2 de março de 2017

Sobre romance, quaresma e moderação


Prudência já foi um nome popular. Outras virtudes, como esperança e caridade, ainda detêm seu prestígio, mas ser 'prudente' não tem sido popular desde que o primeiro presidente Bush era um jovem lutando a Segunda Guerra Mundial.

Até grupos de jovens cristãos que visito costumam ostentar serem 'radicais' por Jesus. Essa é uma má ideia, porque a religião imoderada tem causado ao menos tantos problemas ao mundo quanto o secularismo imoderado. O cristianismo não é revolucionário, porque a virtude só pode ocorrer gradualmente a homens caídos, se é que há de ocorrer.

A revolução em nome da virtude é como matar um homem para salva-lo. Pergunte aos iranianos.

A imoderação religiosa pode levar aos de nós que estão no ministério a ignorar nossas obrigações familiares para 'amar a Deus'. Esquecemos que não podemos amar ao Deus que não vemos, se não podemos amar ao irmão que vemos.

A Moderação diz: "Terei o suficiente, e não mais". A Moderação requer do cosmos apenas o 'pão de cada dia' e não acha que todo dia é um dia de banquete. A Moderação diz ao Eros: "Não estrague o meu amor futuro exigindo mais hoje do que o devido".

Uma economia baseada no consumo nunca dirá "Seja prudente". Ela vai exigir o último produto da Apple e gastar milhões para zombar de quem economiza. A publicidade é tão onipresente que a usamos livremente em nossas roupas como sinal de status.

O Amor é o maior poder no Cosmos, mas o Amor requer Moderação para poder durar. O amante deseja paixão total, mas o Amor quer que o amado floresça e ame para sempre. A Moderação auxilia o Amor a tornar isso possível através de seu conselho virtuoso.

O recente longa-metragem de Jane Eyre me lembrou do papel da Moderação no romance. Quando eu era mais jovem, minha paixão natural desejava um grande romance e me levou a um tipo de amor que desafiava até a Deus, um amor que era pagão; e não cristão. A Moderação me disse para buscar intimidade e deixar o amor crescer de forma lenta e apropriada.

Por mínimo que fosse, o Eros da minha natureza pecaminosa exigia um cometimento absoluto a algum amado, seja um deus, uma causa ou uma mulher. O Amor desejava um romance cósmico e isso significa ser menos romântico hoje para que o amor possa durar para sempre.

O homem realmente apaixonado abrirá mão do banquete de hoje pelo amanhã. Ele vai reconhecer a Quaresma para poder ganhar a Páscoa. A intimidade lenta moderada é menor no início, mas se torna significativa depois de vinte cinco anos de dores e prazeres compartilhados.

O homem que bebe demais logo não poderá beber de novo. O glutão, como eu sei muito bem, eventualmente terá mais sofrimento do que prazer ao banquetear-se. O amor imoderado logo tornará tóxico o próprio objeto de desejo do amante.

A Moderação não é uma moralista aborrecida; mas uma Mãe fecunda que ama tanto o banquete que aconselha o jejum. Ela adora tanto a Beleza ao ponto de me exortar a virar a cabeça diante da Beleza que eu ainda não tenho como experimentar apropriadamente. A Moderação transforma uma primavera de quaresma em um generoso verão.

John Mark Reynolds, First Things

1 de março de 2017

A Luta entre o Carnaval e a Quaresma

A Luta entre o Carnaval e a Quaresma // Pieter Bruegel o Velho, 1559
A obra "A luta entre o Carnaval e a Quaresma" ilustra o conflito dualista humano, uma tensão entre o impulso religioso e o desejo excessivo por prazer, exclusivamente através dos sentidos (sensual). É uma expressão quase cirúrgica do que temos nas culturas da cristandade, a entrega desenfreada antes que a quaresma chegue ou, em outros casos, a entrega para o prazer antes que a seriedade do ano com sua rotina pesada chegue – afinal é carnaval e tudo está liberado.

O paradoxo entre "natureza e graça" e "santo e profano" faz com que alguns recorram a caminhos que vão do isolamento cultural, com aparente "pureza", suprimindo a natureza (os prazeres da carne) até a entrega total mesmo que termine na sarjeta.

O religioso pode no carnaval ver o caminho da vida a partir do monastério das abstinências, e de lá, levantar sua vara de "justo juiz" com nojo dos depravados em folia. O folião tende a dar vazão aos desejos obscuros dentro de si que não conseguem vim à superfície todos os dias, esse concentra apenas nisso, agindo de uma forma individualista. Ambos os casos são feios de mais, pois ignoram o que há de mais precioso e prazeroso e negligenciam as reais necessidades que nos cercam – Geralmente em tempos de prazeres assim as atrocidades não mobilizam e nem chocam.

Ante a isso tudo o que resta geralmente ou é um sentindo de que não se aproveitou como os outros ou então uma ressaca moral por ter ido parar na sarjeta.

Que no carnaval encontremos a fonte do prazer e nos satisfaçamos por inteiros nela, essa fonte nos leva ao outro ao próximo não nos restringe ao saciar egoísta mais nos toca para ver que tem sede de vida, quem sofre na existência.

Lucas Louback

8 de novembro de 2016

Alguns pensamentos sobre a exortação cristã

A crítica e a exortação cristãs nunca devem ser feitas considerando-se apenas o conteúdo dos pensamentos que estão sendo questionados. Elas não podem ser um debate de ideias.
Arte e stencil do Movimento Mosaico.
As críticas e exortações como práticas cristãs não devem ser feitas de forma objetiva, pois elas não exprimem uma relação sujeito-objeto; mas uma relação de pelo menos duas pessoas e esta deve ser considerada. É na relação Eu-Tu, na relação real entre pessoas reais, é que nos constituímos seres humanos. Considerar o outro ser humano e todas as suas limitações, sua estrutura, seu intelecto, sua história, sua vivência e experiências não é cair no sentimentalismo, é tornar-se humano. Quando se julga o outro, mesmo que o conteúdo do julgamento em si seja correto e mesmo que as motivações para tal sejam amorosas, corre-se o risco de passar por cima ou ignorar a pessoa do interlocutor, a outra parte da relação.

Primeiramente, reconheçamos que a natureza da verdade cristã é relacional: ela não pode ser considerada objetiva ou científica do ponto de vista moderno. Nós conhecemos o Deus do teodrama da narrativa bíblica e sua revelação no Cristo dentro e a partir do nosso relacionamento com ele e com sua mensagem. Afirmar a doutrina da Encarnação é afirmar que o Kyrios-Cristo e as próprias Escrituras assumiram (respectivamente) forma e formas humanas, foram revelados através da história e de diferentes contextos culturais. São culturas que possuem origens diversas, que são repletas de ironias, paradoxos, teodicéias e mistérios. O próprio Deus entrou em nosso mundo simbólico-pístico-econômico-psicossocial, ou, simplesmente, humano, para se relacionar conosco como comunidade de pessoas, em nossos "próprios termos": usando nossas linguagens e tradições linguísticas, com todas as ambiguidades e nuanças intrínsecas a elas.* (Para discussões mais abrangentes sobre esta questão, ver o livro "O Drama da Doutrina" do Vanhoozer e o ensaio "Transposição" do C. S. Lewis.)

E, ainda, o Espírito que nos conduz à verdade, cujo aspecto fenomenológico e relacional falamos acima, é o mesmo que nos une. Nós precisamos dele para podermos exortar a um irmão ou irmã. E precisamos do Cristo crucificado como o nosso modelo de ação e de relacionamento, além de como mediador e elo na nossa relação com o outro. Se nos recordarmos de que a própria dinâmica trinitária, que os teólogos chamam de Pericorese, é como uma dança divina em que as três pessoas da Trindade se doam e se derramam constantemente umas sobre as outras, veremos claramente como deve ser a nossa vida espiritual, se desejamos nos tornar a "imitação de Deus" (Fr. Richard Rohr), aceitando a nossa vocação de Imago Dei.

O amor se alegra com a verdade (1 Coríntios 13) e a exortação cristã é um imperativo do amor. Mas o amor também tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta (idem). Para agir com relação ao próximo, corrigi-lo quando ele se encontra em erro e amá-lo de forma cristã é preciso mais do que agir a partir do nosso próprio conceito e esforços de amor. É necessário ter o amor divino como motivação, reconhecer a natureza da verdade, amando-a, e seguir o modelo Crístico de abnegação, considerando a pessoa em mais alta estima: é andar no Espírito.

