8 de novembro de 2016

Alguns pensamentos sobre a exortação cristã

A crítica e a exortação cristãs nunca devem ser feitas considerando-se apenas o conteúdo dos pensamentos que estão sendo questionados. Elas não podem ser um debate de ideias.
Arte e stencil do Movimento Mosaico.
As críticas e exortações como práticas cristãs não devem ser feitas de forma objetiva, pois elas não exprimem uma relação sujeito-objeto; mas uma relação de pelo menos duas pessoas e esta deve ser considerada. É na relação Eu-Tu, na relação real entre pessoas reais, é que nos constituímos seres humanos. Considerar o outro ser humano e todas as suas limitações, sua estrutura, seu intelecto, sua história, sua vivência e experiências não é cair no sentimentalismo, é tornar-se humano. Quando se julga o outro, mesmo que o conteúdo do julgamento em si seja correto e mesmo que as motivações para tal sejam amorosas, corre-se o risco de passar por cima ou ignorar a pessoa do interlocutor, a outra parte da relação.

Primeiramente, reconheçamos que a natureza da verdade cristã é relacional: ela não pode ser considerada objetiva ou científica do ponto de vista moderno. Nós conhecemos o Deus do teodrama da narrativa bíblica e sua revelação no Cristo dentro e a partir do nosso relacionamento com ele e com sua mensagem. Afirmar a doutrina da Encarnação é afirmar que o Kyrios-Cristo e as próprias Escrituras assumiram (respectivamente) forma e formas humanas, foram revelados através da história e de diferentes contextos culturais. São culturas que possuem origens diversas, que são repletas de ironias, paradoxos, teodicéias e mistérios. O próprio Deus entrou em nosso mundo simbólico-pístico-econômico-psicossocial, ou, simplesmente, humano, para se relacionar conosco como comunidade de pessoas, em nossos "próprios termos": usando nossas linguagens e tradições linguísticas, com todas as ambiguidades e nuanças intrínsecas a elas.* (Para discussões mais abrangentes sobre esta questão, ver o livro "O Drama da Doutrina" do Vanhoozer e o ensaio "Transposição" do C. S. Lewis.)

E, ainda, o Espírito que nos conduz à verdade, cujo aspecto fenomenológico e relacional falamos acima, é o mesmo que nos une. Nós precisamos dele para podermos exortar a um irmão ou irmã. E precisamos do Cristo crucificado como o nosso modelo de ação e de relacionamento, além de como mediador e elo na nossa relação com o outro. Se nos recordarmos de que a própria dinâmica trinitária, que os teólogos chamam de Pericorese, é como uma dança divina em que as três pessoas da Trindade se doam e se derramam constantemente umas sobre as outras, veremos claramente como deve ser a nossa vida espiritual, se desejamos nos tornar a "imitação de Deus" (Fr. Richard Rohr), aceitando a nossa vocação de Imago Dei.

O amor se alegra com a verdade (1 Coríntios 13) e a exortação cristã é um imperativo do amor. Mas o amor também tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta (idem). Para agir com relação ao próximo, corrigi-lo quando ele se encontra em erro e amá-lo de forma cristã é preciso mais do que agir a partir do nosso próprio conceito e esforços de amor. É necessário ter o amor divino como motivação, reconhecer a natureza da verdade, amando-a, e seguir o modelo Crístico de abnegação, considerando a pessoa em mais alta estima: é andar no Espírito.

É preciso reconhecer que a linguagem meramente simbólica, com todos os seus conjuntos de códigos, é limitada e não se constitui como ponte perfeita para o relacionamento humano. A comunicação pode ser muitas vezes capciosa e traiçoeira e o que você fala pode se transformar, para quem ouve, em algo que não foi exatamente o que você quis dizer. Suas boas intenções e seu cuidado não são o suficiente para transcender todas as barreiras de valor, de cultura, de criação e de personalidade entre você e o outro e a sua repreensão pode se apresentar como temerária para ele. O amor exige que se beba o cálice do outro, que se saia de si para encontrar o outro em toda a sua humanidade. É amar o próximo como a si mesmo. É preciso um movimento humanizador intencional aqui de esvaziar-se de si (Filipenses 2) entrar no mundo do outro, colocar-se no lugar dele, conhecer seus medos, sua compreensão de mundo, seus conceitos de felicidade.

