizeram a maquinaria oficial entrar em ação, pois dois dias depois, uma menina dalit deficiente mental de 15 anos foi estuprada na mesma cidade.

Cada incidente desses parece mais sórdido que outro. Uma mulher de 30 anos, casada, foi estuprada à mão armada por três homens do lado de fora de sua casa na cidade de Pillukhera, distrito de Jind. Uma menina de 16 anos foi estuprada por quatro homens na cidade de Gohana na última sexta. Ela tinha ido comprar mantimentos e o dono da loja a mandou buscar parte deles num armazém próximo, onde ele e outros três garotos a estupraram. Uma garota recém-casada de 19 anos foi raptada e estuprada repetidamente durante quatro dias consecutivos perto da cidade de Sonepat.

Rohtak, Hissar, Jind, Bhiwani, Yamunanagar, Panipat, Sonepat, Ambala, Karnal, Faridabad, Kaithal. Meninas novas e mulheres foram submetidas ao horror em praticamente todos os distritos de Haryana no último mês.

E pior, as meninas não são apenas estupradas. Os estupradores não tem nenhum pudor em gravar vídeos de si mesmos praticando o ato, e em ameaçar circular os vídeos para toda a população das aldeias se elas reclamarem, seguros na crença de que a humilhação será apenas das vítimas, e de que ninguém, nem os moradores, nem a polícia vai levantar um dedo contra os agressores.

Uma ameaça assim foi feita a uma estudante dalit de 16 anos na cidade de Dabra. E embora ela tenha se sujeitado a não relatar como ela foi sequestrada, vendada, amordaçada e estuprada no dia 9 de setembro, quando ia para a casa de sua avó, os estupradores usaram celulares para tirar fotos da menina sendo submetida às suas depravações e as mandaram para o pai dela.

O pai, perturbado, cometeu suicídio. Grupos de dalits furiosos fizeram acampamento na frente da casa dele e juraram que não deixariam que o homem fosse cremado até que alguma medida fosse tomada contra os estupradores.

Mas qual foi a resposta da polícia e dos administradores a esses crimes? O principal chefe de polícia do estado, o diretor geral de polícia Ranjiv Singh Dalal disse que os casos de estupro não estão aumentando, mas que, na verdade, tiveram uma queda com relação ao ano passado. "Há 80 casos a menos neste ano do que em 2012", disse Dalal aos repórteres.

E o ministro chefe do estado Bhupinder Singh Hooda disse o seguinte, depois de alegar que os relatos de estupro eram uma conspiração política para desestabilizar o governo: "Somente o pronto registro de queixas de informações primárias (FIRs) pela polícia do estado é que tem causado uma imagem ruim do estado".

"Nossa polícia foi ordenada a registrar todas as queixas. Isso não acontece em outros estados." As estatísticas da diretoria geral da polícia vão gerar algum conforto para as vítimas de estupro? Ou será que elas deveriam se consolar com a declaração do ministro chefe de que elas não são as únicas vítimas desse crime horrendo, já que outras mulheres em outros estados também foram estupradas? E ainda, será que é mesmo verdade que a polícia de Haryana registra prontamente as queixas de informações primárias em casos de estupro?

Há alegações de que a maior parte dos estupros são atos de vingança de casta contra mulheres dalits. "Os dalits estão se tornando mais veementes na articulação de seus direitos. Isso resultou em uma consolidação entre os Panchayats", disse o Dr. Prasad Srivella do Movimento Nacional Dalit Pela Justiça, que tem monitorado a violência contra mulheres dalits nos últimos dois anos.

Casta, além da questão de gênero, é talvez também o motivo de queixas não serem registradas contra agressores quando não há a pressão de grupos da sociedade civil. Srivella diz que ainda deve levar um tempo para que a polícia e oficiais do governo sejam repreendidos por seus atos de omissão e ordens de obstrução de justiça para as vítimas de estupro.

"Nem uma única queixa foi registrada contra a força policial por sua falha em proteger as mulheres. Ao avaliarmos uma série de atos informativos (RTIs) feitos no país inteiro, nós chegamos à conclusão de que nem uma única queixa foi registrada contra qualquer oficial do governo sob a Seção 4 do Ato de Prevenção de Atrocidades das Castas e Tribos Registradas.

Porém o superintendente de polícia de Hisar, B. Satheesh Balan, diz que não são apenas mulheres dalit que são alvos. "Das 38 queixas registradas em Hisar, seis eram casos falsos, enquanto nos outros 26, o acusado e a vítima eram da mesma casta. Somente em três casos o acusado era de uma casta superior."

Ranjana Kumaro, diretora do Centro de Pesquisa Social, cita o testemunho de um réu por estupro para defender a tese de que nem todos os casos de estupro são anti-dalit. "Não sabíamos de qual casta ela era. Se soubéssemos que ela era uma dalit, não teríamos encostado nela", disse o réu.

Se casta é um fator ou não, gênero certamente é. E a discriminação é profunda e está em toda a sociedade. Jagmati Sangwan, presidente das Associações Democráticas das Mulheres Unidas (AIDWA), diz que toda a máquina do estado é contra as mulheres

A situação é agravada pela situação demográfica extremamente deformada em Haryana, de 83 mulheres para cada 100 homens de acordo com o senso de 2011. Um agricultor no distrito de Rohtak me disse: "As mulheres aqui se tornaram tão raras quanto cereais num período de fome. Homens com idade de casamento não têm empregos e, portanto, não acham esposas".