É preciso reconhecer que a linguagem meramente simbólica, com todos os seus conjuntos de códigos, é limitada e não se constitui como ponte perfeita para o relacionamento humano. A comunicação pode ser muitas vezes capciosa e traiçoeira e o que você fala pode se transformar, para quem ouve, em algo que não foi exatamente o que você quis dizer. Suas boas intenções e seu cuidado não são o suficiente para transcender todas as barreiras de valor, de cultura, de criação e de personalidade entre você e o outro e a sua repreensão pode se apresentar como temerária para ele. O amor exige que se beba o cálice do outro, que se saia de si para encontrar o outro em toda a sua humanidade. É amar o próximo como a si mesmo. É preciso um movimento humanizador intencional aqui de esvaziar-se de si (Filipenses 2) entrar no mundo do outro, colocar-se no lugar dele, conhecer seus medos, sua compreensão de mundo, seus conceitos de felicidade.

Tal movimento inclui abrir-se para todo o sofrimento que tal relação tem a possibilidade de trazer. É estar disposto a comprometer-se com o outro e a se decepcionar. Não só dar a outra face, mas apanhar. É comprometer sua própria integridade em abnegação e amor autossacrificial. É levar a cruz no lugar do outro.
"Tende em vós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus, que, existindo em forma de Deus, não considerou o fato de ser igual a Deus algo a que devesse se apegar, mas, pelo contrário, esvaziou a si mesmo, assumindo a forma de servo e fazendo-se semelhante aos homens. Assim, na forma de homem, humilhou a si mesmo, sendo obediente até a morte, e morte de cruz."

(Paulo aos Filipenses, cap. 2, vs. 5-8, tradução Almeida século 21)
Porque eu creio no Espírito Santo, na Una, Santa, Católica e Apostólica Igreja, na comunhão dos santos, no perdão dos pecados, na ressurreição do Corpo e na vida eterna. Amém.

25 de outubro de 2016

O que diabos (não) é "cosmovisão cristã"

"Eu acredito no cristianismo como eu acredito no sol que está nascendo: não apenas porque o vejo, mas porque através dele eu vejo todo o resto."
(C. S. Lewis. Is theology poetry?, Oxford, 1944)
Alguns amigos têm criticado ferozmente e, na minha opinião, de forma superficial o conceito de "cosmovisão cristã" e quem o adota. Um deles o faz como se tal conceito especialmente agregasse gente raivosa, sectária e fundamentalista. Ora, esse não é um mal da "cosmovisão cristã"; todas as "ortodoxias" cristãs do nosso contexto têm essa enfermidade, incluindo o luteranismo, o calvinismo e a ortodoxia progressista evangélica (e se tem).

Na realidade, cosmovisão cristã é um conceito que surge de um tratamento cuidadoso e realista da catolicidade da fé cristã, mas tem sido muito pouco compreendido e geralmente quem o recusa ou o execra não chega realmente a lidar com ele de forma honesta. Primeiramente, lembremos que a mensagem cristã não começa em "João 3.16" e as crenças cristãs não dizem respeito apenas à salvação do crente e à sua experiência espiritual (ou subjetiva) que dá a conversão e consequente mudança de vida, esse cristianismo dualista que a igreja atual prega, o chamado Gnosticismo Evangélico.

A mensagem cristã começa em Genesis um, e não diz apenas a respeito de uma área isolada da vida em detrimento do resto. Deus criou a vida, a beleza, as propriedades do mundo físico, as leis morais que existem dentro de nós, as possibilidades das formas do mundo social. O próprio imperativo de produção e reprodução da vida humana em todas as suas complexidades estão enraizados nas crenças cristãs históricas, incluindo os ethos e conceitos dos cristãos para a justiça, trabalho, relacionamentos sexuais, relacionamentos interpessoais e nosso relacionamento com a criação. Como dizia Bonhoeffer, Cristo é o Mediador de todo e cada um dos nossos relacionamentos. E é preciso pensar quais implicações tal mediação tem em nossos diferentes relacionamentos e nas diferentes áreas de nossas vidas. E ainda, é importante lembrar que isso não é inovação e nem exclusividade de quem fala em cosmovisão cristã; isso pertence ao cristianismo histórico.

E, no entanto, a linguagem que resgata essa perspectiva traz um renovo à visão da missão da Igreja, não como o evangelismo do mero proselitismo, de salvar "almas", ou o evangelismo racionalista de aderir intelectualmente a alguns dogmas, mas de reafirmar a vida em si com todas as instituições com as quais ela foi criada, incluindo sua teleologia de adoração ao Criador. É preciso pregar o Mandato Criacional (Genesis 2), para ser possível pregar a Grande Comissão (Mateus 28). É preciso afirmar um modelo específico de vida para discipular as nações sobre como viver. O fato é que o cristianismo tem crenças razoavelmente definidas sobre o mundo e sobre a vida, chame isso de cosmovisão cristã ou não.

Weltanschuung é o termo da filosofia e da sociologia alemã para "visão de mundo", usado de formas diversas dependendo do teórico que a usa. A tradição reformada holandesa foi a primeira a usar para se referir aos movimentos písticos da cultura e, no meio deles, às crenças cristãs. Todas as culturas têm dentro de si conjuntos não necessariamente teóricos e mais ou menos definidos de conceitos de felicidade, de eudaimonia, de belo, de verdade, de moral, cosmologias, cosmogonias, heróis, soteriologias. São experiências existenciais, linguagens e conjuntos e códigos simbólicos, ideologias e teorias do conhecimento que funcionam tanto intelectual quanto afetivamente como bússola, uma língua ou um óculos, que todo mundo possui, através do qual vemos, nos guiamos e nos relacionamos com o mundo.

Essa tradição reconheceu no teodrama do cristianismo uma metanarrativa, que, como uma forma de linguagem, explica o mundo no qual somos inseridos por Cristo por meio do Espírito Santo. Fomos inseridos na vida trinitária através da teóse, mas também fomos inseridos na história do relacionamento de Deus com o ser humano e com o mundo que Ele criou, que se rebelou contra ele, e fomos inseridos na grande história da restauração de todas as coisas. A mensagem do cristianismo é a história da salvação, mas é uma história maior. Resgatando a abordagem de Irineu de Lion, esses reformados falavam de "Criação, Queda e Redenção" dos seres humanos e do cosmos. O cristianismo não é para salvar almas; ele é a inserção de toda a humanidade e de todas as realidades atuais na realidade de Deus, que é a última realidade. Em seu contexto original, "cosmovisão cristã" apenas a afirmação da doutrinas clássicas do cristianismo e a lembrança de que ele é católico, de que ele é universal, de que ele é para toda a realidade e de que o cristão tem acesso à realidade através dele.

O perigo e o erro comum de quem conhece e usa o conceito é o de pensar que em vez de um relacionamento com o Deus trino e os princípios e pathos morais e estéticos que vêm com esse relacionamento, cosmovisão cristã é uma forma definida e dogmática de se pensar sobre cada esfera específica da vida, como (e principalmente) artes, ciência, política e economia. Originalmente usado por gente da tradição reformada holandesa, incluindo os da herança do L'Abri, o conceito cosmovisão cristã tem sido usado ultimamente por gente querendo associar o cristianismo com tradições políticas e econômicas específicas. De alguns anos pra cá tenho ouvido muitas pessoas economicamente liberais ou politicamente conservadoras se referindo às suas opções ideológicas como "cosmovisão cristã", e ainda, A VISÃO cristã correta sobre economia e política.

Não. E não é que a mensagem cristã não fale de coisas como economia ou política, é que ela é maior do que essas coisas. Ela não prescreve uma forma específica de sociedade ou fala de forma direta sobre as formas de sociedade que existem. Em alguns casos, possui convergências com determinado tipo de modelo político ou econômico, noutras, com outros (e do outro lado do espectro político ou econômico). A verdade pertence a Deus, e todos os sistemas humanos terão falhas e provavelmente terão acertos (devidos à graça comum, um conceito teológico que nós gostamos de afirmar). Lembremos que Kuyper e os filósofos reformacionais da tradição reformada holandesa pregavam tanto contra o progressismo revolucionista, quanto contra o liberalismo econômico e até mesmo contra o conservadorismo.
"No fim das contas o que a Bíblia diz sobre justiça social não pode ser ligado a nenhum sistema político ou econômico. Se possível, devemos tirar a política dessa equação quando estudamos seriamente o chamado bíblico para que se faça justiça."