Tal movimento inclui abrir-se para todo o sofrimento que tal relação tem a possibilidade de trazer. É estar disposto a comprometer-se com o outro e a se decepcionar. Não só dar a outra face, mas apanhar. É comprometer sua própria integridade em abnegação e amor autossacrificial. É levar a cruz no lugar do outro.
"Tende em vós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus, que, existindo em forma de Deus, não considerou o fato de ser igual a Deus algo a que devesse se apegar, mas, pelo contrário, esvaziou a si mesmo, assumindo a forma de servo e fazendo-se semelhante aos homens. Assim, na forma de homem, humilhou a si mesmo, sendo obediente até a morte, e morte de cruz."

(Paulo aos Filipenses, cap. 2, vs. 5-8, tradução Almeida século 21)
Porque eu creio no Espírito Santo, na Una, Santa, Católica e Apostólica Igreja, na comunhão dos santos, no perdão dos pecados, na ressurreição do Corpo e na vida eterna. Amém.

25 de outubro de 2016

O que diabos (não) é "cosmovisão cristã"

"Eu acredito no cristianismo como eu acredito no sol que está nascendo: não apenas porque o vejo, mas porque através dele eu vejo todo o resto."
(C. S. Lewis. Is theology poetry?, Oxford, 1944)
Alguns amigos têm criticado ferozmente e, na minha opinião, de forma superficial o conceito de "cosmovisão cristã" e quem o adota. Um deles o faz como se tal conceito especialmente agregasse gente raivosa, sectária e fundamentalista. Ora, esse não é um mal da "cosmovisão cristã"; todas as "ortodoxias" cristãs do nosso contexto têm essa enfermidade, incluindo o luteranismo, o calvinismo e a ortodoxia progressista evangélica (e se tem).

Na realidade, cosmovisão cristã é um conceito que surge de um tratamento cuidadoso e realista da catolicidade da fé cristã, mas tem sido muito pouco compreendido e geralmente quem o recusa ou o execra não chega realmente a lidar com ele de forma honesta. Primeiramente, lembremos que a mensagem cristã não começa em "João 3.16" e as crenças cristãs não dizem respeito apenas à salvação do crente e à sua experiência espiritual (ou subjetiva) que dá a conversão e consequente mudança de vida, esse cristianismo dualista que a igreja atual prega, o chamado Gnosticismo Evangélico.

A mensagem cristã começa em Genesis um, e não diz apenas a respeito de uma área isolada da vida em detrimento do resto. Deus criou a vida, a beleza, as propriedades do mundo físico, as leis morais que existem dentro de nós, as possibilidades das formas do mundo social. O próprio imperativo de produção e reprodução da vida humana em todas as suas complexidades estão enraizados nas crenças cristãs históricas, incluindo os ethos e conceitos dos cristãos para a justiça, trabalho, relacionamentos sexuais, relacionamentos interpessoais e nosso relacionamento com a criação. Como dizia Bonhoeffer, Cristo é o Mediador de todo e cada um dos nossos relacionamentos. E é preciso pensar quais implicações tal mediação tem em nossos diferentes relacionamentos e nas diferentes áreas de nossas vidas. E ainda, é importante lembrar que isso não é inovação e nem exclusividade de quem fala em cosmovisão cristã; isso pertence ao cristianismo histórico.

E, no entanto, a linguagem que resgata essa perspectiva traz um renovo à visão da missão da Igreja, não como o evangelismo do mero proselitismo, de salvar "almas", ou o evangelismo racionalista de aderir intelectualmente a alguns dogmas, mas de reafirmar a vida em si com todas as instituições com as quais ela foi criada, incluindo sua teleologia de adoração ao Criador. É preciso pregar o Mandato Criacional (Genesis 2), para ser possível pregar a Grande Comissão (Mateus 28). É preciso afirmar um modelo específico de vida para discipular as nações sobre como viver. O fato é que o cristianismo tem crenças razoavelmente definidas sobre o mundo e sobre a vida, chame isso de cosmovisão cristã ou não.

Weltanschuung é o termo da filosofia e da sociologia alemã para "visão de mundo", usado de formas diversas dependendo do teórico que a usa. A tradição reformada holandesa foi a primeira a usar para se referir aos movimentos písticos da cultura e, no meio deles, às crenças cristãs. Todas as culturas têm dentro de si conjuntos não necessariamente teóricos e mais ou menos definidos de conceitos de felicidade, de eudaimonia, de belo, de verdade, de moral, cosmologias, cosmogonias, heróis, soteriologias. São experiências existenciais, linguagens e conjuntos e códigos simbólicos, ideologias e teorias do conhecimento que funcionam tanto intelectual quanto afetivamente como bússola, uma língua ou um óculos, que todo mundo possui, através do qual vemos, nos guiamos e nos relacionamos com o mundo.