Khap Panchayats, os tribunais tradicionais dos anciãos das aldeias, são uma relíquia dos tempos sombrios. Eles só têm servido para deixar as águas ainda mais turvas. Essas corporações de dominação masculina acreditam que a solução para o estupro é diminuir a idade de casamento para as mulheres de 18 para 16, um ponto de vista apoiado pelo ministro chefe Om Prakash Chautala, dentre outros políticos, embora não exista qualquer evidência da eficácia de tal medida.

E na verdade, mulheres casadas também foram vítimas de estupro neste mês.

A ativista Sujata Madhok acredita que não foi apenas a natureza patriarcal da sociedade de Haryana que contribuiu para o aumento dos conflitos sociais. Há também muito dinheiro e um novo materialismo que uma sociedade agrária tradicional ainda não foi capaz de reconciliar.

"Tem havido uma afluência maciça de fundos para as mãos de alguns camponeses que se tornaram agentes imobiliários. O resultado é um estilo de vida perdulário e ambicioso, agravado pela exposição à televisão e filmes. O fato é que eles não têm os recursos sociais para se ajustar à sociedade em mudança, ainda que as mulheres estejam sendo expostas à educação."

Em qualquer outro país do mundo, os políticos estariam lutando para pôr fim ao horror de estupros que parecem tomar uma cidade após a outra na Índia (pense em Delhi e Calcutá), mas aqui o estupro rapidamente se tornou uma questão política.

Quando a presidente do congresso, Sonia Gandhi, visitou Haryana no início dos crimes deste mês, a liderança do partido parecia mais interessada em conduzi-la para longe de qualquer crítica pública feita ao ministro chefe do partido e em usar a visita para marcar pontos políticos. Eles a levaram para a área Narwana do distrito de Jind. Claro, uma menor dalit havia cometido suicídio ali depois de ser vítima de um estupro coletivo, mas suspeita-se que, na verdade, ela foi levada para lá para se encontrar com um deputado do partido Bharatiya Janata.


E enquanto essa matéria estava sendo escrita,

Fatehbad:

Uma menina de 13 foi estuprada em Panipat por um vendedor de frutas de 60 anos. Uma viúva foi estuprada em Ambala.

19 estupros em um mês

Estupro em Gurgaon:

Uma menina de seis anos, atraída com chocolate, foi estuprada por três homens em Gurgaon em 12 de outubro.

Estupro coletivo em Jind:

Uma menina adolescente em Jind morreu ao atear fogo em si mesma na noite de 7 de outubro, depois de alegadamente ter sido vítima de um estupro coletivo.

Estupro em Bhiwani:

Uma menor foi estuprada em Bhiwani em primeiro de outubro.

Estupro coletivo em Sonepat:

Uma estudante de 16 anos foi vítima de estupro coletivo em Gohana, próximo a Sonepat, por quatro homens no dia 27 de setembro numa área comercial movimentada.

Estupro coletivo em Jind:

Na mesma semana, três homens invadiram a casa de uma mulher casada e a estupraram, enquanto sua filha gritava em terror do lado de fora da casa. Os homens fizeram vídeos do crime e ameaçaram torná-lo publico.

Estupro coletivo em Hisar:

Uma menina dalit de 16 foi vítima de estupro coletivo por oito homens de casta superior em 9 de setembro em Dabra, Hisar. Quando a polícia se recusou a registrar queixa, o pai da menina cometeu suicídio.


Mulheres, vocês não devem:

  • Entrar em pubs:

Em 2009, em Mangalore, capangas do grupo Sri Ram Sena espancaram um grupo de moças e rapazes porque o chefe Sena, Pramod Mutalik disse que "mulheres irem à pubs é inaceitável. Elas violam os valores tradicionais indianos". Em julho de 2012 grupo Hindu Jagarana Vedike atacou uma festa de aniversário em uma casa de família em Mangalore e espancaram, despiram e molestaram cinco meninas. Eles estavam salvando a cultura indiana, é claro.

  • Usar telefones celulares

Em julho de 2012, o Panchayat da aldeia Asara no distrito de Baghpat em Uttar Pradesh baniu casamentos não arranjados, proibiu garotas de usarem telefones celulares e até proibiu mulheres de menos de 40 anos de fazerem compras. "Casamentos não arranjados são uma vergonha para a sociedade, especialmente para os pais da noiva, porque atentam contra sua respeitabilidade", explicou o membro do Panchayat Sattar Ahmed.

  • Usar calça jeans

O que há em comum entre o Departamento de Mulheres e Crianças de Haryana, as principais faculdades em Kanpur, a Faculdade Pública de Bhopal, a Faculdade Krishna Menon em Mumbai, a Universidade Anna em Chennai e a aldeia Shoram em Uttar Pradesh?

Esses, dentre outros, todos baniram o uso de jeans por mulheres/garotas e todo tipo de roupas apertadas e sem mangas, porque são "obscenos", "provocadores de abuso sexual", "violadores da cultura indiana", etc. Neste ano em Jarkhand, o partido rebelde Jharkhand Mukti Sangh emitiu uma proibição de calças jeans e ameaçou ataques com ácido contra garotas que forem encontradas usando-as.