(Tim Keller em Justiça Generosa)
O errado é instrumentalizar a mensagem cristã para determinado fim político, seja de direita ou de esquerda. Isso é o que queremos dizer com "ideolatria". É dizer que o keynesianismo ou o liberalismo ou qualquer outro modelo econômico ou político específico é o modelo biblicamente correto. É imiscuir ideologias políticas na mensagem cristã, agregando-as como se fossem da mesma natureza. E fazem isso tanto a direita que se aproveita equivocadamente, e até de má fé, da tradição e do conceito de "cosmovisão cristã" para defender seus (neo)liberalismos e conservadorismos historicistas, quanto os evangélicos brasileiros progressistas, que reificam o Verbo ao usar da mensagem cristã para pregar suas visões e projetos políticos, sobrepondo a pregação do evangelho pelo emprego de tais soteriologias, o que é o caso de certas alas undergrounds da ABU e a gente dos diálogos novos. Estes também execram e desprezam os que não compartilham da visão deles.

Bem, meu caro amigo. Acho que o problema aqui é exatamente a falta da hospitalidade (Schaefferiana, por ironia) no lugar do sectarismo e belicosidade fundamentalista, além do problema ideológico ao qual eu me referi, que não é exclusivo de quem faz uso do conceito "cosmovisão cristã"; e não com o conceito em si. Pelo primeiro caso, eu também lamento muitíssimo porque ele sacrifica a mais preciosa dádiva e mandamento do cristão no altar da ideologia. Porém, se o seu problema for o conceito em si, eu te peço pra deixar de lado os julgamentos mais rasos e se engajar melhor com a questão.

9 de maio de 2016

Lembrando dos Horrores de Haryana

"The Haryana horrors", matéria de autoria da jornalista e escritora Rashme Sehgal, publicada pela Deccan Chronicle em 14 de outubro de 2012. Este texto vai falar de estupro.

O território de Mahabharata continua a ser território de tabus para as mulheres e terra de licenciosidade para os homens fazerem as piores coisas. Patriarcado, misoginia e Khap Panchayats são todos responsáveis pelas atitudes que fizeram de Haryana a "capital indiana do estupro". O que mais explica o fato de que os perpetradores de 19 estupros no último mês (com vítimas que variam desde uma menina de 6 anos de idade até uma viúva idosa), todos audaciosamente fizeram vídeos de seus próprios crimes e ameaçaram torna-los públicos se suas vítimas reclamassem?

Ao menos aqui, as estatísticas não mentem. O pequeno estado de Haryana tem a distinção evidente de ser a "capital indiana do estupro". Dezenove mulheres estupradas no último mês, muitas delas por estupros coletivos. Foi relatado o envolvimento de quarenta e nove homens na perpetração dessas atrocidades.

Os horrores estão nos encarando diretamente. Uma menina dalit (da casta dos "intocáveis" da Índia) de 16 anos ateou fogo em si mesma e morreu na cidade de Jind no último sábado após ser vítima de um estupro coletivo. Uma menina de 13 anos foi estuprada na última segunda-feira em Rohtak, a cidade natal do ministro chefe Bhupinder Singh Hooda.

Entretanto, esses incidentes, e muitos antes deles, não fizeram a maquinaria oficial entrar em ação, pois dois dias depois, uma menina dalit deficiente mental de 15 anos foi estuprada na mesma cidade.

Cada incidente desses parece mais sórdido que outro. Uma mulher de 30 anos, casada, foi estuprada à mão armada por três homens do lado de fora de sua casa na cidade de Pillukhera, distrito de Jind. Uma menina de 16 anos foi estuprada por quatro homens na cidade de Gohana na última sexta. Ela tinha ido comprar mantimentos e o dono da loja a mandou buscar parte deles num armazém próximo, onde ele e outros três garotos a estupraram. Uma garota recém-casada de 19 anos foi raptada e estuprada repetidamente durante quatro dias consecutivos perto da cidade de Sonepat.

Rohtak, Hissar, Jind, Bhiwani, Yamunanagar, Panipat, Sonepat, Ambala, Karnal, Faridabad, Kaithal. Meninas novas e mulheres foram submetidas ao horror em praticamente todos os distritos de Haryana no último mês.

E pior, as meninas não são apenas estupradas. Os estupradores não tem nenhum pudor em gravar vídeos de si mesmos praticando o ato, e em ameaçar circular os vídeos para toda a população das aldeias se elas reclamarem, seguros na crença de que a humilhação será apenas das vítimas, e de que ninguém, nem os moradores, nem a polícia vai levantar um dedo contra os agressores.

Uma ameaça assim foi feita a uma estudante dalit de 16 anos na cidade de Dabra. E embora ela tenha se sujeitado a não relatar como ela foi sequestrada, vendada, amordaçada e estuprada no dia 9 de setembro, quando ia para a casa de sua avó, os estupradores usaram celulares para tirar fotos da menina sendo submetida às suas depravações e as mandaram para o pai dela.

O pai, perturbado, cometeu suicídio. Grupos de dalits furiosos fizeram acampamento na frente da casa dele e juraram que não deixariam que o homem fosse cremado até que alguma medida fosse tomada contra os estupradores.

Mas qual foi a resposta da polícia e dos administradores a esses crimes? O principal chefe de polícia do estado, o diretor geral de polícia Ranjiv Singh Dalal disse que os casos de estupro não estão aumentando, mas que, na verdade, tiveram uma queda com relação ao ano passado. "Há 80 casos a menos neste ano do que em 2012", disse Dalal aos repórteres.

E o ministro chefe do estado Bhupinder Singh Hooda disse o seguinte, depois de alegar que os relatos de estupro eram uma conspiração política para desestabilizar o governo: "Somente o pronto registro de queixas de informações primárias (FIRs) pela polícia do estado é que tem causado uma imagem ruim do estado".

"Nossa polícia foi ordenada a registrar todas as queixas. Isso não acontece em outros estados." As estatísticas da diretoria geral da polícia vão gerar algum conforto para as vítimas de estupro? Ou será que elas deveriam se consolar com a declaração do ministro chefe de que elas não são as únicas vítimas desse crime horrendo, já que outras mulheres em outros estados também foram estupradas? E ainda, será que é mesmo verdade que a polícia de Haryana registra prontamente as queixas de informações primárias em casos de estupro?

Há alegações de que a maior parte dos estupros são atos de vingança de casta contra mulheres dalits. "Os dalits estão se tornando mais veementes na articulação de seus direitos. Isso resultou em uma consolidação entre os Panchayats", disse o Dr. Prasad Srivella do Movimento Nacional Dalit Pela Justiça, que tem monitorado a violência contra mulheres dalits nos últimos dois anos.

Casta, além da questão de gênero, é talvez também o motivo de queixas não serem registradas contra agressores quando não há a pressão de grupos da sociedade civil. Srivella diz que ainda deve levar um tempo para que a polícia e oficiais do governo sejam repreendidos por seus atos de omissão e ordens de obstrução de justiça para as vítimas de estupro.

"Nem uma única queixa foi registrada contra a força policial por sua falha em proteger as mulheres. Ao avaliarmos uma série de atos informativos (RTIs) feitos no país inteiro, nós chegamos à conclusão de que nem uma única queixa foi registrada contra qualquer oficial do governo sob a Seção 4 do Ato de Prevenção de Atrocidades das Castas e Tribos Registradas.

Porém o superintendente de polícia de Hisar, B. Satheesh Balan, diz que não são apenas mulheres dalit que são alvos. "Das 38 queixas registradas em Hisar, seis eram casos falsos, enquanto nos outros 26, o acusado e a vítima eram da mesma casta. Somente em três casos o acusado era de uma casta superior."

Ranjana Kumaro, diretora do Centro de Pesquisa Social, cita o testemunho de um réu por estupro para defender a tese de que nem todos os casos de estupro são anti-dalit. "Não sabíamos de qual casta ela era. Se soubéssemos que ela era uma dalit, não teríamos encostado nela", disse o réu.

Se casta é um fator ou não, gênero certamente é. E a discriminação é profunda e está em toda a sociedade. Jagmati Sangwan, presidente das Associações Democráticas das Mulheres Unidas (AIDWA), diz que toda a máquina do estado é contra as mulheres

A situação é agravada pela situação demográfica extremamente deformada em Haryana, de 83 mulheres para cada 100 homens de acordo com o senso de 2011. Um agricultor no distrito de Rohtak me disse: "As mulheres aqui se tornaram tão raras quanto cereais num período de fome. Homens com idade de casamento não têm empregos e, portanto, não acham esposas".