Essa tradição reconheceu no teodrama do cristianismo uma metanarrativa, que, como uma forma de linguagem, explica o mundo no qual somos inseridos por Cristo por meio do Espírito Santo. Fomos inseridos na vida trinitária através da teóse, mas também fomos inseridos na história do relacionamento de Deus com o ser humano e com o mundo que Ele criou, que se rebelou contra ele, e fomos inseridos na grande história da restauração de todas as coisas. A mensagem do cristianismo é a história da salvação, mas é uma história maior. Resgatando a abordagem de Irineu de Lion, esses reformados falavam de "Criação, Queda e Redenção" dos seres humanos e do cosmos. O cristianismo não é para salvar almas; ele é a inserção de toda a humanidade e de todas as realidades atuais na realidade de Deus, que é a última realidade. Em seu contexto original, "cosmovisão cristã" apenas a afirmação da doutrinas clássicas do cristianismo e a lembrança de que ele é católico, de que ele é universal, de que ele é para toda a realidade e de que o cristão tem acesso à realidade através dele.

O perigo e o erro comum de quem conhece e usa o conceito é o de pensar que em vez de um relacionamento com o Deus trino e os princípios e pathos morais e estéticos que vêm com esse relacionamento, cosmovisão cristã é uma forma definida e dogmática de se pensar sobre cada esfera específica da vida, como (e principalmente) artes, ciência, política e economia. Originalmente usado por gente da tradição reformada holandesa, incluindo os da herança do L'Abri, o conceito cosmovisão cristã tem sido usado ultimamente por gente querendo associar o cristianismo com tradições políticas e econômicas específicas. De alguns anos pra cá tenho ouvido muitas pessoas economicamente liberais ou politicamente conservadoras se referindo às suas opções ideológicas como "cosmovisão cristã", e ainda, A VISÃO cristã correta sobre economia e política.

Não. E não é que a mensagem cristã não fale de coisas como economia ou política, é que ela é maior do que essas coisas. Ela não prescreve uma forma específica de sociedade ou fala de forma direta sobre as formas de sociedade que existem. Em alguns casos, possui convergências com determinado tipo de modelo político ou econômico, noutras, com outros (e do outro lado do espectro político ou econômico). A verdade pertence a Deus, e todos os sistemas humanos terão falhas e provavelmente terão acertos (devidos à graça comum, um conceito teológico que nós gostamos de afirmar). Lembremos que Kuyper e os filósofos reformacionais da tradição reformada holandesa pregavam tanto contra o progressismo revolucionista, quanto contra o liberalismo econômico e até mesmo contra o conservadorismo.
"No fim das contas o que a Bíblia diz sobre justiça social não pode ser ligado a nenhum sistema político ou econômico. Se possível, devemos tirar a política dessa equação quando estudamos seriamente o chamado bíblico para que se faça justiça."

(Tim Keller em Justiça Generosa)
O errado é instrumentalizar a mensagem cristã para determinado fim político, seja de direita ou de esquerda. Isso é o que queremos dizer com "ideolatria". É dizer que o keynesianismo ou o liberalismo ou qualquer outro modelo econômico ou político específico é o modelo biblicamente correto. É imiscuir ideologias políticas na mensagem cristã, agregando-as como se fossem da mesma natureza. E fazem isso tanto a direita que se aproveita equivocadamente, e até de má fé, da tradição e do conceito de "cosmovisão cristã" para defender seus (neo)liberalismos e conservadorismos historicistas, quanto os evangélicos brasileiros progressistas, que reificam o Verbo ao usar da mensagem cristã para pregar suas visões e projetos políticos, sobrepondo a pregação do evangelho pelo emprego de tais soteriologias, o que é o caso de certas alas undergrounds da ABU e a gente dos diálogos novos. Estes também execram e desprezam os que não compartilham da visão deles.

Bem, meu caro amigo. Acho que o problema aqui é exatamente a falta da hospitalidade (Schaefferiana, por ironia) no lugar do sectarismo e belicosidade fundamentalista, além do problema ideológico ao qual eu me referi, que não é exclusivo de quem faz uso do conceito "cosmovisão cristã"; e não com o conceito em si. Pelo primeiro caso, eu também lamento muitíssimo porque ele sacrifica a mais preciosa dádiva e mandamento do cristão no altar da ideologia. Porém, se o seu problema for o conceito em si, eu te peço pra deixar de lado os julgamentos mais rasos e se engajar melhor com a questão.