1 de janeiro de 2016

Meu top 5 2015

Este ano foi um ano intenso, cheio de bagagem emocional e assassinatos em massa, distúrbios políticos, intrigas, desastres ambientais, guerras, violência, radicalismo religioso, xenofobia, racismo e outras feridas. As coisas não mudaram tanto assim. Parece que o projeto civilizatório do humanismo secular não levou o mundo para o progresso e não curou suas chagas. O próprio progresso é uma crença religiosa mal explicada e concebida, alheia à realidade humana. É preciso de uma solução mais estético-relacional, mais coletiva (não coletivista). A alteridade, a arte, o encontro com o outro e com o mundo têm que voltar a estar no centro de um projeto de vida que seja sustentável e digno. Como diz o velho Dosta, "a beleza salvará o mundo".

Mudando de assunto, quero revisitar algo da arte deste ano. Quero mostrar formas positivas que o ano de 2015 tomou. Pra isso fiz três listas, em cada uma destaquei 5 realizações, que ficam aqui como retrospectiva e sugestões. Especificamente 5 filmes, 5 discos e 5 livros que eu vi, ouvi e li em 2015. Procurei selecionar apenas filmes e discos lançados neste ano. Já os livros são todos antigos, porque diferente do cinema e da música, o peso da novidade não é tão grande. Ainda assim, são leituras relevantes e as recomendo.

Enjoy.

Cinema


Mad Max: Estrada da Fúria é uma alegoria pós-apocalíptica sobre o deserto da condição humana e sobre como nós somos devastados pelos nossos desejos. Nesse mundo pós-apocalíptico australiano não há disfarce para a representação das lutas que acontecem dentro de nós e dos conflitos do poder e da vontade humana. Intenso sequências de ação, na narrativa e nas cores. É daqueles filmes em que a narrativa não precisa ser complexa, mas por ser afetiva e esteticamente envolventes alcançam uma profundidade satisfatória e até maior que de filmes com narrativas convencionais. Os personagens são maduros e sempre fogem dos lugares comuns.
Em Ex Machina de Alex Garland, o CEO de uma grande companhia de informações (como a Google) desenvolve um misterioso projeto de inteligência artificial em sua fortaleza na floresta e convida um jovem programador para ser o elemento humano num teste de turing (que testa se uma máquina consegue 'pensar' em termos humanos, de ter consciência). Começa usando discussões das capacidades e limites da inteligência artificial e então, seguindo os passos de "Her" e brevemente introduz o tema da sexualidade na inteligência artificial, de uma forma que resgata as reflexões mais profundas do estruturalismo francês sobre sexo e sociedade. Melhor ficção científica do ano.
Whiplash de Damien Chazelle tem atuações sensacionais dos seus atores principais: Milles Teller faz o jovem aspirante e músico de jazz, Andrew, que conseguiu entrar no mais importante conservatório do país e, posteriormente, na banda de Fletcher (J.K. Simmons), o maestro mais valorizado do lugar. A sofisticação e perfeição técnica de Fletcher só não é maior que os seus métodos cruéis e seus excessos ao lidar com seus alunos, o que chega a afetar emocionalmente Andrew. Whiplash é um drama moderno, quase um suspense, sobre o ego humano em desespero que se lança ao mundo de forma introvertida em uma busca frenética por reconhecimento, identidade e sentido, até mesmo, usando uma experiência de transcendência, que é a música. Paradoxal, não?
Adeus à Linguagem é um filme experimental que o diretor da nouvelle vague, Jean-Luc Godard fez em 3D. O filme faz você transitar em mundos diferentes de linguagens enquanto mostra o cachorro do Godard em várias tomadas de auto-descorberta, dentre outras histórias paralelas. Seu adeus às formas de linguagem cinematográficas, linguagens amorosas, linguagens textuais, usa todas essas linguagens pra deixar aquela impressão típica do Godard de que a linguagem e comunicação nunca foram mais que uma ilusão. E isso tudo usando pessoas e ideias importantes do pensamento social e filosófico.
Birdman, ou A Inesperada Virtude da Ignorância, é uma homenagem ao mundo das artes da interpretação. Ganhador de vários Oscars, incluindo de melhor filme, Birdman critica de forma ácida e genial o cinema mainstream, principalmente blockbusters à la Michael Bay. Com atuações muito fortes, ele convence completamente. Mas o principal aqui é a direção de fotografia do Emmanuel Lubezki, que também ganhou o Oscar aqui e pelo segundo ano seguido (!), que parece ser coisa de outro mundo, uma vez que o filme parece ser todo feito de uma ou duas tomadas, mesmo com uma dúzia de cenários diferentes.