Khap Panchayats, os tribunais tradicionais dos anciãos das aldeias, são uma relíquia dos tempos sombrios. Eles só têm servido para deixar as águas ainda mais turvas. Essas corporações de dominação masculina acreditam que a solução para o estupro é diminuir a idade de casamento para as mulheres de 18 para 16, um ponto de vista apoiado pelo ministro chefe Om Prakash Chautala, dentre outros políticos, embora não exista qualquer evidência da eficácia de tal medida.

E na verdade, mulheres casadas também foram vítimas de estupro neste mês.

A ativista Sujata Madhok acredita que não foi apenas a natureza patriarcal da sociedade de Haryana que contribuiu para o aumento dos conflitos sociais. Há também muito dinheiro e um novo materialismo que uma sociedade agrária tradicional ainda não foi capaz de reconciliar.

"Tem havido uma afluência maciça de fundos para as mãos de alguns camponeses que se tornaram agentes imobiliários. O resultado é um estilo de vida perdulário e ambicioso, agravado pela exposição à televisão e filmes. O fato é que eles não têm os recursos sociais para se ajustar à sociedade em mudança, ainda que as mulheres estejam sendo expostas à educação."

Em qualquer outro país do mundo, os políticos estariam lutando para pôr fim ao horror de estupros que parecem tomar uma cidade após a outra na Índia (pense em Delhi e Calcutá), mas aqui o estupro rapidamente se tornou uma questão política.

Quando a presidente do congresso, Sonia Gandhi, visitou Haryana no início dos crimes deste mês, a liderança do partido parecia mais interessada em conduzi-la para longe de qualquer crítica pública feita ao ministro chefe do partido e em usar a visita para marcar pontos políticos. Eles a levaram para a área Narwana do distrito de Jind. Claro, uma menor dalit havia cometido suicídio ali depois de ser vítima de um estupro coletivo, mas suspeita-se que, na verdade, ela foi levada para lá para se encontrar com um deputado do partido Bharatiya Janata.


E enquanto essa matéria estava sendo escrita,

Fatehbad:

Uma menina de 13 foi estuprada em Panipat por um vendedor de frutas de 60 anos. Uma viúva foi estuprada em Ambala.

19 estupros em um mês

Estupro em Gurgaon:

Uma menina de seis anos, atraída com chocolate, foi estuprada por três homens em Gurgaon em 12 de outubro.

Estupro coletivo em Jind:

Uma menina adolescente em Jind morreu ao atear fogo em si mesma na noite de 7 de outubro, depois de alegadamente ter sido vítima de um estupro coletivo.

Estupro em Bhiwani:

Uma menor foi estuprada em Bhiwani em primeiro de outubro.

Estupro coletivo em Sonepat:

Uma estudante de 16 anos foi vítima de estupro coletivo em Gohana, próximo a Sonepat, por quatro homens no dia 27 de setembro numa área comercial movimentada.

Estupro coletivo em Jind:

Na mesma semana, três homens invadiram a casa de uma mulher casada e a estupraram, enquanto sua filha gritava em terror do lado de fora da casa. Os homens fizeram vídeos do crime e ameaçaram torná-lo publico.

Estupro coletivo em Hisar:

Uma menina dalit de 16 foi vítima de estupro coletivo por oito homens de casta superior em 9 de setembro em Dabra, Hisar. Quando a polícia se recusou a registrar queixa, o pai da menina cometeu suicídio.


Mulheres, vocês não devem:

  • Entrar em pubs:

Em 2009, em Mangalore, capangas do grupo Sri Ram Sena espancaram um grupo de moças e rapazes porque o chefe Sena, Pramod Mutalik disse que "mulheres irem à pubs é inaceitável. Elas violam os valores tradicionais indianos". Em julho de 2012 grupo Hindu Jagarana Vedike atacou uma festa de aniversário em uma casa de família em Mangalore e espancaram, despiram e molestaram cinco meninas. Eles estavam salvando a cultura indiana, é claro.

  • Usar telefones celulares

Em julho de 2012, o Panchayat da aldeia Asara no distrito de Baghpat em Uttar Pradesh baniu casamentos não arranjados, proibiu garotas de usarem telefones celulares e até proibiu mulheres de menos de 40 anos de fazerem compras. "Casamentos não arranjados são uma vergonha para a sociedade, especialmente para os pais da noiva, porque atentam contra sua respeitabilidade", explicou o membro do Panchayat Sattar Ahmed.

  • Usar calça jeans

O que há em comum entre o Departamento de Mulheres e Crianças de Haryana, as principais faculdades em Kanpur, a Faculdade Pública de Bhopal, a Faculdade Krishna Menon em Mumbai, a Universidade Anna em Chennai e a aldeia Shoram em Uttar Pradesh?

Esses, dentre outros, todos baniram o uso de jeans por mulheres/garotas e todo tipo de roupas apertadas e sem mangas, porque são "obscenos", "provocadores de abuso sexual", "violadores da cultura indiana", etc. Neste ano em Jarkhand, o partido rebelde Jharkhand Mukti Sangh emitiu uma proibição de calças jeans e ameaçou ataques com ácido contra garotas que forem encontradas usando-as.

1 de janeiro de 2016

Meu top 5 2015

Este ano foi um ano intenso, cheio de bagagem emocional e assassinatos em massa, distúrbios políticos, intrigas, desastres ambientais, guerras, violência, radicalismo religioso, xenofobia, racismo e outras feridas. As coisas não mudaram tanto assim. Parece que o projeto civilizatório do humanismo secular não levou o mundo para o progresso e não curou suas chagas. O próprio progresso é uma crença religiosa mal explicada e concebida, alheia à realidade humana. É preciso de uma solução mais estético-relacional, mais coletiva (não coletivista). A alteridade, a arte, o encontro com o outro e com o mundo têm que voltar a estar no centro de um projeto de vida que seja sustentável e digno. Como diz o velho Dosta, "a beleza salvará o mundo".

Mudando de assunto, quero revisitar algo da arte deste ano. Quero mostrar formas positivas que o ano de 2015 tomou. Pra isso fiz três listas, em cada uma destaquei 5 realizações, que ficam aqui como retrospectiva e sugestões. Especificamente 5 filmes, 5 discos e 5 livros que eu vi, ouvi e li em 2015. Procurei selecionar apenas filmes e discos lançados neste ano. Já os livros são todos antigos, porque diferente do cinema e da música, o peso da novidade não é tão grande. Ainda assim, são leituras relevantes e as recomendo.

Enjoy.

Cinema


Mad Max: Estrada da Fúria é uma alegoria pós-apocalíptica sobre o deserto da condição humana e sobre como nós somos devastados pelos nossos desejos. Nesse mundo pós-apocalíptico australiano não há disfarce para a representação das lutas que acontecem dentro de nós e dos conflitos do poder e da vontade humana. Intenso sequências de ação, na narrativa e nas cores. É daqueles filmes em que a narrativa não precisa ser complexa, mas por ser afetiva e esteticamente envolventes alcançam uma profundidade satisfatória e até maior que de filmes com narrativas convencionais. Os personagens são maduros e sempre fogem dos lugares comuns.
Em Ex Machina de Alex Garland, o CEO de uma grande companhia de informações (como a Google) desenvolve um misterioso projeto de inteligência artificial em sua fortaleza na floresta e convida um jovem programador para ser o elemento humano num teste de turing (que testa se uma máquina consegue 'pensar' em termos humanos, de ter consciência). Começa usando discussões das capacidades e limites da inteligência artificial e então, seguindo os passos de "Her" e brevemente introduz o tema da sexualidade na inteligência artificial, de uma forma que resgata as reflexões mais profundas do estruturalismo francês sobre sexo e sociedade. Melhor ficção científica do ano.
Whiplash de Damien Chazelle tem atuações sensacionais dos seus atores principais: Milles Teller faz o jovem aspirante e músico de jazz, Andrew, que conseguiu entrar no mais importante conservatório do país e, posteriormente, na banda de Fletcher (J.K. Simmons), o maestro mais valorizado do lugar. A sofisticação e perfeição técnica de Fletcher só não é maior que os seus métodos cruéis e seus excessos ao lidar com seus alunos, o que chega a afetar emocionalmente Andrew. Whiplash é um drama moderno, quase um suspense, sobre o ego humano em desespero que se lança ao mundo de forma introvertida em uma busca frenética por reconhecimento, identidade e sentido, até mesmo, usando uma experiência de transcendência, que é a música. Paradoxal, não?
Adeus à Linguagem é um filme experimental que o diretor da nouvelle vague, Jean-Luc Godard fez em 3D. O filme faz você transitar em mundos diferentes de linguagens enquanto mostra o cachorro do Godard em várias tomadas de auto-descorberta, dentre outras histórias paralelas. Seu adeus às formas de linguagem cinematográficas, linguagens amorosas, linguagens textuais, usa todas essas linguagens pra deixar aquela impressão típica do Godard de que a linguagem e comunicação nunca foram mais que uma ilusão. E isso tudo usando pessoas e ideias importantes do pensamento social e filosófico.
Birdman, ou A Inesperada Virtude da Ignorância, é uma homenagem ao mundo das artes da interpretação. Ganhador de vários Oscars, incluindo de melhor filme, Birdman critica de forma ácida e genial o cinema mainstream, principalmente blockbusters à la Michael Bay. Com atuações muito fortes, ele convence completamente. Mas o principal aqui é a direção de fotografia do Emmanuel Lubezki, que também ganhou o Oscar aqui e pelo segundo ano seguido (!), que parece ser coisa de outro mundo, uma vez que o filme parece ser todo feito de uma ou duas tomadas, mesmo com uma dúzia de cenários diferentes.