9 de maio de 2016

Lembrando dos Horrores de Haryana

"The Haryana horrors", matéria de autoria da jornalista e escritora Rashme Sehgal, publicada pela Deccan Chronicle em 14 de outubro de 2012. Este texto vai falar de estupro.

O território de Mahabharata continua a ser território de tabus para as mulheres e terra de licenciosidade para os homens fazerem as piores coisas. Patriarcado, misoginia e Khap Panchayats são todos responsáveis pelas atitudes que fizeram de Haryana a "capital indiana do estupro". O que mais explica o fato de que os perpetradores de 19 estupros no último mês (com vítimas que variam desde uma menina de 6 anos de idade até uma viúva idosa), todos audaciosamente fizeram vídeos de seus próprios crimes e ameaçaram torna-los públicos se suas vítimas reclamassem?

Ao menos aqui, as estatísticas não mentem. O pequeno estado de Haryana tem a distinção evidente de ser a "capital indiana do estupro". Dezenove mulheres estupradas no último mês, muitas delas por estupros coletivos. Foi relatado o envolvimento de quarenta e nove homens na perpetração dessas atrocidades.

Os horrores estão nos encarando diretamente. Uma menina dalit (da casta dos "intocáveis" da Índia) de 16 anos ateou fogo em si mesma e morreu na cidade de Jind no último sábado após ser vítima de um estupro coletivo. Uma menina de 13 anos foi estuprada na última segunda-feira em Rohtak, a cidade natal do ministro chefe Bhupinder Singh Hooda.

Entretanto, esses incidentes, e muitos antes deles, não fizeram a maquinaria oficial entrar em ação, pois dois dias depois, uma menina dalit deficiente mental de 15 anos foi estuprada na mesma cidade.

Cada incidente desses parece mais sórdido que outro. Uma mulher de 30 anos, casada, foi estuprada à mão armada por três homens do lado de fora de sua casa na cidade de Pillukhera, distrito de Jind. Uma menina de 16 anos foi estuprada por quatro homens na cidade de Gohana na última sexta. Ela tinha ido comprar mantimentos e o dono da loja a mandou buscar parte deles num armazém próximo, onde ele e outros três garotos a estupraram. Uma garota recém-casada de 19 anos foi raptada e estuprada repetidamente durante quatro dias consecutivos perto da cidade de Sonepat.

Rohtak, Hissar, Jind, Bhiwani, Yamunanagar, Panipat, Sonepat, Ambala, Karnal, Faridabad, Kaithal. Meninas novas e mulheres foram submetidas ao horror em praticamente todos os distritos de Haryana no último mês.

E pior, as meninas não são apenas estupradas. Os estupradores não tem nenhum pudor em gravar vídeos de si mesmos praticando o ato, e em ameaçar circular os vídeos para toda a população das aldeias se elas reclamarem, seguros na crença de que a humilhação será apenas das vítimas, e de que ninguém, nem os moradores, nem a polícia vai levantar um dedo contra os agressores.

Uma ameaça assim foi feita a uma estudante dalit de 16 anos na cidade de Dabra. E embora ela tenha se sujeitado a não relatar como ela foi sequestrada, vendada, amordaçada e estuprada no dia 9 de setembro, quando ia para a casa de sua avó, os estupradores usaram celulares para tirar fotos da menina sendo submetida às suas depravações e as mandaram para o pai dela.

O pai, perturbado, cometeu suicídio. Grupos de dalits furiosos fizeram acampamento na frente da casa dele e juraram que não deixariam que o homem fosse cremado até que alguma medida fosse tomada contra os estupradores.

Mas qual foi a resposta da polícia e dos administradores a esses crimes? O principal chefe de polícia do estado, o diretor geral de polícia Ranjiv Singh Dalal disse que os casos de estupro não estão aumentando, mas que, na verdade, tiveram uma queda com relação ao ano passado. "Há 80 casos a menos neste ano do que em 2012", disse Dalal aos repórteres.

E o ministro chefe do estado Bhupinder Singh Hooda disse o seguinte, depois de alegar que os relatos de estupro eram uma conspiração política para desestabilizar o governo: "Somente o pronto registro de queixas de informações primárias (FIRs) pela polícia do estado é que tem causado uma imagem ruim do estado".