Música


The Book of Souls da banda britânica de heavy metal Iron Maiden é o trunfo do heavy metal neste ano. Composto primeiramente, na maior parte, como trabalho solo do Bruce Dickinson, o disco é um dos mais musicalmente sofisticados do NWOBHM. Tem vocais melódicos, riffs selvagens, calvalgadas que lembram os anos 1980 e uma temática meio asteca. O mais impressionante é que o Bruce gravou o vocal ao lutar contra um cancer de garganta! Ouça esse disco.
In Colour do Jamie xx. Eu comecei a ouvir música eletrônica com o Random Access Memories do Daft Punk de 2013. Não entendo muita coisa do(s) gênero(s) ainda, então não sei muito o que dizer dele. Música eletrônica tem muita coisa ruim e comercial e In Colour não decepciona. Tem profundidade musical e emocional e levou 6 anos pra ser feito. É dançante. Sei lá. Você tem que ouvir pra entender o que é. É bom.
Akeda do Matisyahu, que acompanho desde 2006. Esse judeu tem um talento natural pra reggae, dub, hip hop e rock! E seus discos são artefatos onde ele derrama de sua vida e de suas experiências. Akeda é verdadeiro e esperançoso, apesar de toda a dor que o afeta e todas as crises e motivos para desespero. Positive vibes, só que da vida real. É pura coragem existencial.
A Menina Ainda Dança (Baby Sucessos) da Baby do Brasil é alegria. Pura alegria é o que fez a Baby voltar para os palcos. Pura alegria é o que a fez retomar o antigo repertório e tocar com seu filho o instrumentista Pedro Baby, que produziu a gravação ao vivo do cd e dvd. Com a participação de Caetano Veloso, ela traz também algumas músicas dos tempos de Novos Baianos.
Carrie & Lowell do Sufjan Stevens é tristeza. E luto e lamento. Às vezes sóbrio, às vezes não. Mas sua musicalidade é sempre sóbria. A arte de Sufjan Stevens sempre é influenciada por suas experiências de vida e por sua religiosidade. O Carrie & Lowell especificamente nasceu da experiência que ele teve com a morte de sua mãe. Sem muitos ornatos, com gravações consistentes e downbeat, esse disco folk é uma experiência de melancolia.





Leituras


Em História Sem Fim, Bastian é um garoto gordinho e inseguro que pega para ler um livro sobre um mundo chamado Fantasia. Nele, a Imperatriz Criança, que sustenta esse mundo, fica mortalmente doente enquanto o Nada começa a engolir tudo. A história deu origem a um blockbuster horrível em 1984, mas não atente muito para ele. História Sem Fim é um formidável manual de existencialismo em forma de romance infanto-juvenil. Assim como Nárnia, é uma história saturada de significado e lições para a vida e reflexões sobre coragem e bondade.
A Vida Como Ela É... é uma coletânea de crônicas de uma coluna homônima do "carioca" Nelson Rodrigues, um dos maiores dramaturgos do Brasil, durante os anos 1950. São histórias de humor, tragédia e sexualidade que por sua representação de adultério, do desejo sexual e de questões relacionadas à moralidade familiar e sexual, causou escândalo para a sociedade da época. Sua importância é hoje eminente por ser, apesar dos exageros, um bom contraponto o recente cisma entre corpo e pessoa, bem como entre moralidade e sexualidade no espírito de época atual.
Isto não é o Red Light District na Holanda. Sobe e Desce na Guaicurus: Pelas Portas de uma Zona de Prostituição de Tarcísío Badaró é um livro jornalístico com uma pitada de romance sobre a zona de baixo meretrício do centro da capital mineira, um dos principais complexos de prostituição do país, onde milhares de homens passam todos os dias e cerca de mil mulheres cobram de 10 a 30 reais por 15 minutos de prazer. Com escrita fluida e pedagógica, o livro é uma apresentação das várias realidades, contextos e vivências que existem em torno da prostituição e da região da rua Guaicurus.
A Metamorfose é o principal trabalho de Franz Kafka, escritor tcheco formidável. Na história, Gregor Samsa, um caixeiro-viajante, numa manhã simplesmente acorda transformado num inseto (não é uma barata!). Enquanto ele tenta se adaptar a sua nova condição e tenta viver na mesma casa de sua família, que era sustentada por ele, o leitor é jogado em várias reflexões sobre a condição humana em meio ao trágico e ao absurdo da vida. O romance completa 100 anos nos próximos meses.
Cartas a um Jovem Calvinista, do filósofo canadense James K. A. Smith, é uma série de cartas pastorais a um jovem ficcional, inspiradas nas "Cartas Sobre a Educação Estética do Homem" de Friedrich Schiller e no "Cartas a um Jovem Católico" de George Weigel. O conteúdo das cartas é de educação intelectual, estética e espiritual à tradição cristã reformada, incluindo a tradição reformada holandesa. O livro é muitíssimo rico em conteúdo intelectual, mas mais ainda em seu teor pastoral, cuja necessidade é de maior importância hoje. Ele não desfaz de outras tradições do cristianismo, mas as dignifica também. Se você é um cristão reformado, leia. Se não é, também leia.

19 de dezembro de 2015

Confissões de um protestante obstinado


"...o vento sopra onde quer..." (Jo 3.8)

Memórias não podem ser esquecidas. O passado, uma vez vivido, entra em nosso sangue, molda o nosso corpo, escolhe nossas palavras. É inútil renega-lo. As cicatrizes e os sorrisos permanecem. Os olhos dos que sofreram e amaram serão, para sempre, diferentes de todos os outros. Resta-nos fazer as pazes com aquilo que já fomos, reconhecendo que, de um jeito ou de outro, aquilo que já fomos continua vivo em nós, seja sob a forma de demônios que queremos exorcizar e esquecer, sem sucesso, seja sob a forma de memórias que preservamos com saudade e nos fazem sorrir com esperança.

Digo isto como prelúdio a uma confissão: sou protestante. Sou porque fui. Mesmo quando me rebelo e denuncio. Minha estória não me deixa outra alternativa. Sou o que sou em meio às marcas de um passado. Mesmo que eu não quisesse, este passado continuaria a dormir comigo, assombrando-me, às vezes, com pesadelos e fúria, às vezes, fazendo-me sonhar com coisas ternas e verdadeiras.