Música


The Book of Souls da banda britânica de heavy metal Iron Maiden é o trunfo do heavy metal neste ano. Composto primeiramente, na maior parte, como trabalho solo do Bruce Dickinson, o disco é um dos mais musicalmente sofisticados do NWOBHM. Tem vocais melódicos, riffs selvagens, calvalgadas que lembram os anos 1980 e uma temática meio asteca. O mais impressionante é que o Bruce gravou o vocal ao lutar contra um cancer de garganta! Ouça esse disco.
In Colour do Jamie xx. Eu comecei a ouvir música eletrônica com o Random Access Memories do Daft Punk de 2013. Não entendo muita coisa do(s) gênero(s) ainda, então não sei muito o que dizer dele. Música eletrônica tem muita coisa ruim e comercial e In Colour não decepciona. Tem profundidade musical e emocional e levou 6 anos pra ser feito. É dançante. Sei lá. Você tem que ouvir pra entender o que é. É bom.
Akeda do Matisyahu, que acompanho desde 2006. Esse judeu tem um talento natural pra reggae, dub, hip hop e rock! E seus discos são artefatos onde ele derrama de sua vida e de suas experiências. Akeda é verdadeiro e esperançoso, apesar de toda a dor que o afeta e todas as crises e motivos para desespero. Positive vibes, só que da vida real. É pura coragem existencial.
A Menina Ainda Dança (Baby Sucessos) da Baby do Brasil é alegria. Pura alegria é o que fez a Baby voltar para os palcos. Pura alegria é o que a fez retomar o antigo repertório e tocar com seu filho o instrumentista Pedro Baby, que produziu a gravação ao vivo do cd e dvd. Com a participação de Caetano Veloso, ela traz também algumas músicas dos tempos de Novos Baianos.
Carrie & Lowell do Sufjan Stevens é tristeza. E luto e lamento. Às vezes sóbrio, às vezes não. Mas sua musicalidade é sempre sóbria. A arte de Sufjan Stevens sempre é influenciada por suas experiências de vida e por sua religiosidade. O Carrie & Lowell especificamente nasceu da experiência que ele teve com a morte de sua mãe. Sem muitos ornatos, com gravações consistentes e downbeat, esse disco folk é uma experiência de melancolia.





Leituras


Em História Sem Fim, Bastian é um garoto gordinho e inseguro que pega para ler um livro sobre um mundo chamado Fantasia. Nele, a Imperatriz Criança, que sustenta esse mundo, fica mortalmente doente enquanto o Nada começa a engolir tudo. A história deu origem a um blockbuster horrível em 1984, mas não atente muito para ele. História Sem Fim é um formidável manual de existencialismo em forma de romance infanto-juvenil. Assim como Nárnia, é uma história saturada de significado e lições para a vida e reflexões sobre coragem e bondade.
A Vida Como Ela É... é uma coletânea de crônicas de uma coluna homônima do "carioca" Nelson Rodrigues, um dos maiores dramaturgos do Brasil, durante os anos 1950. São histórias de humor, tragédia e sexualidade que por sua representação de adultério, do desejo sexual e de questões relacionadas à moralidade familiar e sexual, causou escândalo para a sociedade da época. Sua importância é hoje eminente por ser, apesar dos exageros, um bom contraponto o recente cisma entre corpo e pessoa, bem como entre moralidade e sexualidade no espírito de época atual.
Isto não é o Red Light District na Holanda. Sobe e Desce na Guaicurus: Pelas Portas de uma Zona de Prostituição de Tarcísío Badaró é um livro jornalístico com uma pitada de romance sobre a zona de baixo meretrício do centro da capital mineira, um dos principais complexos de prostituição do país, onde milhares de homens passam todos os dias e cerca de mil mulheres cobram de 10 a 30 reais por 15 minutos de prazer. Com escrita fluida e pedagógica, o livro é uma apresentação das várias realidades, contextos e vivências que existem em torno da prostituição e da região da rua Guaicurus.
A Metamorfose é o principal trabalho de Franz Kafka, escritor tcheco formidável. Na história, Gregor Samsa, um caixeiro-viajante, numa manhã simplesmente acorda transformado num inseto (não é uma barata!). Enquanto ele tenta se adaptar a sua nova condição e tenta viver na mesma casa de sua família, que era sustentada por ele, o leitor é jogado em várias reflexões sobre a condição humana em meio ao trágico e ao absurdo da vida. O romance completa 100 anos nos próximos meses.
Cartas a um Jovem Calvinista, do filósofo canadense James K. A. Smith, é uma série de cartas pastorais a um jovem ficcional, inspiradas nas "Cartas Sobre a Educação Estética do Homem" de Friedrich Schiller e no "Cartas a um Jovem Católico" de George Weigel. O conteúdo das cartas é de educação intelectual, estética e espiritual à tradição cristã reformada, incluindo a tradição reformada holandesa. O livro é muitíssimo rico em conteúdo intelectual, mas mais ainda em seu teor pastoral, cuja necessidade é de maior importância hoje. Ele não desfaz de outras tradições do cristianismo, mas as dignifica também. Se você é um cristão reformado, leia. Se não é, também leia.

19 de dezembro de 2015

Confissões de um protestante obstinado


"...o vento sopra onde quer..." (Jo 3.8)

Memórias não podem ser esquecidas. O passado, uma vez vivido, entra em nosso sangue, molda o nosso corpo, escolhe nossas palavras. É inútil renega-lo. As cicatrizes e os sorrisos permanecem. Os olhos dos que sofreram e amaram serão, para sempre, diferentes de todos os outros. Resta-nos fazer as pazes com aquilo que já fomos, reconhecendo que, de um jeito ou de outro, aquilo que já fomos continua vivo em nós, seja sob a forma de demônios que queremos exorcizar e esquecer, sem sucesso, seja sob a forma de memórias que preservamos com saudade e nos fazem sorrir com esperança.

Digo isto como prelúdio a uma confissão: sou protestante. Sou porque fui. Mesmo quando me rebelo e denuncio. Minha estória não me deixa outra alternativa. Sou o que sou em meio às marcas de um passado. Mesmo que eu não quisesse, este passado continuaria a dormir comigo, assombrando-me, às vezes, com pesadelos e fúria, às vezes, fazendo-me sonhar com coisas ternas e verdadeiras.

