1 de janeiro de 2016

Meu top 5 2015

Este ano foi um ano intenso, cheio de bagagem emocional e assassinatos em massa, distúrbios políticos, intrigas, desastres ambientais, guerras, violência, radicalismo religioso, xenofobia, racismo e outras feridas. As coisas não mudaram tanto assim. Parece que o projeto civilizatório do humanismo secular não levou o mundo para o progresso e não curou suas chagas. O próprio progresso é uma crença religiosa mal explicada e concebida, alheia à realidade humana. É preciso de uma solução mais estético-relacional, mais coletiva (não coletivista). A alteridade, a arte, o encontro com o outro e com o mundo têm que voltar a estar no centro de um projeto de vida que seja sustentável e digno. Como diz o velho Dosta, "a beleza salvará o mundo".

Mudando de assunto, quero revisitar algo da arte deste ano. Quero mostrar formas positivas que o ano de 2015 tomou. Pra isso fiz três listas, em cada uma destaquei 5 realizações, que ficam aqui como retrospectiva e sugestões. Especificamente 5 filmes, 5 discos e 5 livros que eu vi, ouvi e li em 2015. Procurei selecionar apenas filmes e discos lançados neste ano. Já os livros são todos antigos, porque diferente do cinema e da música, o peso da novidade não é tão grande. Ainda assim, são leituras relevantes e as recomendo.

Enjoy.

Cinema


Mad Max: Estrada da Fúria é uma alegoria pós-apocalíptica sobre o deserto da condição humana e sobre como nós somos devastados pelos nossos desejos. Nesse mundo pós-apocalíptico australiano não há disfarce para a representação das lutas que acontecem dentro de nós e dos conflitos do poder e da vontade humana. Intenso sequências de ação, na narrativa e nas cores. É daqueles filmes em que a narrativa não precisa ser complexa, mas por ser afetiva e esteticamente envolventes alcançam uma profundidade satisfatória e até maior que de filmes com narrativas convencionais. Os personagens são maduros e sempre fogem dos lugares comuns.
Em Ex Machina de Alex Garland, o CEO de uma grande companhia de informações (como a Google) desenvolve um misterioso projeto de inteligência artificial em sua fortaleza na floresta e convida um jovem programador para ser o elemento humano num teste de turing (que testa se uma máquina consegue 'pensar' em termos humanos, de ter consciência). Começa usando discussões das capacidades e limites da inteligência artificial e então, seguindo os passos de "Her" e brevemente introduz o tema da sexualidade na inteligência artificial, de uma forma que resgata as reflexões mais profundas do estruturalismo francês sobre sexo e sociedade. Melhor ficção científica do ano.
Whiplash de Damien Chazelle tem atuações sensacionais dos seus atores principais: Milles Teller faz o jovem aspirante e músico de jazz, Andrew, que conseguiu entrar no mais importante conservatório do país e, posteriormente, na banda de Fletcher (J.K. Simmons), o maestro mais valorizado do lugar. A sofisticação e perfeição técnica de Fletcher só não é maior que os seus métodos cruéis e seus excessos ao lidar com seus alunos, o que chega a afetar emocionalmente Andrew. Whiplash é um drama moderno, quase um suspense, sobre o ego humano em desespero que se lança ao mundo de forma introvertida em uma busca frenética por reconhecimento, identidade e sentido, até mesmo, usando uma experiência de transcendência, que é a música. Paradoxal, não?
Adeus à Linguagem é um filme experimental que o diretor da nouvelle vague, Jean-Luc Godard fez em 3D. O filme faz você transitar em mundos diferentes de linguagens enquanto mostra o cachorro do Godard em várias tomadas de auto-descorberta, dentre outras histórias paralelas. Seu adeus às formas de linguagem cinematográficas, linguagens amorosas, linguagens textuais, usa todas essas linguagens pra deixar aquela impressão típica do Godard de que a linguagem e comunicação nunca foram mais que uma ilusão. E isso tudo usando pessoas e ideias importantes do pensamento social e filosófico.
Birdman, ou A Inesperada Virtude da Ignorância, é uma homenagem ao mundo das artes da interpretação. Ganhador de vários Oscars, incluindo de melhor filme, Birdman critica de forma ácida e genial o cinema mainstream, principalmente blockbusters à la Michael Bay. Com atuações muito fortes, ele convence completamente. Mas o principal aqui é a direção de fotografia do Emmanuel Lubezki, que também ganhou o Oscar aqui e pelo segundo ano seguido (!), que parece ser coisa de outro mundo, uma vez que o filme parece ser todo feito de uma ou duas tomadas, mesmo com uma dúzia de cenários diferentes.