"Nossa polícia foi ordenada a registrar todas as queixas. Isso não acontece em outros estados." As estatísticas da diretoria geral da polícia vão gerar algum conforto para as vítimas de estupro? Ou será que elas deveriam se consolar com a declaração do ministro chefe de que elas não são as únicas vítimas desse crime horrendo, já que outras mulheres em outros estados também foram estupradas? E ainda, será que é mesmo verdade que a polícia de Haryana registra prontamente as queixas de informações primárias em casos de estupro?

Há alegações de que a maior parte dos estupros são atos de vingança de casta contra mulheres dalits. "Os dalits estão se tornando mais veementes na articulação de seus direitos. Isso resultou em uma consolidação entre os Panchayats", disse o Dr. Prasad Srivella do Movimento Nacional Dalit Pela Justiça, que tem monitorado a violência contra mulheres dalits nos últimos dois anos.

Casta, além da questão de gênero, é talvez também o motivo de queixas não serem registradas contra agressores quando não há a pressão de grupos da sociedade civil. Srivella diz que ainda deve levar um tempo para que a polícia e oficiais do governo sejam repreendidos por seus atos de omissão e ordens de obstrução de justiça para as vítimas de estupro.

"Nem uma única queixa foi registrada contra a força policial por sua falha em proteger as mulheres. Ao avaliarmos uma série de atos informativos (RTIs) feitos no país inteiro, nós chegamos à conclusão de que nem uma única queixa foi registrada contra qualquer oficial do governo sob a Seção 4 do Ato de Prevenção de Atrocidades das Castas e Tribos Registradas.

Porém o superintendente de polícia de Hisar, B. Satheesh Balan, diz que não são apenas mulheres dalit que são alvos. "Das 38 queixas registradas em Hisar, seis eram casos falsos, enquanto nos outros 26, o acusado e a vítima eram da mesma casta. Somente em três casos o acusado era de uma casta superior."

Ranjana Kumaro, diretora do Centro de Pesquisa Social, cita o testemunho de um réu por estupro para defender a tese de que nem todos os casos de estupro são anti-dalit. "Não sabíamos de qual casta ela era. Se soubéssemos que ela era uma dalit, não teríamos encostado nela", disse o réu.

Se casta é um fator ou não, gênero certamente é. E a discriminação é profunda e está em toda a sociedade. Jagmati Sangwan, presidente das Associações Democráticas das Mulheres Unidas (AIDWA), diz que toda a máquina do estado é contra as mulheres

A situação é agravada pela situação demográfica extremamente deformada em Haryana, de 83 mulheres para cada 100 homens de acordo com o senso de 2011. Um agricultor no distrito de Rohtak me disse: "As mulheres aqui se tornaram tão raras quanto cereais num período de fome. Homens com idade de casamento não têm empregos e, portanto, não acham esposas".

Khap Panchayats, os tribunais tradicionais dos anciãos das aldeias, são uma relíquia dos tempos sombrios. Eles só têm servido para deixar as águas ainda mais turvas. Essas corporações de dominação masculina acreditam que a solução para o estupro é diminuir a idade de casamento para as mulheres de 18 para 16, um ponto de vista apoiado pelo ministro chefe Om Prakash Chautala, dentre outros políticos, embora não exista qualquer evidência da eficácia de tal medida.

E na verdade, mulheres casadas também foram vítimas de estupro neste mês.

A ativista Sujata Madhok acredita que não foi apenas a natureza patriarcal da sociedade de Haryana que contribuiu para o aumento dos conflitos sociais. Há também muito dinheiro e um novo materialismo que uma sociedade agrária tradicional ainda não foi capaz de reconciliar.

"Tem havido uma afluência maciça de fundos para as mãos de alguns camponeses que se tornaram agentes imobiliários. O resultado é um estilo de vida perdulário e ambicioso, agravado pela exposição à televisão e filmes. O fato é que eles não têm os recursos sociais para se ajustar à sociedade em mudança, ainda que as mulheres estejam sendo expostas à educação."

Em qualquer outro país do mundo, os políticos estariam lutando para pôr fim ao horror de estupros que parecem tomar uma cidade após a outra na Índia (pense em Delhi e Calcutá), mas aqui o estupro rapidamente se tornou uma questão política.

