20 de dezembro de 2014

Do nascimento à morte: a luta da mulher na Índia

Desde o ventre da mãe, em um país onde nascer menina pode ser um problema econômico, até o fim da vida e a possibilidade do desamparo na viuvez, ser mulher na Índia é uma luta constante contra estereótipos, cultura, educação e até contra a administração pública.

Na semana passada, os indianos começaram a compartilhar um vídeo, que acabou se tornando um viral na internet, de duas meninas se defendendo do suposto assédio de três homens em um ônibus.

O caso despertou a repulsa no país e mostrou que alguns não se comovem nem se indignam com esta atitude apesar de estarem sentados a poucos centímetros de onde acontece o abuso.


Irmãs se defendem de assédio na Índia no dailymotion.com

Também nesta semana várias organizações revelaram as dificuldades que meninas e mulheres enfrentam em situações como a incapacidade ou a perda do marido, e lembraram, além disso, o estigma que representa para elas a simples consideração social - proibida por lei, mas amplamente aceita - de que a família da mulher deve pagar o dote no casamento.

"É o momento da mudança, mas será preciso uma autêntica revolução social para acabar com uma mentalidade patriarcal e machista", declarou à Agência Efe Sehjo Singh, diretora de Programa e Política da organização ActionAid.

A ActionAid revelou nesta semana que a Índia "perde a cada dia" cerca de sete mil meninas antes de completar seis anos, algumas, inclusive, assassinadas pouco depois nascer, em uma sociedade na qual ser homem "é melhor".

Sehjo advertiu que a discriminação e a desigualdade com relação às mulheres está tão incrustada no gigante asiático que "antes de nascer você já está condenada", pois na Índia existem práticas como os abortos seletivos de meninas.

Estas práticas ajudam a formar "um enorme problema, porque nascem apenas 914 meninas a cada mil meninos, quando o natural seria o contrário", o que contribui para uma sociedade cada vez mais "dominada pela masculinidade", destacou a ativista.

O desamparo herdado na infância se transforma em um empecilho de vida do qual não é fácil se libertar e menos ainda quando o apoio institucional é falho, como denuncia um relatório apresentado esta semana em Nova Délhi pela ONG Humans Right Watch (HRW).

A organização pediu ao governo para atuar e rever a situação de todos os centros e instituições de atendimento a incapacitados ou doentes mentais no país. Eles alertaram que dezenas de mulheres são abandonadas por seus familiares e, até mesmo, internadas à força em sanatórios, algumas delas sem ter qualquer problema psíquico.

Apesar ser o segundo país mais povoado do mundo, com 1,252 bilhões de habitantes, segundo o estudo, intitulado "Tratadas pior do que animais: abusos contra mulheres e meninas com deficiência psicossocial ou intelectual em instituições na Índia", o país possui apenas 43 destes centros de saúde mental.

Para Kriti Sharma, pesquisadora da HRW e autora do trabalho, o estado de desamparo que acompanha o doente mental em um sistema que não lhes dá voz quando se trata de viver com a sua doença ou deficiência torna-se ainda mais evidente com mulheres e meninas.

Muitas delas sofrem abusos ou são simplesmente abandonadas pelos parentes, que chegam, até mesmo, a fornecer dados falsos nas instituições para elas nunca mais serem localizadas, condenando de fato à suposta doente a um confinamento sem limite de tempo.

O desamparo se acentua com a viuvez, como explica um relatório apresentado pela Organização das Nações Unidas (ONU), também esta semana: "Dando poder às viúvas: um resumo sobre as políticas e programas da Índia, Nepal e Sri Lanka".

Na Índia, muitas mulheres viúvas se transformam em párias, em sinais de falta de sorte, que as condena a mendigar e algumas chegam a ser queimadas vivas acusadas de bruxaria.

A cidade de Vrindavan, ao norte do país, se tornou um refúgio para essas mulheres. Atualmente, 15 mil viúvas tentam sobreviver cantando nos templos por poucas algumas poucas rúpias ou um punhado de arroz.

Em seu relatório, a ONU pediu aos governos, como o indiano, para acabarem com esta "ausência de direitos".

"Não quero mais palavras, o que quero é ação", exclamou Mohini Giri, uma das ativistas participantes do estudo

Luis Ángel Reglero
Agência EFE

12 de junho de 2014

O futebol precisa de uma teologia da libertação

O belo esporte precisa urgentemente escapar das garras da religião corruptora do capitalismo financeiro mundial.
Messi na Champions League Final 2011 contra o Manchester United. Fotografia: Tom Jenkins
Nascido a poucos quilômetros de Old Trafford, estou fadado a ser por toda a vida um defensor do Manchester United. É certo que este não foi um fardo especialmente pesado nos últimos anos e sendo batido por aquele que é, indiscutivelmente, o melhor time do mundo na final da UEFA Champions League, no sábado à noite foi muito menos doloroso do que um pontapé nas canelas. Mesmo na meia-idade, eu ainda obtenho imenso prazer (embora agora de uma poltrona) daqueles momentos de elevação exclusivamente da excelência que constituem a beleza do futebol: a energia da condução luminosa de um Lionel Messi, o domínio tático de Paul Scholes, a precisão explosiva de um Steven Gerrard, o astúcia elegante de um Dimitar Berbatov, o atletismo comandante de Petr Cech.