Sou protestante. Hoje, muito diferente do que fui. Não há retornos. Tão diferente que muitos me contestarão, recusando-me cidadania no mundo da Reforma. Alguns me denunciarão como espião ou traidor. Outros permitirão minha presença, mas exigirão o meu silêncio. O que me faz duvidar de mim mesmo e suspeitar, quem sabe, que eu seja de fato um apóstata. Mas aí protestantes de outros lugares me confirmam, ouvindo-me, dando-me as mãos, o pão e o vinho…

Sou protestante. Perderão o seu tempo aqueles que tentarem descobrir as raízes de minha fé em catecismos ou teólogos. O amor e a dor vêm primeiro. É só muito mais tarde que a gente pensa a fim de entender o sofrido e o desejado. Tudo começa com canções de alegria e tristeza, muito antes de podermos chamar nossas ideias pelo nome. E é por isto que a gente não pode deixar de ser o que foi. Mudar de ideia é muito fácil. Mas ninguém pode fazer de conta que alegrias e tristezas nunca existiram. É assim na religião. Salmos e poemas vêm primeiro. Eles pertencem às origens, preservam aquele espanto primordial frente ao sagrado. Já os tratados de teologia e as explicações doutrinárias são construções tardias, depois que passou o amor e a dor se foi, depois que o espanto acabou e ficou o vazio…

Não foi no cérebro que me tornei protestante. Ao contrário, minha fé é companheira de imagens, memórias, perfumes, músicas, solidões, retiros, caminhadas por montanhas e beira-mar; rostos, sorrisos, acampamentos de trabalho em favelas; funerais, injustiças, esperanças enterradas, algumas ressuscitadas; certezas de lealdade a toda prova… E aqui eu teria de ir colocando nomes: presenças ausentes com quem compartilho a minha vida. É isto. O decisivo não é a ideia. O decisivo é a pessoa que a gente invoca, não importa que já esteja morta…

Dizendo de outra forma: não sou protestante em virtude das ideias que tenho. Não somos o que somos por termos as ideias que temos. Temos as ideias que temos por sermos o que somos. Primeiro vem a vida, depois vem o pensar…

É muito importante entender isto. Não é curioso que tanto os inquisidores quanto São Francisco tenham se chamado "católicos"? Não é curioso que tanto as pessoas que caçaram e mataram bruxas em Salém, quanto Schweitzer e Martin Luther King, tenham se denominado "protestantes"? Afinal de contas, que magia estranha é esta que faz com que uma mesma religião seja coisas tão opostas?

Religiões são como mesas de banquetes: tudo está preparado e há desde os pratos rigorosamente destinados às dietas vegetarianas até as gorduras chamuscadas nas brasas para aqueles que gostam de carne… E os fiéis se aproximam, cada qual com o seu pratinho, e escolhem… Veja, observe: Já vão saindo com seus pratos cheios. Os lobos, os inquisidores, os caçadores de bruxas trazem nos seus pratos coisas que não se encontram nos pratos dos cordeiros e das vítimas… Escolheram as ideias que mais apeteciam aos seus paladares e menos ofendiam aos seus estômagos.

Claro que se trata de uma parábola. Estou querendo simplesmente dizer que, assim como as pessoas constroem as suas dietas a partir das exigências dos seus corpos, também elas constroem as suas teologias a partir do que elas são… E é por isto que há tantos catolicismos diferentes, dos lobos e das ovelhas… É por isto que há tantos protestantismos diferentes, dos lobos e das ovelhas… É claro que os lobos se dão  bem, não importa a cor de suas peles. E as ovelhas são sempre ovelhas, e se entendem… Seria bom tentar começar a entender o ecumenismo a partir deste ponto, deixando os debates sobre ideias para depois. Há muitas formas de organizar as experiências que o protestantismo guarda. Os inquisidores colocarão fogo nos olhos do seu deus e com o fogo consumirão aqueles que se atrevem a ser diferentes. Os pacificadores colocarão o fogo nas lanternas e nos fogões, para iluminar, aquecer, cozer…

Minha primeira experiência/memória protestante tem a ver com um hino. Meu pai tinha ido à falência. Tudo se perdeu. Morávamos numa casa velha, emprestada, daquelas fazendas antigas do sul de Minas, sem água encanada, sem privada, sem luz elétrica. Era o cheiro de querosene das lamparinas, do estrume das vacas, do capim-gordura, do milho fermentado, o barulho do monjolo, da água que caía do rego, os camundongos e os cães que ladravam pelas noites a dentro… Mas, como disse a Cecília Meireles, "quando a desgraça é profunda, que amigo se compadece?" De um homem falido fogem os amigos. E foi então que apareceu lá naquela solidão um evangelista, o senhor Firmino. Do que ele dizia nada me restou: eu só tinha três anos. Mas guardei a música que me pareceu a estória de um homem de nome esquisito, João Totrono… Depois descobri que era "Junto ao trono de Deus, preparado, tens cristão um lugar para ti…" Iniciam-se minhas memórias com uma canção que ficou sendo sacramento de uma presença gratuita e estranha, quando os rostos familiares ficaram raros.