Quando a presidente do congresso, Sonia Gandhi, visitou Haryana no início dos crimes deste mês, a liderança do partido parecia mais interessada em conduzi-la para longe de qualquer crítica pública feita ao ministro chefe do partido e em usar a visita para marcar pontos políticos. Eles a levaram para a área Narwana do distrito de Jind. Claro, uma menor dalit havia cometido suicídio ali depois de ser vítima de um estupro coletivo, mas suspeita-se que, na verdade, ela foi levada para lá para se encontrar com um deputado do partido Bharatiya Janata.


E enquanto essa matéria estava sendo escrita,

Fatehbad:

Uma menina de 13 foi estuprada em Panipat por um vendedor de frutas de 60 anos. Uma viúva foi estuprada em Ambala.

19 estupros em um mês

Estupro em Gurgaon:

Uma menina de seis anos, atraída com chocolate, foi estuprada por três homens em Gurgaon em 12 de outubro.

Estupro coletivo em Jind:

Uma menina adolescente em Jind morreu ao atear fogo em si mesma na noite de 7 de outubro, depois de alegadamente ter sido vítima de um estupro coletivo.

Estupro em Bhiwani:

Uma menor foi estuprada em Bhiwani em primeiro de outubro.

Estupro coletivo em Sonepat:

Uma estudante de 16 anos foi vítima de estupro coletivo em Gohana, próximo a Sonepat, por quatro homens no dia 27 de setembro numa área comercial movimentada.

Estupro coletivo em Jind:

Na mesma semana, três homens invadiram a casa de uma mulher casada e a estupraram, enquanto sua filha gritava em terror do lado de fora da casa. Os homens fizeram vídeos do crime e ameaçaram torná-lo publico.

Estupro coletivo em Hisar:

Uma menina dalit de 16 foi vítima de estupro coletivo por oito homens de casta superior em 9 de setembro em Dabra, Hisar. Quando a polícia se recusou a registrar queixa, o pai da menina cometeu suicídio.


Mulheres, vocês não devem:

  • Entrar em pubs:

Em 2009, em Mangalore, capangas do grupo Sri Ram Sena espancaram um grupo de moças e rapazes porque o chefe Sena, Pramod Mutalik disse que "mulheres irem à pubs é inaceitável. Elas violam os valores tradicionais indianos". Em julho de 2012 grupo Hindu Jagarana Vedike atacou uma festa de aniversário em uma casa de família em Mangalore e espancaram, despiram e molestaram cinco meninas. Eles estavam salvando a cultura indiana, é claro.

  • Usar telefones celulares

Em julho de 2012, o Panchayat da aldeia Asara no distrito de Baghpat em Uttar Pradesh baniu casamentos não arranjados, proibiu garotas de usarem telefones celulares e até proibiu mulheres de menos de 40 anos de fazerem compras. "Casamentos não arranjados são uma vergonha para a sociedade, especialmente para os pais da noiva, porque atentam contra sua respeitabilidade", explicou o membro do Panchayat Sattar Ahmed.

  • Usar calça jeans

O que há em comum entre o Departamento de Mulheres e Crianças de Haryana, as principais faculdades em Kanpur, a Faculdade Pública de Bhopal, a Faculdade Krishna Menon em Mumbai, a Universidade Anna em Chennai e a aldeia Shoram em Uttar Pradesh?

Esses, dentre outros, todos baniram o uso de jeans por mulheres/garotas e todo tipo de roupas apertadas e sem mangas, porque são "obscenos", "provocadores de abuso sexual", "violadores da cultura indiana", etc. Neste ano em Jarkhand, o partido rebelde Jharkhand Mukti Sangh emitiu uma proibição de calças jeans e ameaçou ataques com ácido contra garotas que forem encontradas usando-as.

1 de janeiro de 2016

Meu top 5 2015

Este ano foi um ano intenso, cheio de bagagem emocional e assassinatos em massa, distúrbios políticos, intrigas, desastres ambientais, guerras, violência, radicalismo religioso, xenofobia, racismo e outras feridas. As coisas não mudaram tanto assim. Parece que o projeto civilizatório do humanismo secular não levou o mundo para o progresso e não curou suas chagas. O próprio progresso é uma crença religiosa mal explicada e concebida, alheia à realidade humana. É preciso de uma solução mais estético-relacional, mais coletiva (não coletivista). A alteridade, a arte, o encontro com o outro e com o mundo têm que voltar a estar no centro de um projeto de vida que seja sustentável e digno. Como diz o velho Dosta, "a beleza salvará o mundo".