Sou protestante. Hoje, muito diferente do que fui. Não há retornos. Tão diferente que muitos me contestarão, recusando-me cidadania no mundo da Reforma. Alguns me denunciarão como espião ou traidor. Outros permitirão minha presença, mas exigirão o meu silêncio. O que me faz duvidar de mim mesmo e suspeitar, quem sabe, que eu seja de fato um apóstata. Mas aí protestantes de outros lugares me confirmam, ouvindo-me, dando-me as mãos, o pão e o vinho…

Sou protestante. Perderão o seu tempo aqueles que tentarem descobrir as raízes de minha fé em catecismos ou teólogos. O amor e a dor vêm primeiro. É só muito mais tarde que a gente pensa a fim de entender o sofrido e o desejado. Tudo começa com canções de alegria e tristeza, muito antes de podermos chamar nossas ideias pelo nome. E é por isto que a gente não pode deixar de ser o que foi. Mudar de ideia é muito fácil. Mas ninguém pode fazer de conta que alegrias e tristezas nunca existiram. É assim na religião. Salmos e poemas vêm primeiro. Eles pertencem às origens, preservam aquele espanto primordial frente ao sagrado. Já os tratados de teologia e as explicações doutrinárias são construções tardias, depois que passou o amor e a dor se foi, depois que o espanto acabou e ficou o vazio…

Não foi no cérebro que me tornei protestante. Ao contrário, minha fé é companheira de imagens, memórias, perfumes, músicas, solidões, retiros, caminhadas por montanhas e beira-mar; rostos, sorrisos, acampamentos de trabalho em favelas; funerais, injustiças, esperanças enterradas, algumas ressuscitadas; certezas de lealdade a toda prova… E aqui eu teria de ir colocando nomes: presenças ausentes com quem compartilho a minha vida. É isto. O decisivo não é a ideia. O decisivo é a pessoa que a gente invoca, não importa que já esteja morta…

Dizendo de outra forma: não sou protestante em virtude das ideias que tenho. Não somos o que somos por termos as ideias que temos. Temos as ideias que temos por sermos o que somos. Primeiro vem a vida, depois vem o pensar…

É muito importante entender isto. Não é curioso que tanto os inquisidores quanto São Francisco tenham se chamado "católicos"? Não é curioso que tanto as pessoas que caçaram e mataram bruxas em Salém, quanto Schweitzer e Martin Luther King, tenham se denominado "protestantes"? Afinal de contas, que magia estranha é esta que faz com que uma mesma religião seja coisas tão opostas?

Religiões são como mesas de banquetes: tudo está preparado e há desde os pratos rigorosamente destinados às dietas vegetarianas até as gorduras chamuscadas nas brasas para aqueles que gostam de carne… E os fiéis se aproximam, cada qual com o seu pratinho, e escolhem… Veja, observe: Já vão saindo com seus pratos cheios. Os lobos, os inquisidores, os caçadores de bruxas trazem nos seus pratos coisas que não se encontram nos pratos dos cordeiros e das vítimas… Escolheram as ideias que mais apeteciam aos seus paladares e menos ofendiam aos seus estômagos.

Claro que se trata de uma parábola. Estou querendo simplesmente dizer que, assim como as pessoas constroem as suas dietas a partir das exigências dos seus corpos, também elas constroem as suas teologias a partir do que elas são… E é por isto que há tantos catolicismos diferentes, dos lobos e das ovelhas… É por isto que há tantos protestantismos diferentes, dos lobos e das ovelhas… É claro que os lobos se dão  bem, não importa a cor de suas peles. E as ovelhas são sempre ovelhas, e se entendem… Seria bom tentar começar a entender o ecumenismo a partir deste ponto, deixando os debates sobre ideias para depois. Há muitas formas de organizar as experiências que o protestantismo guarda. Os inquisidores colocarão fogo nos olhos do seu deus e com o fogo consumirão aqueles que se atrevem a ser diferentes. Os pacificadores colocarão o fogo nas lanternas e nos fogões, para iluminar, aquecer, cozer…

Minha primeira experiência/memória protestante tem a ver com um hino. Meu pai tinha ido à falência. Tudo se perdeu. Morávamos numa casa velha, emprestada, daquelas fazendas antigas do sul de Minas, sem água encanada, sem privada, sem luz elétrica. Era o cheiro de querosene das lamparinas, do estrume das vacas, do capim-gordura, do milho fermentado, o barulho do monjolo, da água que caía do rego, os camundongos e os cães que ladravam pelas noites a dentro… Mas, como disse a Cecília Meireles, "quando a desgraça é profunda, que amigo se compadece?" De um homem falido fogem os amigos. E foi então que apareceu lá naquela solidão um evangelista, o senhor Firmino. Do que ele dizia nada me restou: eu só tinha três anos. Mas guardei a música que me pareceu a estória de um homem de nome esquisito, João Totrono… Depois descobri que era "Junto ao trono de Deus, preparado, tens cristão um lugar para ti…" Iniciam-se minhas memórias com uma canção que ficou sendo sacramento de uma presença gratuita e estranha, quando os rostos familiares ficaram raros.

Chamei a memória da música não porque minha biografia tenha qualquer importância, mas porque, puxando um pouco mais os fios, a gente acaba por agarrar a história. Esbarramos com a Reforma Protestante e vemos todo mundo cantando. A Reforma aconteceu através da música. Pode ser que Lutero e outros líderes intelectuais do movimento tivessem pensado com rigor os seus pensamentos, mas pessoas comuns cantaram a Reforma antes de entende-la. Quem canta é mais perigoso do que quem só pensa. O canto põe asas nos pés. Haverá outra razão para as marchas militares que põem uma mesma cadência nos passos? O canto mobiliza o corpo, imobiliza o medo, e transforma gestos solitários em caminhadas solidárias. E Lutero colocou sua fé em hinos que eram repetidos e decorados, mesmo por aqueles que – crianças, talvez – não entendiam bem as ideias. A confiança se cristalizou em imagens. Qualquer um podia entender o que significava cantar "Castelo forte é nosso Deus, espada e bom escudo…"

O espírito protestante é um espírito cantante. Símbolo disto é um homem simples, João Sebastião Bach, que juntou em suas cantatas a palavras evangélica com a grandiosidade estrutural da música. Tanto ou mais que os documentos da Reforma, a música de Bach é minha amiga. Eu a invoco sempre nos momentos de confusão. Fé cantada é melhor que fé falada. E descubro que o meu protestantismo tem muito a ver com o fato de que a música desse homem é como uma encantação mágica que desperta em mim coisas boas, adormecidas, das quais frequentemente me esqueço. E fico melhor do que sou.

Compreendo que alguém poderá dizer que gosto por Bach é coisa refinada, de gente que pode se educar, o que está proibido à maioria… É possível. Mas Bach foi apenas um dos muitos que cantaram e continuam a cantar. E esta é a razão porque não me envergonho de pular de Bach para uma casinha de pau-a-pique, lá perto de Miguel Pereira, ao fim de uma trilha pelo meio do pasto, no buraco da noite, em que irmãos pentecostais de cabo de enxada e palavra reta cantavam sua fé singela e descomplicada, ao som das cordas, dos pandeiros, dos bumbos. E de lá voo para o último domingo de Páscoa, numa missa católica para crianças, em que, para o meu espanto, repentinamente a Igreja explodiu num "Glória, Glória, Aleluia", sacudido por dezenas ou centenas de chocalhos, triângulos, pandeiros e tambores infantis, do jeitinho que manda o Salmo 150, tão lido e tão desacreditado…  Que coisa mais ecumênica pode existir que a música? Para além de tudo o que nos divide, ela dá testemunho de que nós queremos cantar, cantar juntos, cantar que é bom viver… Se a teologia tivesse sido cantada, é certo que menos fogueiras teriam sido acesas… E descobri assim o Protestantismo como esse espírito cantante, que vive desde a cantata de Bach até a cantoria dos que não sabem distinguir bemol de sustenido. Pode ser que ninguém acredite, mas é fato: foi um padre que me fez sentir protestante pela primeira vez.

Eu não pedi para ser protestante. Eram os meus pais que me levavam, meio à força, para a Escola Dominical. Aí aconteceu um acidente. Num grupo escolar, primeiro ano, lá no sul de Minas. Num belo dia, sem aviso prévio, a professora entrou em classe acompanhada de um padre com batina preta. "Quem é que vai para a confissão e a comunhão?", perguntou ele com voz taquaral clerical. A meninada toda levantou a mão. Menos eu e o Estelino, que era espírita. Todo mundo olhou espantado para a gente, enquanto o sangue subia ao rosto e os nossos olhos se enterravam no chão. Miseravelmente diferente, sem saber por quê, enquanto os outros cochichavam risos contra a minha singularidade. E o padre e a sua batina foram crescendo, crescendo, sem parar, e o menino indefeso foi sentindo a dor do estigma. Eu era diferente. Nunca me esqueci.

Mas aí aconteceu uma coisa gozada, que a psicanálise deve explicar. A vergonha de ser diferente virou o orgulho de ser diferente. Foi então que eu, sem saber, me senti protestante pela primeira vez. De fato, o protestantismo tem muito a ver com a coragem para assumir a própria individualidade. Como aconteceu com um monge teimoso, que não dobrava o pescoço por medo da espada, mas fazia o corpo todo andar e falar ao som suave da voz da consciência. Este teimoso individualismo teve um gosto doce à minha boca, e nunca mais o abandonei.