Chamei a memória da música não porque minha biografia tenha qualquer importância, mas porque, puxando um pouco mais os fios, a gente acaba por agarrar a história. Esbarramos com a Reforma Protestante e vemos todo mundo cantando. A Reforma aconteceu através da música. Pode ser que Lutero e outros líderes intelectuais do movimento tivessem pensado com rigor os seus pensamentos, mas pessoas comuns cantaram a Reforma antes de entende-la. Quem canta é mais perigoso do que quem só pensa. O canto põe asas nos pés. Haverá outra razão para as marchas militares que põem uma mesma cadência nos passos? O canto mobiliza o corpo, imobiliza o medo, e transforma gestos solitários em caminhadas solidárias. E Lutero colocou sua fé em hinos que eram repetidos e decorados, mesmo por aqueles que – crianças, talvez – não entendiam bem as ideias. A confiança se cristalizou em imagens. Qualquer um podia entender o que significava cantar "Castelo forte é nosso Deus, espada e bom escudo…"

O espírito protestante é um espírito cantante. Símbolo disto é um homem simples, João Sebastião Bach, que juntou em suas cantatas a palavras evangélica com a grandiosidade estrutural da música. Tanto ou mais que os documentos da Reforma, a música de Bach é minha amiga. Eu a invoco sempre nos momentos de confusão. Fé cantada é melhor que fé falada. E descubro que o meu protestantismo tem muito a ver com o fato de que a música desse homem é como uma encantação mágica que desperta em mim coisas boas, adormecidas, das quais frequentemente me esqueço. E fico melhor do que sou.

Compreendo que alguém poderá dizer que gosto por Bach é coisa refinada, de gente que pode se educar, o que está proibido à maioria… É possível. Mas Bach foi apenas um dos muitos que cantaram e continuam a cantar. E esta é a razão porque não me envergonho de pular de Bach para uma casinha de pau-a-pique, lá perto de Miguel Pereira, ao fim de uma trilha pelo meio do pasto, no buraco da noite, em que irmãos pentecostais de cabo de enxada e palavra reta cantavam sua fé singela e descomplicada, ao som das cordas, dos pandeiros, dos bumbos. E de lá voo para o último domingo de Páscoa, numa missa católica para crianças, em que, para o meu espanto, repentinamente a Igreja explodiu num "Glória, Glória, Aleluia", sacudido por dezenas ou centenas de chocalhos, triângulos, pandeiros e tambores infantis, do jeitinho que manda o Salmo 150, tão lido e tão desacreditado…  Que coisa mais ecumênica pode existir que a música? Para além de tudo o que nos divide, ela dá testemunho de que nós queremos cantar, cantar juntos, cantar que é bom viver… Se a teologia tivesse sido cantada, é certo que menos fogueiras teriam sido acesas… E descobri assim o Protestantismo como esse espírito cantante, que vive desde a cantata de Bach até a cantoria dos que não sabem distinguir bemol de sustenido. Pode ser que ninguém acredite, mas é fato: foi um padre que me fez sentir protestante pela primeira vez.

Eu não pedi para ser protestante. Eram os meus pais que me levavam, meio à força, para a Escola Dominical. Aí aconteceu um acidente. Num grupo escolar, primeiro ano, lá no sul de Minas. Num belo dia, sem aviso prévio, a professora entrou em classe acompanhada de um padre com batina preta. "Quem é que vai para a confissão e a comunhão?", perguntou ele com voz taquaral clerical. A meninada toda levantou a mão. Menos eu e o Estelino, que era espírita. Todo mundo olhou espantado para a gente, enquanto o sangue subia ao rosto e os nossos olhos se enterravam no chão. Miseravelmente diferente, sem saber por quê, enquanto os outros cochichavam risos contra a minha singularidade. E o padre e a sua batina foram crescendo, crescendo, sem parar, e o menino indefeso foi sentindo a dor do estigma. Eu era diferente. Nunca me esqueci.

Mas aí aconteceu uma coisa gozada, que a psicanálise deve explicar. A vergonha de ser diferente virou o orgulho de ser diferente. Foi então que eu, sem saber, me senti protestante pela primeira vez. De fato, o protestantismo tem muito a ver com a coragem para assumir a própria individualidade. Como aconteceu com um monge teimoso, que não dobrava o pescoço por medo da espada, mas fazia o corpo todo andar e falar ao som suave da voz da consciência. Este teimoso individualismo teve um gosto doce à minha boca, e nunca mais o abandonei.

De tão longe não é fácil entender o que significam os gestos do monge teimoso. Com eles Lutero não estava criando algo novo, mas simplesmente "des-cobrindo" um espírito protestante já em gestação.

Foi necessária muita coragem para contrapor a voz da consciência individual à voz das autoridades constituídas. Fazendo isto, ele declarava que, se existe um referencial sagrado para o comportamento, se existe um lugar de verdade para o pensamento, tais lugares não se confundem com os lugares do poder, não importa que o poder tenha sido legitimamente constituído. O segredo e a verdade não habitam as instituições, mas invadem o nosso mundo através da consciência.

Isso é subversão. Lutero colocou o mundo de cabeça para baixo. Se o Espírito de Deus não é monopólio de instituições, não é gerenciado por organizações, não é distribuído por burocracias, todas elas perdem a sua aura sagrada. Não podem mais pretender ser eternas.

O Espírito é algo diferente, livre. Como o vento, imprevisível, assopra onde quer, não se sabe donde vem, nem para onde vai. Só podemos ficar à espera, quais meninos com suas pipas na mão…

Ter consciência é isto: ficar à espera, aguardando o movimento do vento… Tudo é imprevisível. Nada é comparável à imponente mobilidade da catedral gótica, cuja beleza se encontra exatamente no fato de haver ela congelado o espírito de um certo momento da história. Mas ficar à espera do vento é esperar por um movimento, não se sabendo nem onde e nem quando ele se dará…

Duas coisas ficavam assim ligadas.