Mudando de assunto, quero revisitar algo da arte deste ano. Quero mostrar formas positivas que o ano de 2015 tomou. Pra isso fiz três listas, em cada uma destaquei 5 realizações, que ficam aqui como retrospectiva e sugestões. Especificamente 5 filmes, 5 discos e 5 livros que eu vi, ouvi e li em 2015. Procurei selecionar apenas filmes e discos lançados neste ano. Já os livros são todos antigos, porque diferente do cinema e da música, o peso da novidade não é tão grande. Ainda assim, são leituras relevantes e as recomendo.

Enjoy.

Cinema


Mad Max: Estrada da Fúria é uma alegoria pós-apocalíptica sobre o deserto da condição humana e sobre como nós somos devastados pelos nossos desejos. Nesse mundo pós-apocalíptico australiano não há disfarce para a representação das lutas que acontecem dentro de nós e dos conflitos do poder e da vontade humana. Intenso sequências de ação, na narrativa e nas cores. É daqueles filmes em que a narrativa não precisa ser complexa, mas por ser afetiva e esteticamente envolventes alcançam uma profundidade satisfatória e até maior que de filmes com narrativas convencionais. Os personagens são maduros e sempre fogem dos lugares comuns.
Em Ex Machina de Alex Garland, o CEO de uma grande companhia de informações (como a Google) desenvolve um misterioso projeto de inteligência artificial em sua fortaleza na floresta e convida um jovem programador para ser o elemento humano num teste de turing (que testa se uma máquina consegue 'pensar' em termos humanos, de ter consciência). Começa usando discussões das capacidades e limites da inteligência artificial e então, seguindo os passos de "Her" e brevemente introduz o tema da sexualidade na inteligência artificial, de uma forma que resgata as reflexões mais profundas do estruturalismo francês sobre sexo e sociedade. Melhor ficção científica do ano.
Whiplash de Damien Chazelle tem atuações sensacionais dos seus atores principais: Milles Teller faz o jovem aspirante e músico de jazz, Andrew, que conseguiu entrar no mais importante conservatório do país e, posteriormente, na banda de Fletcher (J.K. Simmons), o maestro mais valorizado do lugar. A sofisticação e perfeição técnica de Fletcher só não é maior que os seus métodos cruéis e seus excessos ao lidar com seus alunos, o que chega a afetar emocionalmente Andrew. Whiplash é um drama moderno, quase um suspense, sobre o ego humano em desespero que se lança ao mundo de forma introvertida em uma busca frenética por reconhecimento, identidade e sentido, até mesmo, usando uma experiência de transcendência, que é a música. Paradoxal, não?
Adeus à Linguagem é um filme experimental que o diretor da nouvelle vague, Jean-Luc Godard fez em 3D. O filme faz você transitar em mundos diferentes de linguagens enquanto mostra o cachorro do Godard em várias tomadas de auto-descorberta, dentre outras histórias paralelas. Seu adeus às formas de linguagem cinematográficas, linguagens amorosas, linguagens textuais, usa todas essas linguagens pra deixar aquela impressão típica do Godard de que a linguagem e comunicação nunca foram mais que uma ilusão. E isso tudo usando pessoas e ideias importantes do pensamento social e filosófico.
Birdman, ou A Inesperada Virtude da Ignorância, é uma homenagem ao mundo das artes da interpretação. Ganhador de vários Oscars, incluindo de melhor filme, Birdman critica de forma ácida e genial o cinema mainstream, principalmente blockbusters à la Michael Bay. Com atuações muito fortes, ele convence completamente. Mas o principal aqui é a direção de fotografia do Emmanuel Lubezki, que também ganhou o Oscar aqui e pelo segundo ano seguido (!), que parece ser coisa de outro mundo, uma vez que o filme parece ser todo feito de uma ou duas tomadas, mesmo com uma dúzia de cenários diferentes.