De tão longe não é fácil entender o que significam os gestos do monge teimoso. Com eles Lutero não estava criando algo novo, mas simplesmente "des-cobrindo" um espírito protestante já em gestação.

Foi necessária muita coragem para contrapor a voz da consciência individual à voz das autoridades constituídas. Fazendo isto, ele declarava que, se existe um referencial sagrado para o comportamento, se existe um lugar de verdade para o pensamento, tais lugares não se confundem com os lugares do poder, não importa que o poder tenha sido legitimamente constituído. O segredo e a verdade não habitam as instituições, mas invadem o nosso mundo através da consciência.

Isso é subversão. Lutero colocou o mundo de cabeça para baixo. Se o Espírito de Deus não é monopólio de instituições, não é gerenciado por organizações, não é distribuído por burocracias, todas elas perdem a sua aura sagrada. Não podem mais pretender ser eternas.

O Espírito é algo diferente, livre. Como o vento, imprevisível, assopra onde quer, não se sabe donde vem, nem para onde vai. Só podemos ficar à espera, quais meninos com suas pipas na mão…

Ter consciência é isto: ficar à espera, aguardando o movimento do vento… Tudo é imprevisível. Nada é comparável à imponente mobilidade da catedral gótica, cuja beleza se encontra exatamente no fato de haver ela congelado o espírito de um certo momento da história. Mas ficar à espera do vento é esperar por um movimento, não se sabendo nem onde e nem quando ele se dará…

Duas coisas ficavam assim ligadas.

De um lado, a liberdade de Deus. Pode parecer coisa abstrata mas não é. Dizer que Deus é livre significa que ele se ri de nossas tentativas de conhece-lo pela nossa teologia, aprisiona-lo em instituições, administra-lo pela burocracia. Ele sempre anda por lugares não previstos, na companhia de gente estranha, fazendo coisas meio esquisitas, tal e qual Jesus Cristo. Traz do cativeiro um povo sem eira nem beira, faz uma mulher estéril dar à luz, dá vida a um vale de ossos secos, faz uma virgem engravidar, dá tombos nos fortes, põe os fracos nos lugares altos, confunde os sábios, joga mau cheiro sobre a piedade dos que confiam muito em si mesmos, transforma heróis em vilões e vilões em heróis… E os protestantes, conhecedores deste prazer divino nas inversões súbitas, poderiam prever que ele acabaria por subverter a própria Igreja Católica, derrubando blocos de pedra com o seu sopro suave e fazendo nascer flores entre as fendas das lápides, assombrando os bem-nascidos e fazendo rir as crianças… E se o Espírito de Deus anda por lá, quem somos nós para dizer não?

E, do outro lado, a consciência da pessoa, esta estranha capacidade que nos distingue dos bichos, e nos permite perceber as coisas novas e diferentes que o Espírito está fazendo, e mesmo ouvir a sua voz – sinais da gravidez universal da criação, o que faz a gente ficar feliz (Rm 8.22). Era por causa da consciência que Lutero falava que todos os fieis são sacerdotes. Acabou-se o monopólio do divino. Cada cristão, mesmo uma criança amedrontada, pode ficar de pé e dizer: "Aqui fico. Não posso ir contra a voz da minha consciência."

Se os protestantes tivessem sido espertos e sensíveis à sua própria teologia, eles, há muito, teriam assumido a dianteira, e espalhado por este mundo a fora um sem número de Comunidades Eclesiais de Base. Por que é que bem-nascidos cardeais, bispos conservadores e padres dantanho ficam arrepiados com esta coisa? Isto é coisa de protestante, percebem eles muito bem. Dizia o falecido Gustavo Corção, com toda razão, que a Igreja Católica estava se protestantizando. E parece que nunca disse coisa tão verdadeira.

As comunidades protestantes primitivas eram de base, no sentido de que nasciam do povo comum – cada crente era um sacerdote. Eu não tenho medo de dizer que a Igreja Católica está passando hoje pela Reforma – mais uma façanha do vento suave… Com uma diferença. No século XVI a Igreja recuou, e deu aquilo que todos conhecemos. Depois, os protestantes tentaram converter os católicos no varejo, um a um. Mas o Espírito ficou meio impaciente, e tratou de fazer a conversão por atacado. Pela Igreja toda sopra a liberdade de Deus e a voz da consciência: os fieis estão à escuta, tentando ler os sinais dos tempos…

Quantas coisas nos conta a ideia protestante de que todos os homens são sacerdotes!

A primeira coisa que ela faz é colocar um enorme ponto de interrogação sobre as cabeças das pessoas que se dizem autoridades religiosas, políticas, militares, não importa. De saída é necessário dizer que a autoridade é algo estranho ao espírito do Novo Testamento. Quem quiser ser o maior, que seja o servo. Substituir a espada pelo lava-pés. Deus, poder e verdade, abre mão de tudo, esvazia-se… Leia-se o Novo Testamento e veja-se o papel que as autoridades desempenham ali, a partir de Herodes, mandando matar as crianças, até as autoridades romanas e autoridades judias, mandando matar Jesus. Parece que as pessoas em posição de autoridade são mais suscetíveis à idolatria e à crueldade. É isto que nos conta a história. É claro que a ordem é necessária para tornar possível a nossa convivência. E destas coisas, surge, aos poucos, o espírito da democracia, expressão do doloroso reconhecimento da necessidade da autoridade e da determinação de manter sempre a autoridade no seu devido lugar: não em cima, mas em baixo, como serva e funcionária do corpo sacerdotal – claro! – o povo todo, cada um deles um sacerdote.

Depois ela nos dá permissão para pensar com ousadia os pensamentos mais loucos e avançados. Reprimir o pensamento é reprimir a consciência, é colocar a autoridade estabelecida num nível mais alto que a liberdade do indivíduo. Sei que isto horroriza aqueles que habitam os espaços já organizados e disciplinados da vida eclesial. Tudo já está previsto. O futuro não pode ser diferente do passado. A casa está em ordem e os velhos descansam tranquilos. Mas, de repente, uma classe de jardim de infância invade a casa e tudo fica em movimento, borbulhante de vida. Cada peça de museu se transforma num brinquedo. Cada canto sagrado vira um esconderijo para o jogo de esconder. A ordem cristalizada se transforma na vitalidade indomável… É claro que há muitos que começam a sofrer vertigens, enquanto outros tratam de expulsar a criançada… "Se não vos converterdes, e não vos fizerdes como crianças…"

Por séculos o ideal da Igreja foi o de construir jardins geométricos, monocultura, em que tudo permanecesse sob o estrito controle do jardineiro. Agora os protestantes dizem que o Espírito é um semeador sem muito gosto pelos traçados geométricos, que mistura tudo quanto é tipo de semente e as espalha ao vento… E elas brotam na mais fantástica explosão de cores, na desordem maravilhosamente bela que surge da vida… E surge então o mandamento para a pluralidade e a diferença. Os especialistas em cortar pedras dirão que a pluralidade e a diferença são sinais de desintegração. Afinal, se os tijolos não forem todos iguais, a casa cai… Mas quem é que falou em construir casas? Da mesma forma como a vida, na sua unidade, produz amores perfeitos, cravos-de-defunto, girassóis, musgos, cactos, caquis, bananas, jacas, algas, buchas, erva-doce, losna, abóboras e cerejas, também o Espírito de Deus, na sua unidade e vitalidade, pode produzir as mais variadas formas de vida, sejam as culturas indígenas, as dançantes comunidades pentecostais africanas, ordens monásticas, experiências de contracultura, as religiões populares, e até mesmo os estilos de vida em que nos sentimos em casa. E com os estilos de vida surgem novas formas de pensar e novas formas de falar sobre Deus, sobre Cristo, sobre a salvação… E quem seria aquele que tomaria da espada para liquidar os diferentes? Com que direito? Quem quer que se atreva a liquidar os dissidentes está possuído da ilusão de ser o detentor do monopólio do divino, e sucumbe à tentação e à crueldade da espada – eclesial ou secular, não importa.