De um lado, a liberdade de Deus. Pode parecer coisa abstrata mas não é. Dizer que Deus é livre significa que ele se ri de nossas tentativas de conhece-lo pela nossa teologia, aprisiona-lo em instituições, administra-lo pela burocracia. Ele sempre anda por lugares não previstos, na companhia de gente estranha, fazendo coisas meio esquisitas, tal e qual Jesus Cristo. Traz do cativeiro um povo sem eira nem beira, faz uma mulher estéril dar à luz, dá vida a um vale de ossos secos, faz uma virgem engravidar, dá tombos nos fortes, põe os fracos nos lugares altos, confunde os sábios, joga mau cheiro sobre a piedade dos que confiam muito em si mesmos, transforma heróis em vilões e vilões em heróis… E os protestantes, conhecedores deste prazer divino nas inversões súbitas, poderiam prever que ele acabaria por subverter a própria Igreja Católica, derrubando blocos de pedra com o seu sopro suave e fazendo nascer flores entre as fendas das lápides, assombrando os bem-nascidos e fazendo rir as crianças… E se o Espírito de Deus anda por lá, quem somos nós para dizer não?

E, do outro lado, a consciência da pessoa, esta estranha capacidade que nos distingue dos bichos, e nos permite perceber as coisas novas e diferentes que o Espírito está fazendo, e mesmo ouvir a sua voz – sinais da gravidez universal da criação, o que faz a gente ficar feliz (Rm 8.22). Era por causa da consciência que Lutero falava que todos os fieis são sacerdotes. Acabou-se o monopólio do divino. Cada cristão, mesmo uma criança amedrontada, pode ficar de pé e dizer: "Aqui fico. Não posso ir contra a voz da minha consciência."

Se os protestantes tivessem sido espertos e sensíveis à sua própria teologia, eles, há muito, teriam assumido a dianteira, e espalhado por este mundo a fora um sem número de Comunidades Eclesiais de Base. Por que é que bem-nascidos cardeais, bispos conservadores e padres dantanho ficam arrepiados com esta coisa? Isto é coisa de protestante, percebem eles muito bem. Dizia o falecido Gustavo Corção, com toda razão, que a Igreja Católica estava se protestantizando. E parece que nunca disse coisa tão verdadeira.

As comunidades protestantes primitivas eram de base, no sentido de que nasciam do povo comum – cada crente era um sacerdote. Eu não tenho medo de dizer que a Igreja Católica está passando hoje pela Reforma – mais uma façanha do vento suave… Com uma diferença. No século XVI a Igreja recuou, e deu aquilo que todos conhecemos. Depois, os protestantes tentaram converter os católicos no varejo, um a um. Mas o Espírito ficou meio impaciente, e tratou de fazer a conversão por atacado. Pela Igreja toda sopra a liberdade de Deus e a voz da consciência: os fieis estão à escuta, tentando ler os sinais dos tempos…

Quantas coisas nos conta a ideia protestante de que todos os homens são sacerdotes!

A primeira coisa que ela faz é colocar um enorme ponto de interrogação sobre as cabeças das pessoas que se dizem autoridades religiosas, políticas, militares, não importa. De saída é necessário dizer que a autoridade é algo estranho ao espírito do Novo Testamento. Quem quiser ser o maior, que seja o servo. Substituir a espada pelo lava-pés. Deus, poder e verdade, abre mão de tudo, esvazia-se… Leia-se o Novo Testamento e veja-se o papel que as autoridades desempenham ali, a partir de Herodes, mandando matar as crianças, até as autoridades romanas e autoridades judias, mandando matar Jesus. Parece que as pessoas em posição de autoridade são mais suscetíveis à idolatria e à crueldade. É isto que nos conta a história. É claro que a ordem é necessária para tornar possível a nossa convivência. E destas coisas, surge, aos poucos, o espírito da democracia, expressão do doloroso reconhecimento da necessidade da autoridade e da determinação de manter sempre a autoridade no seu devido lugar: não em cima, mas em baixo, como serva e funcionária do corpo sacerdotal – claro! – o povo todo, cada um deles um sacerdote.

Depois ela nos dá permissão para pensar com ousadia os pensamentos mais loucos e avançados. Reprimir o pensamento é reprimir a consciência, é colocar a autoridade estabelecida num nível mais alto que a liberdade do indivíduo. Sei que isto horroriza aqueles que habitam os espaços já organizados e disciplinados da vida eclesial. Tudo já está previsto. O futuro não pode ser diferente do passado. A casa está em ordem e os velhos descansam tranquilos. Mas, de repente, uma classe de jardim de infância invade a casa e tudo fica em movimento, borbulhante de vida. Cada peça de museu se transforma num brinquedo. Cada canto sagrado vira um esconderijo para o jogo de esconder. A ordem cristalizada se transforma na vitalidade indomável… É claro que há muitos que começam a sofrer vertigens, enquanto outros tratam de expulsar a criançada… "Se não vos converterdes, e não vos fizerdes como crianças…"