Música


The Book of Souls da banda britânica de heavy metal Iron Maiden é o trunfo do heavy metal neste ano. Composto primeiramente, na maior parte, como trabalho solo do Bruce Dickinson, o disco é um dos mais musicalmente sofisticados do NWOBHM. Tem vocais melódicos, riffs selvagens, calvalgadas que lembram os anos 1980 e uma temática meio asteca. O mais impressionante é que o Bruce gravou o vocal ao lutar contra um cancer de garganta! Ouça esse disco.
In Colour do Jamie xx. Eu comecei a ouvir música eletrônica com o Random Access Memories do Daft Punk de 2013. Não entendo muita coisa do(s) gênero(s) ainda, então não sei muito o que dizer dele. Música eletrônica tem muita coisa ruim e comercial e In Colour não decepciona. Tem profundidade musical e emocional e levou 6 anos pra ser feito. É dançante. Sei lá. Você tem que ouvir pra entender o que é. É bom.
Akeda do Matisyahu, que acompanho desde 2006. Esse judeu tem um talento natural pra reggae, dub, hip hop e rock! E seus discos são artefatos onde ele derrama de sua vida e de suas experiências. Akeda é verdadeiro e esperançoso, apesar de toda a dor que o afeta e todas as crises e motivos para desespero. Positive vibes, só que da vida real. É pura coragem existencial.
A Menina Ainda Dança (Baby Sucessos) da Baby do Brasil é alegria. Pura alegria é o que fez a Baby voltar para os palcos. Pura alegria é o que a fez retomar o antigo repertório e tocar com seu filho o instrumentista Pedro Baby, que produziu a gravação ao vivo do cd e dvd. Com a participação de Caetano Veloso, ela traz também algumas músicas dos tempos de Novos Baianos.
Carrie & Lowell do Sufjan Stevens é tristeza. E luto e lamento. Às vezes sóbrio, às vezes não. Mas sua musicalidade é sempre sóbria. A arte de Sufjan Stevens sempre é influenciada por suas experiências de vida e por sua religiosidade. O Carrie & Lowell especificamente nasceu da experiência que ele teve com a morte de sua mãe. Sem muitos ornatos, com gravações consistentes e downbeat, esse disco folk é uma experiência de melancolia.





Leituras


Em História Sem Fim, Bastian é um garoto gordinho e inseguro que pega para ler um livro sobre um mundo chamado Fantasia. Nele, a Imperatriz Criança, que sustenta esse mundo, fica mortalmente doente enquanto o Nada começa a engolir tudo. A história deu origem a um blockbuster horrível em 1984, mas não atente muito para ele. História Sem Fim é um formidável manual de existencialismo em forma de romance infanto-juvenil. Assim como Nárnia, é uma história saturada de significado e lições para a vida e reflexões sobre coragem e bondade.
A Vida Como Ela É... é uma coletânea de crônicas de uma coluna homônima do "carioca" Nelson Rodrigues, um dos maiores dramaturgos do Brasil, durante os anos 1950. São histórias de humor, tragédia e sexualidade que por sua representação de adultério, do desejo sexual e de questões relacionadas à moralidade familiar e sexual, causou escândalo para a sociedade da época. Sua importância é hoje eminente por ser, apesar dos exageros, um bom contraponto o recente cisma entre corpo e pessoa, bem como entre moralidade e sexualidade no espírito de época atual.
Isto não é o Red Light District na Holanda. Sobe e Desce na Guaicurus: Pelas Portas de uma Zona de Prostituição de Tarcísío Badaró é um livro jornalístico com uma pitada de romance sobre a zona de baixo meretrício do centro da capital mineira, um dos principais complexos de prostituição do país, onde milhares de homens passam todos os dias e cerca de mil mulheres cobram de 10 a 30 reais por 15 minutos de prazer. Com escrita fluida e pedagógica, o livro é uma apresentação das várias realidades, contextos e vivências que existem em torno da prostituição e da região da rua Guaicurus.
A Metamorfose é o principal trabalho de Franz Kafka, escritor tcheco formidável. Na história, Gregor Samsa, um caixeiro-viajante, numa manhã simplesmente acorda transformado num inseto (não é uma barata!). Enquanto ele tenta se adaptar a sua nova condição e tenta viver na mesma casa de sua família, que era sustentada por ele, o leitor é jogado em várias reflexões sobre a condição humana em meio ao trágico e ao absurdo da vida. O romance completa 100 anos nos próximos meses.
Cartas a um Jovem Calvinista, do filósofo canadense James K. A. Smith, é uma série de cartas pastorais a um jovem ficcional, inspiradas nas "Cartas Sobre a Educação Estética do Homem" de Friedrich Schiller e no "Cartas a um Jovem Católico" de George Weigel. O conteúdo das cartas é de educação intelectual, estética e espiritual à tradição cristã reformada, incluindo a tradição reformada holandesa. O livro é muitíssimo rico em conteúdo intelectual, mas mais ainda em seu teor pastoral, cuja necessidade é de maior importância hoje. Ele não desfaz de outras tradições do cristianismo, mas as dignifica também. Se você é um cristão reformado, leia. Se não é, também leia.