7 de novembro de 2013

As raízes do estupro na Índia

O texto a seguir é da autoria de Kancha Ilaiah, diretor do Centro de Estudos de Exclusão Social e Políticas Inclusivas da Índia e professor da Maulana Azad Natinal Urdu University, publicado pelo Deccan Chronicle em 10 de maio de 2013.
O estupro tem, nos últimos tempos, se tornado uma doença mordaz na sociedade indiana. À primeira vista, esse é um problema decorrente de uma desordem mental. Mas há também um contexto cultural maior que, em certa medida, explica como o indiano se tornou tão brutal.

Nossa formação cultural condiciona as mentes masculinas a se comportarem num padrão cruel com relação às mulheres. A formação familiar, o condicionamento social, as narrativas religiosas e animosidades políticas, todos são constructos que fazem nossos homens e mulheres serem como eles são: os homens serem agressivos e as mulheres, submissas. E é por isso que os homens aqui na Índia são diferentes dos homens de outros países.

O ambiente cultural deles é diferente. Seus sistemas espirituais os treinam de forma diferente. Não é o caso que apenas homens indianos estupram e matam crianças de três ou cinco anos de idade. Isso acontece em outros países também, porem isso é muito mais raro. As notícias diárias de crianças sendo estupradas em todos os cantos do país são um fenômeno único da Índia, uma sociedade que por outro lado é extremamente conservadora. Claramente a formação cultural, incluindo a familiar, precisa passar por uma mudança.

Cada vez que um estupro horrendo é noticiado, nós ficamos envergonhados e irados. Isso é uma coisa. Mas trabalhar formas e meios para erradicar esse mal é outra coisa. Nós não podemos deixar apenas para a polícia ou para o judiciário a responsabilidade de lidar com tais atos hediondos, porque o estupro também é um problema social, e é um problema mais grave por haver o assassinato da vítima. Nós precisamos tratar dessa perversão em suas raízes.


Somos uma sociedade que deriva seu senso de bem e mal da nossa ética espiritual e de nossas mitologias. Nossos deuses e deusas não são apenas venerados, mas adorados. E é nosso esforço vitalício imitá-los. Isso é o ambiente cultural que molda as vidas da maior parte das pessoas na Índia. Assim, é natural que aquilo que os deuses fazem nos influencie muito mais do que as lições morais no final de suas narrativas. Considerem agora: nós temos deuses que, por exemplo, mutilaram o nariz e as orelhas de uma mulher que se aproximou deles para professar seu amor (Lakshmana é descrito como tendo feito isso com Shurpanakha), e ainda assim nós o adoramos como símbolo de lealdade, sacrifício e de empenho pela justiça.

O Deus Krishna roubou as roupas de algumas mulheres enquanto elas se banhavam no rio Yamuna. Ele fez isso para provocá-las e pelo prazer de observar a beleza de seus corpos nus. Nós penduramos orgulhosamente miniaturas de pinturas desse mesmo ato em nossas casas. Os jovens que crescem vendo isso ou ouvindo a história sendo contada num tom entretido, são compelidos a não acharem isso um ato abominável.

Também temos um deus, Shiva, que insistia em entrar na área de banho da deusa Parvati, e fazia isso matando uma criança que mantia guarda na porta aberta. Dizem que Ganesha surgiu de tal união. Isso é certo ou errado? Nossa mitologia nos diz que o que o marido fizer será certo, que a vontade dele é maior que a da mulher. Se um herói mítico é louvado por seus atos de assassinato, bebedeira e adultério com várias mulheres (como Indra com Rambha, Urvashi, Menaka, Tilottama e por aí vai...), tais atos também são glorificados.

Quando histórias assim são parte de textos míticos, elas devem ao menos ser avaliadas criticamente e receber uma leitura política mais contemporânea fundamentada no conceito de igualdade. Ao invés disso, a tendência é não questionar o que os nossos deuses fizeram, mas simplesmente admirar tais atos.

Salvo poucas exceções, um relacionamento entre homem e mulher fundamentado no conceito de igualdade não é valorizado. As mulheres indianas são tidas como lathangi (uma pessoa de corpo delicado), nunca fortes o bastante para fazer resistência à sua desumanização. Apesar de Durga e Kali serem tidas como fortes, na vida real tal militância nunca é vista como feminina.

Vamos agora para o espectro político. Nós tivemos muitos grandes homens (Mahatma Gandhi, Jawaharlal Nehru, Sarvepalli Radhakrishnan e etc.) que se casaram bem jovens com mulheres com idades ainda muito menores, e que foram para o exterior para ingressar no ensino superior, deixando suas esposas em casa totalmente analfabetas ou semianalfabetas. Nós não sabemos como esses homens, ou Gokhale e Tilak, tratavam as suas esposas.

Mas nós sabemos que eles eram todos devotos das divindades mencionadas acima. O único homem que tratou a sua esposa como amiga e a deu boa educação desde o primeiro dia de seu casamento, Mahatma Jyotirao Phule, não é ensinado como um exemplo a ser seguido em nossos livros. De alguma forma, em nosso meio cultural patriarcal, o tratamento cruel e desumano das mulheres nunca foi motivo de preocupação. É considerado sacrilégio, por exemplo, questionar o Deus Rama por ter abandonado sua obediente esposa no ataque aleatório de um Dhobi.

E a ação de Sita, por sua vez, de não questionar, mas cometer suicídio, é considerada epítome de tudo o que é piedoso. Até mesmo Buda Gautama abandonou sua jovem esposa com um filho bebê. Questionar tais atos nunca foi parte do nosso discurso público.

Ou veja o nosso cinema. Desde que a indústria cinematográfica começou, nos filmes silenciosos ou falados, ela tem usado o corpo das mulheres como um objeto para fazer dinheiro. As sequencias de música e dança, que foram adotadas como uma forma de arte, caem num senso comum: todo herói tem o direito de abusar do corpo da heroína. O romance da nossa indústria cinematográfica não é romance; é vulgaridade que chega perto da criminalidade.

Pois é realmente uma surpresa que os homens deste país vejam como sendo de direito deles violar as mulheres em todas as esferas da vida?

Kancha Ilaiah

texto original: http://www.deccanchronicle.com/130510/commentary-columnists/commentary/roots-rape-india