No entanto, os milhões que se deleitam em ver o belo jogo realizado no seu melhor estão sendo sistematicamente decepcionado por aqueles que lucram mais com a sua incontrolável expansão global. A lendária anedota do ex-treinador do Liverpool, Bill Shankly – de que o futebol não é uma questão de vida ou morte, "é muito mais importante do que isso" – está se tornando mais verdadeira pela a temporada enquanto o jogo é sugado cada vez mais profundamente para o turbilhão implacável da ganância comercial. Digo isso sem nenhum senso de desgraça alheia, já que o Manchester United é tão cúmplice de tal decadência corruptora através da mercantilização como qualquer outro clube.

Outros (até mesmo budistas) com razão advertiram que o futebol se assemelha cada vez mais a uma religião1. No entanto, por trás das características mais visivelmente cultuais do atual jogo, como seus rituais públicos performáticos, o seu poder de formação de identidade e sua capacidade para inspirar reverência, reside uma força quase religiosa de muito maior poder: o sistema impessoal e hegemônico do capitalismo financeiro global que não se importa com a excelência característica do jogo ou com as pessoas que praticam ou gostam dele, impulsionado por um culto do lucro, do poder e do status.

Os sintomas são claros para que todos vejam: os salários grotescamente exagerados de jogadores de alto nível e seus melodramas infantis desfilam perante e são estimulados por uma mídia sensacionalista e culpável; a distribuição gratuitamente injusta de receitas de direitos de TV entre clubes da liga de topo e os que precisam de dinheiro abaixo deles; os níveis astronômicos de endividamento atualmente ocupado por clubes europeus, encimados pelo English Premier League (EPL)2; a aquisição implacável de clubes da EPL por bilionários estrangeiros; os danos às famílias dos fãs obcecados e endividados; e, quase inevitavelmente, as debilitantes alegações de corrupção endêmica nos níveis mais altos da FIFA.

Mas os resultados desta destruição da alma do futebol também são vistos semana após semana no campo, já que a demanda incessante de sucesso imposta pelos investidores ameaça substituir o compromisso para com o profissionalismo e o espírito esportivo: a intemperança dos jogadores para com os árbitros; "cavar faltas" e outras formas de fingimento; a alta rotatividade de jogadores, interrompendo a continuidade estilística e corroendo as lealdades locais; os calendários superlotados; as vinganças mesquinhas, não só entre os jogadores, mas também entres os gestores; as demissões peremptórias de gestores experientes ao capricho dos donos impacientes e com fome de sucesso; e os ingressos inacessíveis (e, cada vez mais, não vendidos) que na prática barram torcedores de baixa renda de assistir um jogo ao vivo da EPL (os bilhetes são muito mais baratos na Alemanha).

Aqui está uma seleção de remédios necessários para se tratar as patologias profundas do futebol: que se estabeleçam regras rígidas sobre o endividamento do clube3 (conforme solicitado pelo UEFA); que redirecionem uma proporção significativa das receitas de TV aos clubes dos níveis mais baixos; que seja feito um acordo sobre um tampão drástico sobre os salários dos jogadores (jogadores em seus vinte e poucos anos, como Wayne Rooney e Carlos Tevez provavelmente poderia arranhar 200 mil euros em um ano); apertar as restrições sobre o mercado de transferências, tanto para diminuir o ritmo de transferências como para reduzir a proporção de jogadores estrangeiros em qualquer clube; a imposição de respeito "estilo rugby" dos jogadores para com os árbitros; exigir uma reforma abrangente da FIFA, apoiada pela ameaça de retirada da próxima Copa do Mundo, ou mesmo a criação de um organismo internacional rival4 da parte de nações comprovadamente comprometidas com a integridade, a transparência e a moderação financeira.

O belo esporte é apenas isso: não é uma questão de vida ou morte. E precisa urgentemente de escapar das garras da uma religião corruptora do capitalismo financeiro global. A maioria das pessoas provavelmente não sabem que o futebol moderno surgiu pela primeira vez missão urbana da igreja no final do século XIX5. Muitos podem, no entanto, concordar que o que ele precisa agora de é uma teologia da libertação do século XXI.

Blog: danieldliver.blogspot.com
twitter: @danieldliver

texto original: http://www.theguardian.com/commentisfree/belief/2011/may/31/football-needs-theology-liberation
 

Notas:
1 http://www.sgiquarterly.org/feature2006Jly-9.html
2 http://www.theguardian.com/football/2010/feb/23/premier-league-clubs-europe-debt
3 http://edition.cnn.com/2009/SPORT/football/08/28/football.platini.uefa.debt/index.html
4 http://www.bbc.com/sport/0/football/13585987
5 http://www.glos.ac.uk/research/dse/cssr/Pages/relatedliterature.aspx