Por séculos o ideal da Igreja foi o de construir jardins geométricos, monocultura, em que tudo permanecesse sob o estrito controle do jardineiro. Agora os protestantes dizem que o Espírito é um semeador sem muito gosto pelos traçados geométricos, que mistura tudo quanto é tipo de semente e as espalha ao vento… E elas brotam na mais fantástica explosão de cores, na desordem maravilhosamente bela que surge da vida… E surge então o mandamento para a pluralidade e a diferença. Os especialistas em cortar pedras dirão que a pluralidade e a diferença são sinais de desintegração. Afinal, se os tijolos não forem todos iguais, a casa cai… Mas quem é que falou em construir casas? Da mesma forma como a vida, na sua unidade, produz amores perfeitos, cravos-de-defunto, girassóis, musgos, cactos, caquis, bananas, jacas, algas, buchas, erva-doce, losna, abóboras e cerejas, também o Espírito de Deus, na sua unidade e vitalidade, pode produzir as mais variadas formas de vida, sejam as culturas indígenas, as dançantes comunidades pentecostais africanas, ordens monásticas, experiências de contracultura, as religiões populares, e até mesmo os estilos de vida em que nos sentimos em casa. E com os estilos de vida surgem novas formas de pensar e novas formas de falar sobre Deus, sobre Cristo, sobre a salvação… E quem seria aquele que tomaria da espada para liquidar os diferentes? Com que direito? Quem quer que se atreva a liquidar os dissidentes está possuído da ilusão de ser o detentor do monopólio do divino, e sucumbe à tentação e à crueldade da espada – eclesial ou secular, não importa.

Posso bem perceber o espanto incrédulo nos olhos do meu leitor, protestante de muitos anos, que pela primeira vez ouve coisas tão insólitas. E ele procurará ao seu redor para ver onde é que este protestantismo se encontra. Entre os Batistas? Na Igreja Presbiteriana? Quem sabe nas Comunidades Protestantes? Que dizer dos Metodistas? E vamos caminhando, inutilmente, reconhecendo as pedras, identificando a voz da autoridade, ouvindo o barulho típico da tesoura de poder que corta um broto novo… O futuro deve ser uma continuação do passado. As mesmas ideias. A verdade já foi cristalizada em séculos idos. Proibidos de explorar o novo, de pensar o insólito… E as pessoas vão ficando tristes, pensando todos os dias os mesmos pensamentos, fazendo todos os dias as mesmas coisas, orando as mesmas orações espontâneas  formadas com a colagem de frases feitas e estereotipadas, sem coragem para contar as coisas que acontecem no fundo da sua alma, porque isto pode perturbar a simetria da rotina…

E eu me lembro então da última coisa que quero dizer sobre a liberdade de Deus, coisa que todo protestante repete. Poucos, entretanto, tomam o risco. Salvação pela graça. Salvação não vai de baixo para cima. Salvação vem de cima para baixo. Deus nos ama. Deus resolveu o problema, por conta própria. Isto significa que ele não tem livro caixa, onde entram nossos débitos ou créditos. Os débitos são perdoados e os créditos ignorados. Salvação segundo o modelo do livro caixa é o que os teólogos denominavam "salvação pelas obras". E quem é que pode estar tranquilo, sem recursos para pedir uma informação sobre o saldo da conta? Salvação pela graça significa: das questões depois da morte Deus já cuidou. Por isto é ocioso gastar pensamento e aflição com discussões sobre a mobília do céu e a temperatura do inferno. Mas sobra tudo o mais que nos ocupar: a preservação da natureza, a arte, a fogueira das armas, para transforma-las em arados e podadeiras; a luta contra os exploradores, a proteção dos oprimidos, o prazer da liturgia, da música, da comunidade, o brinquedo da teologia. A salvação pela graça significa: é inútil e desnecessários nos preocuparmos com o além. O além pertence a Deus, nossos braços não vão até lá. E Deus já resolveu o assunto, em amor. Somos então livres para sermos totalmente deste mundo, fazendo as coisas que a consciência nos comanda.

Imagino a sua perplexidade que pergunta se não existirá coisa mais oposta ao espírito cristão de amor que o individualismo que leva as pessoas a caminhar de forma solitária, cercadas de muros. Terei de responder que você tem razão. Mas terei de lhe perguntar, em troca, se existe coisa mais oposta à comunhão que a sociabilidade fácil daqueles que se satisfazem com a conversa ociosa da representação de papeis… Toda palavra genuína deve nascer do silêncio. Não posso crer nas declarações de solidariedade daqueles que não frequentam a solidão de sua própria consciência. Não, o individualismo da Reforma nasce de um profundo respeito pela pessoa, porque cada pessoa é uma "máscara" de Cristo, Cristo se fazendo presente, disfarçado… E assim, quando alguém é desrespeitado, violentado, torturado, quando alguém passa fome e não tem onde morar, é o próprio Cristo que está aí…

Sou protestante.

Mas você já deve ter percebido que minha bem-amada está ausente. Meu protestantismo é uma saudade e uma esperança. Esta é a razão por que sinto uma enorme necessidade de ler os pais da Reforma e uma compulsão de ouvir o vento do espírito, pra ver onde é que poderei empinar o papagaio…

Por enquanto, o espírito cantante e brincalhão do protestantismo (sob disfarce, é claro) está fazendo das suas na Igreja Católica. Como eu lhe disse, o Espírito é livre… Talvez ele tenha querido brincar conosco. Talvez não tenhamos querido brincar com ele. E ele está se indo. Ele, porém, volta de vez em quando – e haverá de voltar para ficar.

É, eu sou protestante.

Rubem Alves

Depoimento retirado da revista Tempo e Presença, Publicação Mensal do CEDI (Centro Ecumênico de Documentação e Informação), número 169, de Julho de 1981. Transcrito pelo Eduardo Chaves em seu blog (http://liberal.space/) e reproduzido aqui com seu consentimento.