Música


The Book of Souls da banda britânica de heavy metal Iron Maiden é o trunfo do heavy metal neste ano. Composto primeiramente, na maior parte, como trabalho solo do Bruce Dickinson, o disco é um dos mais musicalmente sofisticados do NWOBHM. Tem vocais melódicos, riffs selvagens, calvalgadas que lembram os anos 1980 e uma temática meio asteca. O mais impressionante é que o Bruce gravou o vocal ao lutar contra um cancer de garganta! Ouça esse disco.
In Colour do Jamie xx. Eu comecei a ouvir música eletrônica com o Random Access Memories do Daft Punk de 2013. Não entendo muita coisa do(s) gênero(s) ainda, então não sei muito o que dizer dele. Música eletrônica tem muita coisa ruim e comercial e In Colour não decepciona. Tem profundidade musical e emocional e levou 6 anos pra ser feito. É dançante. Sei lá. Você tem que ouvir pra entender o que é. É bom.
Akeda do Matisyahu, que acompanho desde 2006. Esse judeu tem um talento natural pra reggae, dub, hip hop e rock! E seus discos são artefatos onde ele derrama de sua vida e de suas experiências. Akeda é verdadeiro e esperançoso, apesar de toda a dor que o afeta e todas as crises e motivos para desespero. Positive vibes, só que da vida real. É pura coragem existencial.
A Menina Ainda Dança (Baby Sucessos) da Baby do Brasil é alegria. Pura alegria é o que fez a Baby voltar para os palcos. Pura alegria é o que a fez retomar o antigo repertório e tocar com seu filho o instrumentista Pedro Baby, que produziu a gravação ao vivo do cd e dvd. Com a participação de Caetano Veloso, ela traz também algumas músicas dos tempos de Novos Baianos.
Carrie & Lowell do Sufjan Stevens é tristeza. E luto e lamento. Às vezes sóbrio, às vezes não. Mas sua musicalidade é sempre sóbria. A arte de Sufjan Stevens sempre é influenciada por suas experiências de vida e por sua religiosidade. O Carrie & Lowell especificamente nasceu da experiência que ele teve com a morte de sua mãe. Sem muitos ornatos, com gravações consistentes e downbeat, esse disco folk é uma experiência de melancolia.





Leituras


Em História Sem Fim, Bastian é um garoto gordinho e inseguro que pega para ler um livro sobre um mundo chamado Fantasia. Nele, a Imperatriz Criança, que sustenta esse mundo, fica mortalmente doente enquanto o Nada começa a engolir tudo. A história deu origem a um blockbuster horrível em 1984, mas não atente muito para ele. História Sem Fim é um formidável manual de existencialismo em forma de romance infanto-juvenil. Assim como Nárnia, é uma história saturada de significado e lições para a vida e reflexões sobre coragem e bondade.
A Vida Como Ela É... é uma coletânea de crônicas de uma coluna homônima do "carioca" Nelson Rodrigues, um dos maiores dramaturgos do Brasil, durante os anos 1950. São histórias de humor, tragédia e sexualidade que por sua representação de adultério, do desejo sexual e de questões relacionadas à moralidade familiar e sexual, causou escândalo para a sociedade da época. Sua importância é hoje eminente por ser, apesar dos exageros, um bom contraponto o recente cisma entre corpo e pessoa, bem como entre moralidade e sexualidade no espírito de época atual.
Isto não é o Red Light District na Holanda. Sobe e Desce na Guaicurus: Pelas Portas de uma Zona de Prostituição de Tarcísío Badaró é um livro jornalístico com uma pitada de romance sobre a zona de baixo meretrício do centro da capital mineira, um dos principais complexos de prostituição do país, onde milhares de homens passam todos os dias e cerca de mil mulheres cobram de 10 a 30 reais por 15 minutos de prazer. Com escrita fluida e pedagógica, o livro é uma apresentação das várias realidades, contextos e vivências que existem em torno da prostituição e da região da rua Guaicurus.
A Metamorfose é o principal trabalho de Franz Kafka, escritor tcheco formidável. Na história, Gregor Samsa, um caixeiro-viajante, numa manhã simplesmente acorda transformado num inseto (não é uma barata!). Enquanto ele tenta se adaptar a sua nova condição e tenta viver na mesma casa de sua família, que era sustentada por ele, o leitor é jogado em várias reflexões sobre a condição humana em meio ao trágico e ao absurdo da vida. O romance completa 100 anos nos próximos meses.
Cartas a um Jovem Calvinista, do filósofo canadense James K. A. Smith, é uma série de cartas pastorais a um jovem ficcional, inspiradas nas "Cartas Sobre a Educação Estética do Homem" de Friedrich Schiller e no "Cartas a um Jovem Católico" de George Weigel. O conteúdo das cartas é de educação intelectual, estética e espiritual à tradição cristã reformada, incluindo a tradição reformada holandesa. O livro é muitíssimo rico em conteúdo intelectual, mas mais ainda em seu teor pastoral, cuja necessidade é de maior importância hoje. Ele não desfaz de outras tradições do cristianismo, mas as dignifica também. Se você é um cristão reformado, leia. Se não é, também leia.