19 de junho de 2013

Dois vivas para Javert

O texto a seguir é da autoria de James K. A. Smith, filósofo norte americano, professor de filosofia da Calvin College e novo editor da revista Comment Magazine da organização Cardus. Ele foi escrito para um blog de editoriais e comentários da própria Cardus.

De acordo com o nosso panteão crítico contemporâneo, eu teria que rejeitar a versão de "Os Miseráveis" de Tom Hooper (apesar do Stanley Fish ter me feito me sentir melhor sobre ele). Mas desde Moonrise Kingdom a familia Smith inteira não era tão coletivamente encantada por um filme. A trilha sonora do filme está bombando no quarto da minha filha de 16 anos e do meu filho de 20, e eles vão ouvir a mesma coisa se forem no meu carro. Onde alguns críticos veem emocionalismo eu vejo educação sentimental.

Só que eu me apaixonei pelo vilão. Aqui eu vou fazer o papel de advogado do diabo e oferecer algumas palavras em louvor de Javert.

Para quem não está familiarizado com a história, Javert é um guarda de prisão e mais tarde um policial ou inspetor comissionado a manter a paz pela manutenção da lei e da ordem. Ele é o inimigo do protagonista da história, Jean Valjean, que foi preso pela lei que Javert defende. E Javert o persegue desde quando ele foi solto e não cumpre as regras da condicional. Na versão do filme de Tom Hooper, a história é uma dança contínua entre esses dois personagens.

Primeiramente, devemos resistir à tentação de fazer uma leitura dessa história como uma alegoria sobre salvação, com personificações de Graça e Lei em Valjean e Javert, respectivamente. Quando fazemos isso, parece claro que todo cristão ficaria do lado de Valjean, lamentando o trágico fato de que Javert não tem espaço para graça ou perdão em sua visão de mundo. Mas eu não creio que essa leitura alegórica seja a melhor, apesar de que a história certamente nos convida a considerar a dinâmica da graça e do perdão na vida de Jean Valjean. Se você insiste em ler o filme dessa maneira, não o trate como uma alegoria sobre salvação; pense nele como uma hagiografia, uma das "histórias dos santos", que fala sobre a santificação de Valjean.

O que eu quero é olhar para essa história através das lentes da Cardus, por assim se dizer, e considerar o lugar da lei e a avaliação desta no mundo que Victor Hugo e Tom Hooper criaram. Partindo desse ponto, parece-me que corremos o perigo de demonizar a lei em si, confundindo-a com o lugar e a avaliação que são dados para ela na história.

De fato nós sentimos a desproporcionalidade entre o crime de Valjean (roubar pão para dar para um sobrinho faminto) e sua punição (19 anos de trabalho pesado). A perseguição obstinada de Javert por um ladrão insignificante parece ser coisa de um maníaco. E o fato de que ele não pode conceder e nem receber misericórdia tem trágicas consequências. Infelizmente ele faz tudo isso sob o estandarte "da lei". No fim, a vilania de Javert é, então, associada ao fato de que ele é um agente do estado.

Minha preocupação é que muita gente sai da sala de cinema com uma reação negativa contra a lei em si. Isso é um tanto fácil de se vender numa época de autoexpressão libertária e também explica porque parece haver uma avassaladora simpatia pelos revolucionários. Estar do lado de Valjean é estar do lado do "povo"; e estar do lado do "povo" é ser a favor da revolução e contra Javert. E antes de você perceber (ou pensar sobre isso) você está pensando negativamente sobre a lei per se. Eu acho que os cristãos terão uma tendência especial pra isso se não tivermos uma teologia da criação robusta que sustente uma visão de lei (e ordem) fundamentalmente positiva.

Nesse ponto eu preciso dizer que muitos de nós na Cardus gostamos bastante de uma tradição que já se descreveu orgulhosamente como De Wijsbegeerte der Wetsidee, ou Filosofia Cosmonômica. Essa filosofia não defende legalismo. Ela era, na verdade, uma filosofia que reconhecia que as normas e "leis" são inscritas na criação de Deus para o nosso bem. Essa é a base para uma filosofia de bem estar cultural que afirma o desenvolvimento de normas, leis e políticas culturais como aspectos da boa criação: dádivas para a prosperidade e o bem comum. De certas maneiras, Javert devotou sua vida apenas para esse trabalho.

Esse também é o motivo pelo qual eu não consigo me animar muito com o impulso revolucionário da juventude em "Os Miseráveis". A tradição filosófica que está por trás da Comment Magazine é também identificada com o "Partido Anti-Revolucionário" de Abraham Kuyper pelas mesmas razões. Por isso – e mais uma vez eu me encontro impropriamente em simpatia – quando Javert , na véspera das barricadas, adverte: "mais um dia para a revolução / nós vamos cortar o mal pela raiz / estaremos preparados para esses estudantes / se molhar sangue eles vão". (Não, sério, é preocupante que eu ame quando Russell Crowe canta esses versos. Isso é similar à minha profunda simpatia a quando Don Draper em Mad Men pergunta ao boêmio do East Village "Então, Roy, se você tivesse um emprego, o que você faria?")

O problema, é claro, é que Javert não consegue distinguir entre o bem da lei e as boas leis. Ele parece não ter nenhum espaço para distância crítica em sua devoção à lei e, portanto, ele termina afirmando de forma acrítica o que são leis injustas (essa é uma distinção crucial bastante desenvolvida na "Carta da Prisão de Birmingham" de Martin Luther King Jr). Como resultado, os espectadores contemporâneos do filme, que foram treinados por uma série de forças culturais a valorizar a expressão individual e suspeitar das instituições, terminam saindo com uma visão negativa da lei em si. E uma grande parte da missão da Cardus é mudar isso.

James K. A. Smith

texto original: http://www.cardus.ca/blog/2013/02/two-cheers-for-javert

Referências:

Um comentário:

Boaz Rios disse...

Parabéns pelo blog. A boa reflexão é sempre bem vinda. Um grande abraço!

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