25 de outubro de 2016

O que diabos (não) é "cosmovisão cristã"

"Eu acredito no cristianismo como eu acredito no sol que está nascendo: não apenas porque o vejo, mas porque através dele eu vejo todo o resto."
(C. S. Lewis. Is theology poetry?, Oxford, 1944)
Alguns amigos têm criticado ferozmente e, na minha opinião, de forma superficial o conceito de "cosmovisão cristã" e quem o adota. Um deles o faz como se tal conceito especialmente agregasse gente raivosa, sectária e fundamentalista. Ora, esse não é um mal da "cosmovisão cristã"; todas as "ortodoxias" cristãs do nosso contexto têm essa enfermidade, incluindo o luteranismo, o calvinismo e a ortodoxia progressista evangélica (e se tem).

Na realidade, cosmovisão cristã é um conceito que surge de um tratamento cuidadoso e realista da catolicidade da fé cristã, mas tem sido muito pouco compreendido e geralmente quem o recusa ou o execra não chega realmente a lidar com ele de forma honesta. Primeiramente, lembremos que a mensagem cristã não começa em "João 3.16" e as crenças cristãs não dizem respeito apenas à salvação do crente e à sua experiência espiritual (ou subjetiva) que dá a conversão e consequente mudança de vida, esse cristianismo dualista que a igreja atual prega, o chamado Gnosticismo Evangélico.

A mensagem cristã começa em Genesis um, e não diz apenas a respeito de uma área isolada da vida em detrimento do resto. Deus criou a vida, a beleza, as propriedades do mundo físico, as leis morais que existem dentro de nós, as possibilidades das formas do mundo social. O próprio imperativo de produção e reprodução da vida humana em todas as suas complexidades estão enraizados nas crenças cristãs históricas, incluindo os ethos e conceitos dos cristãos para a justiça, trabalho, relacionamentos sexuais, relacionamentos interpessoais e nosso relacionamento com a criação. Como dizia Bonhoeffer, Cristo é o Mediador de todo e cada um dos nossos relacionamentos. E é preciso pensar quais implicações tal mediação tem em nossos diferentes relacionamentos e nas diferentes áreas de nossas vidas. E ainda, é importante lembrar que isso não é inovação e nem exclusividade de quem fala em cosmovisão cristã; isso pertence ao cristianismo histórico.

E, no entanto, a linguagem que resgata essa perspectiva traz um renovo à visão da missão da Igreja, não como o evangelismo do mero proselitismo, de salvar "almas", ou o evangelismo racionalista de aderir intelectualmente a alguns dogmas, mas de reafirmar a vida em si com todas as instituições com as quais ela foi criada, incluindo sua teleologia de adoração ao Criador. É preciso pregar o Mandato Criacional (Genesis 2), para ser possível pregar a Grande Comissão (Mateus 28). É preciso afirmar um modelo específico de vida para discipular as nações sobre como viver. O fato é que o cristianismo tem crenças razoavelmente definidas sobre o mundo e sobre a vida, chame isso de cosmovisão cristã ou não.

Weltanschuung é o termo da filosofia e da sociologia alemã para "visão de mundo", usado de formas diversas dependendo do teórico que a usa. A tradição reformada holandesa foi a primeira a usar para se referir aos movimentos písticos da cultura e, no meio deles, às crenças cristãs. Todas as culturas têm dentro de si conjuntos não necessariamente teóricos e mais ou menos definidos de conceitos de felicidade, de eudaimonia, de belo, de verdade, de moral, cosmologias, cosmogonias, heróis, soteriologias. São experiências existenciais, linguagens e conjuntos e códigos simbólicos, ideologias e teorias do conhecimento que funcionam tanto intelectual quanto afetivamente como bússola, uma língua ou um óculos, que todo mundo possui, através do qual vemos, nos guiamos e nos relacionamos com o mundo.