Posso bem perceber o espanto incrédulo nos olhos do meu leitor, protestante de muitos anos, que pela primeira vez ouve coisas tão insólitas. E ele procurará ao seu redor para ver onde é que este protestantismo se encontra. Entre os Batistas? Na Igreja Presbiteriana? Quem sabe nas Comunidades Protestantes? Que dizer dos Metodistas? E vamos caminhando, inutilmente, reconhecendo as pedras, identificando a voz da autoridade, ouvindo o barulho típico da tesoura de poder que corta um broto novo… O futuro deve ser uma continuação do passado. As mesmas ideias. A verdade já foi cristalizada em séculos idos. Proibidos de explorar o novo, de pensar o insólito… E as pessoas vão ficando tristes, pensando todos os dias os mesmos pensamentos, fazendo todos os dias as mesmas coisas, orando as mesmas orações espontâneas  formadas com a colagem de frases feitas e estereotipadas, sem coragem para contar as coisas que acontecem no fundo da sua alma, porque isto pode perturbar a simetria da rotina…

E eu me lembro então da última coisa que quero dizer sobre a liberdade de Deus, coisa que todo protestante repete. Poucos, entretanto, tomam o risco. Salvação pela graça. Salvação não vai de baixo para cima. Salvação vem de cima para baixo. Deus nos ama. Deus resolveu o problema, por conta própria. Isto significa que ele não tem livro caixa, onde entram nossos débitos ou créditos. Os débitos são perdoados e os créditos ignorados. Salvação segundo o modelo do livro caixa é o que os teólogos denominavam "salvação pelas obras". E quem é que pode estar tranquilo, sem recursos para pedir uma informação sobre o saldo da conta? Salvação pela graça significa: das questões depois da morte Deus já cuidou. Por isto é ocioso gastar pensamento e aflição com discussões sobre a mobília do céu e a temperatura do inferno. Mas sobra tudo o mais que nos ocupar: a preservação da natureza, a arte, a fogueira das armas, para transforma-las em arados e podadeiras; a luta contra os exploradores, a proteção dos oprimidos, o prazer da liturgia, da música, da comunidade, o brinquedo da teologia. A salvação pela graça significa: é inútil e desnecessários nos preocuparmos com o além. O além pertence a Deus, nossos braços não vão até lá. E Deus já resolveu o assunto, em amor. Somos então livres para sermos totalmente deste mundo, fazendo as coisas que a consciência nos comanda.

Imagino a sua perplexidade que pergunta se não existirá coisa mais oposta ao espírito cristão de amor que o individualismo que leva as pessoas a caminhar de forma solitária, cercadas de muros. Terei de responder que você tem razão. Mas terei de lhe perguntar, em troca, se existe coisa mais oposta à comunhão que a sociabilidade fácil daqueles que se satisfazem com a conversa ociosa da representação de papeis… Toda palavra genuína deve nascer do silêncio. Não posso crer nas declarações de solidariedade daqueles que não frequentam a solidão de sua própria consciência. Não, o individualismo da Reforma nasce de um profundo respeito pela pessoa, porque cada pessoa é uma "máscara" de Cristo, Cristo se fazendo presente, disfarçado… E assim, quando alguém é desrespeitado, violentado, torturado, quando alguém passa fome e não tem onde morar, é o próprio Cristo que está aí…

Sou protestante.

Mas você já deve ter percebido que minha bem-amada está ausente. Meu protestantismo é uma saudade e uma esperança. Esta é a razão por que sinto uma enorme necessidade de ler os pais da Reforma e uma compulsão de ouvir o vento do espírito, pra ver onde é que poderei empinar o papagaio…

Por enquanto, o espírito cantante e brincalhão do protestantismo (sob disfarce, é claro) está fazendo das suas na Igreja Católica. Como eu lhe disse, o Espírito é livre… Talvez ele tenha querido brincar conosco. Talvez não tenhamos querido brincar com ele. E ele está se indo. Ele, porém, volta de vez em quando – e haverá de voltar para ficar.

É, eu sou protestante.

Rubem Alves

Depoimento retirado da revista Tempo e Presença, Publicação Mensal do CEDI (Centro Ecumênico de Documentação e Informação), número 169, de Julho de 1981. Transcrito pelo Eduardo Chaves em seu blog (http://liberal.space/) e reproduzido aqui com seu consentimento.

20 de novembro de 2015

Quando o mundo enlouquecer


Lama da Samarco em Mariana, Minas Gerais.

Isaías 19 a 20:6 é um oráculo contra o Egito. Não são boas notícias para o Egito. O Egito ficará sob o poder de um rei selvagem. Os versículos seguintes evocam as pragas e as passagens pelo mar: as águas secarão (v. 5), os canais vão emitir mau cheiro assim como quando os peixes morreram nas águas que se transformaram em sangue (v. 6; ver Êxodo 7:18), os campos serão devastados pela seca (v. 7).

No final, são boas novas, as boas novas do êxodo. Se os egípcios estão padecendo sob um rei selvagem, então Yahweh vai fazer por eles o que Ele fez por Israel quando eles padeceram sob um Faraó selvagem: Ele vai libertá-los. Se Ele cria caos, levanta um rei opressor, faz os egípcios virarem escravos, destrói seus meios de vida e sua prosperidade, é porque Ele os está preparando para um novo êxodo. Desta vez não é um êxodo de Israel, mas um êxodo de egípcios de um Egito morto.

E a profecia continua. Yahweh promete que virá um dia em que ele vai transformar a destruição do Egito em uma nova vida. E além do julgamento, o Egito vai construir um altar para adorar o Deus de Israel no centro de sua terra e uma pilastra para Yahweh vai marcar a fronteira do Egito (Isaías 19:19). O altar no centro da terra e a pilastra na fronteira serão uma testemunha de que Yahweh também é Salvador e o Poderoso do Egito (v. 20). Yahweh lidou com o Egito no êxodo para que Israel e especialmente o Faraó viessem a "conhecer" Yahweh e é isso o que Yahweh está fazendo novamente. E quando Yahweh se tornar conhecido no Egito, eles o adorarão com sacrifícios e oferendas, farão juramentos a Yahweh e os cumprirão. Yahweh aflige, mas Ele aflige para curar (v. 22). Por causa das ações de Yahweh, o Egito vai se converter a Ele e será curado por Ele.

O dia em que o Egito for redimido também será o dia em que a Assíria e o Egito vão se unir em adoração. Uma estrada será feita entre o Egito e a Assíria, não para facilitar guerra entre eles, mas para facilitar adoração.

Por enquanto, porém, a Assíria e o Egito ainda estão em guerra. Yahweh diz para Isaías para ir nu e descalço como um escravo (Isaías 20:2-3) como um sinal de que o rei da Assíria vai tomar cativos do Egito e da Etiópia e deixar a cidade palestina Asdode exposta (vv. 1, 4-6). Todos esses conflitos internacionais estão preparando o terreno para "aquele dia", quando Yahweh virá reunir o Egito, a Assíria e Israel em adoração e louvor. Eventualmente, essas hostilidades vão acabar e o Egito e a Assíria vão se unir com Israel em adoração a Yahweh. Isaías vai mais longe ainda e profetiza que o Egito e a Assíria vão tomar proeminência em adoração sobre Israel. Israel, o primogênito, cederá o primeiro lugar aos seus inimigos tradicionais (19:24-25).

Essa é a forma como Deus redime. Ele vem e coloca os homens uns contra os outros, cidades contra cidades, reino contra reino. Ele vem trazer tirania e selvagem repressão, violência aleatória e terror em estádios e restaurantes. Ele vem e causa devastação econômica e leviandade política. Mas todo esse caos, quando tudo está se explodindo para todos os lados, ele está no final das contas restaurando a vida e a ordem. Essas são as formas que Yahweh desenrola o mundo pelo Seu Espírito e o move para seus propósitos.

Algumas vezes na passagem, Isaías fala dos planos e propósitos de Deus. Os sábios do Egito não sabem discernir os propósitos do Senhor para o Egito (v. 12). Judá é um terror para o Egito por causa do propósito que Yahweh planeja contra o Egito (v. 17). Deus está cumprindo suas intenções no meio e através da confusão e da tirania e do terror a da estupidez e da dor do colapso social.

Quando o mundo parece ter enlouquecido, quando há guerra de todos contra todos, quando reis cruéis reinam, quando conselheiros parecem iludidos ou embriagados, quando a economia está desmoronando – no meio de todo o caos e desordem, Deus está trabalhando, o Espírito está ativo, o Espírito vem como uma tempestade, como um furacão, desenrolando um mundo emaranhado em pecado e morte, soprando o mundo de volta para o movimento, de volta para o movimento em direção a Deus. Todo esse caos significa que o senhor vem montando em sua nuvem, agitando o mundo pelo Espírito até que todas as nações se voltem para ele em adoração.

Peter J. Leihart