8 de novembro de 2016

Alguns pensamentos sobre a exortação cristã

A crítica e a exortação cristãs nunca devem ser feitas considerando-se apenas o conteúdo dos pensamentos que estão sendo questionados. Elas não podem ser um debate de ideias.
Arte e stencil do Movimento Mosaico.
As críticas e exortações como práticas cristãs não devem ser feitas de forma objetiva, pois elas não exprimem uma relação sujeito-objeto; mas uma relação de pelo menos duas pessoas e esta deve ser considerada. É na relação Eu-Tu, na relação real entre pessoas reais, é que nos constituímos seres humanos. Considerar o outro ser humano e todas as suas limitações, sua estrutura, seu intelecto, sua história, sua vivência e experiências não é cair no sentimentalismo, é tornar-se humano. Quando se julga o outro, mesmo que o conteúdo do julgamento em si seja correto e mesmo que as motivações para tal sejam amorosas, corre-se o risco de passar por cima ou ignorar a pessoa do interlocutor, a outra parte da relação.

Primeiramente, reconheçamos que a natureza da verdade cristã é relacional: ela não pode ser considerada objetiva ou científica do ponto de vista moderno. Nós conhecemos o Deus do teodrama da narrativa bíblica e sua revelação no Cristo dentro e a partir do nosso relacionamento com ele e com sua mensagem. Afirmar a doutrina da Encarnação é afirmar que o Kyrios-Cristo e as próprias Escrituras assumiram (respectivamente) forma e formas humanas, foram revelados através da história e de diferentes contextos culturais. São culturas que possuem origens diversas, que são repletas de ironias, paradoxos, teodicéias e mistérios. O próprio Deus entrou em nosso mundo simbólico-pístico-econômico-psicossocial, ou, simplesmente, humano, para se relacionar conosco como comunidade de pessoas, em nossos "próprios termos": usando nossas linguagens e tradições linguísticas, com todas as ambiguidades e nuanças intrínsecas a elas.* (Para discussões mais abrangentes sobre esta questão, ver o livro "O Drama da Doutrina" do Vanhoozer e o ensaio "Transposição" do C. S. Lewis.)

E, ainda, o Espírito que nos conduz à verdade, cujo aspecto fenomenológico e relacional falamos acima, é o mesmo que nos une. Nós precisamos dele para podermos exortar a um irmão ou irmã. E precisamos do Cristo crucificado como o nosso modelo de ação e de relacionamento, além de como mediador e elo na nossa relação com o outro. Se nos recordarmos de que a própria dinâmica trinitária, que os teólogos chamam de Pericorese, é como uma dança divina em que as três pessoas da Trindade se doam e se derramam constantemente umas sobre as outras, veremos claramente como deve ser a nossa vida espiritual, se desejamos nos tornar a "imitação de Deus" (Fr. Richard Rohr), aceitando a nossa vocação de Imago Dei.

O amor se alegra com a verdade (1 Coríntios 13) e a exortação cristã é um imperativo do amor. Mas o amor também tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta (idem). Para agir com relação ao próximo, corrigi-lo quando ele se encontra em erro e amá-lo de forma cristã é preciso mais do que agir a partir do nosso próprio conceito e esforços de amor. É necessário ter o amor divino como motivação, reconhecer a natureza da verdade, amando-a, e seguir o modelo Crístico de abnegação, considerando a pessoa em mais alta estima: é andar no Espírito.

É preciso reconhecer que a linguagem meramente simbólica, com todos os seus conjuntos de códigos, é limitada e não se constitui como ponte perfeita para o relacionamento humano. A comunicação pode ser muitas vezes capciosa e traiçoeira e o que você fala pode se transformar, para quem ouve, em algo que não foi exatamente o que você quis dizer. Suas boas intenções e seu cuidado não são o suficiente para transcender todas as barreiras de valor, de cultura, de criação e de personalidade entre você e o outro e a sua repreensão pode se apresentar como temerária para ele. O amor exige que se beba o cálice do outro, que se saia de si para encontrar o outro em toda a sua humanidade. É amar o próximo como a si mesmo. É preciso um movimento humanizador intencional aqui de esvaziar-se de si (Filipenses 2) entrar no mundo do outro, colocar-se no lugar dele, conhecer seus medos, sua compreensão de mundo, seus conceitos de felicidade.

Tal movimento inclui abrir-se para todo o sofrimento que tal relação tem a possibilidade de trazer. É estar disposto a comprometer-se com o outro e a se decepcionar. Não só dar a outra face, mas apanhar. É comprometer sua própria integridade em abnegação e amor autossacrificial. É levar a cruz no lugar do outro.
"Tende em vós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus, que, existindo em forma de Deus, não considerou o fato de ser igual a Deus algo a que devesse se apegar, mas, pelo contrário, esvaziou a si mesmo, assumindo a forma de servo e fazendo-se semelhante aos homens. Assim, na forma de homem, humilhou a si mesmo, sendo obediente até a morte, e morte de cruz."

(Paulo aos Filipenses, cap. 2, vs. 5-8, tradução Almeida século 21)
Porque eu creio no Espírito Santo, na Una, Santa, Católica e Apostólica Igreja, na comunhão dos santos, no perdão dos pecados, na ressurreição do Corpo e na vida eterna. Amém.

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