Essa tradição reconheceu no teodrama do cristianismo uma metanarrativa, que, como uma forma de linguagem, explica o mundo no qual somos inseridos por Cristo por meio do Espírito Santo. Fomos inseridos na vida trinitária através da teóse, mas também fomos inseridos na história do relacionamento de Deus com o ser humano e com o mundo que Ele criou, que se rebelou contra ele, e fomos inseridos na grande história da restauração de todas as coisas. A mensagem do cristianismo é a história da salvação, mas é uma história maior. Resgatando a abordagem de Irineu de Lion, esses reformados falavam de "Criação, Queda e Redenção" dos seres humanos e do cosmos. O cristianismo não é para salvar almas; ele é a inserção de toda a humanidade e de todas as realidades atuais na realidade de Deus, que é a última realidade. Em seu contexto original, "cosmovisão cristã" apenas a afirmação da doutrinas clássicas do cristianismo e a lembrança de que ele é católico, de que ele é universal, de que ele é para toda a realidade e de que o cristão tem acesso à realidade através dele.

O perigo e o erro comum de quem conhece e usa o conceito é o de pensar que em vez de um relacionamento com o Deus trino e os princípios e pathos morais e estéticos que vêm com esse relacionamento, cosmovisão cristã é uma forma definida e dogmática de se pensar sobre cada esfera específica da vida, como (e principalmente) artes, ciência, política e economia. Originalmente usado por gente da tradição reformada holandesa, incluindo os da herança do L'Abri, o conceito cosmovisão cristã tem sido usado ultimamente por gente querendo associar o cristianismo com tradições políticas e econômicas específicas. De alguns anos pra cá tenho ouvido muitas pessoas economicamente liberais ou politicamente conservadoras se referindo às suas opções ideológicas como "cosmovisão cristã", e ainda, A VISÃO cristã correta sobre economia e política.

Não. E não é que a mensagem cristã não fale de coisas como economia ou política, é que ela é maior do que essas coisas. Ela não prescreve uma forma específica de sociedade ou fala de forma direta sobre as formas de sociedade que existem. Em alguns casos, possui convergências com determinado tipo de modelo político ou econômico, noutras, com outros (e do outro lado do espectro político ou econômico). A verdade pertence a Deus, e todos os sistemas humanos terão falhas e provavelmente terão acertos (devidos à graça comum, um conceito teológico que nós gostamos de afirmar). Lembremos que Kuyper e os filósofos reformacionais da tradição reformada holandesa pregavam tanto contra o progressismo revolucionista, quanto contra o liberalismo econômico e até mesmo contra o conservadorismo.
"No fim das contas o que a Bíblia diz sobre justiça social não pode ser ligado a nenhum sistema político ou econômico. Se possível, devemos tirar a política dessa equação quando estudamos seriamente o chamado bíblico para que se faça justiça."

(Tim Keller em Justiça Generosa)
O errado é instrumentalizar a mensagem cristã para determinado fim político, seja de direita ou de esquerda. Isso é o que queremos dizer com "ideolatria". É dizer que o keynesianismo ou o liberalismo ou qualquer outro modelo econômico ou político específico é o modelo biblicamente correto. É imiscuir ideologias políticas na mensagem cristã, agregando-as como se fossem da mesma natureza. E fazem isso tanto a direita que se aproveita equivocadamente, e até de má fé, da tradição e do conceito de "cosmovisão cristã" para defender seus (neo)liberalismos e conservadorismos historicistas, quanto os evangélicos brasileiros progressistas, que reificam o Verbo ao usar da mensagem cristã para pregar suas visões e projetos políticos, sobrepondo a pregação do evangelho pelo emprego de tais soteriologias, o que é o caso de certas alas undergrounds da ABU e a gente dos diálogos novos. Estes também execram e desprezam os que não compartilham da visão deles.

Bem, meu caro amigo. Acho que o problema aqui é exatamente a falta da hospitalidade (Schaefferiana, por ironia) no lugar do sectarismo e belicosidade fundamentalista, além do problema ideológico ao qual eu me referi, que não é exclusivo de quem faz uso do conceito "cosmovisão cristã"; e não com o conceito em si. Pelo primeiro caso, eu também lamento muitíssimo porque ele sacrifica a mais preciosa dádiva e mandamento do cristão no altar da ideologia. Porém, se o seu problema for o conceito em si, eu te peço pra deixar de lado os julgamentos mais rasos e se engajar melhor com a questão.

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