2 de março de 2017

Sobre romance, quaresma e moderação


Prudência já foi um nome popular. Outras virtudes, como esperança e caridade, ainda detêm seu prestígio, mas ser 'prudente' não tem sido popular desde que o primeiro presidente Bush era um jovem lutando a Segunda Guerra Mundial.

Até grupos de jovens cristãos que visito costumam ostentar serem 'radicais' por Jesus. Essa é uma má ideia, porque a religião imoderada tem causado ao menos tantos problemas ao mundo quanto o secularismo imoderado. O cristianismo não é revolucionário, porque a virtude só pode ocorrer gradualmente a homens caídos, se é que há de ocorrer.

A revolução em nome da virtude é como matar um homem para salva-lo. Pergunte aos iranianos.

A imoderação religiosa pode levar aos de nós que estão no ministério a ignorar nossas obrigações familiares para 'amar a Deus'. Esquecemos que não podemos amar ao Deus que não vemos, se não podemos amar ao irmão que vemos.

A Moderação diz: "Terei o suficiente, e não mais". A Moderação requer do cosmos apenas o 'pão de cada dia' e não acha que todo dia é um dia de banquete. A Moderação diz ao Eros: "Não estrague o meu amor futuro exigindo mais hoje do que o devido".

Uma economia baseada no consumo nunca dirá "Seja prudente". Ela vai exigir o último produto da Apple e gastar milhões para zombar de quem economiza. A publicidade é tão onipresente que a usamos livremente em nossas roupas como sinal de status.

O Amor é o maior poder no Cosmos, mas o Amor requer Moderação para poder durar. O amante deseja paixão total, mas o Amor quer que o amado floresça e ame para sempre. A Moderação auxilia o Amor a tornar isso possível através de seu conselho virtuoso.

O recente longa-metragem de Jane Eyre me lembrou do papel da Moderação no romance. Quando eu era mais jovem, minha paixão natural desejava um grande romance e me levou a um tipo de amor que desafiava até a Deus, um amor que era pagão; e não cristão. A Moderação me disse para buscar intimidade e deixar o amor crescer de forma lenta e apropriada.

Por mínimo que fosse, o Eros da minha natureza pecaminosa exigia um cometimento absoluto a algum amado, seja um deus, uma causa ou uma mulher. O Amor desejava um romance cósmico e isso significa ser menos romântico hoje para que o amor possa durar para sempre.

O homem realmente apaixonado abrirá mão do banquete de hoje pelo amanhã. Ele vai reconhecer a Quaresma para poder ganhar a Páscoa. A intimidade lenta moderada é menor no início, mas se torna significativa depois de vinte cinco anos de dores e prazeres compartilhados.

O homem que bebe demais logo não poderá beber de novo. O glutão, como eu sei muito bem, eventualmente terá mais sofrimento do que prazer ao banquetear-se. O amor imoderado logo tornará tóxico o próprio objeto de desejo do amante.

A Moderação não é uma moralista aborrecida; mas uma Mãe fecunda que ama tanto o banquete que aconselha o jejum. Ela adora tanto a Beleza ao ponto de me exortar a virar a cabeça diante da Beleza que eu ainda não tenho como experimentar apropriadamente. A Moderação transforma uma primavera de quaresma em um generoso verão.

John Mark Reynolds, First Things

1 de março de 2017

A Luta entre o Carnaval e a Quaresma

A Luta entre o Carnaval e a Quaresma // Pieter Bruegel o Velho, 1559
A obra "A luta entre o Carnaval e a Quaresma" ilustra o conflito dualista humano, uma tensão entre o impulso religioso e o desejo excessivo por prazer, exclusivamente através dos sentidos (sensual). É uma expressão quase cirúrgica do que temos nas culturas da cristandade, a entrega desenfreada antes que a quaresma chegue ou, em outros casos, a entrega para o prazer antes que a seriedade do ano com sua rotina pesada chegue – afinal é carnaval e tudo está liberado.

O paradoxo entre "natureza e graça" e "santo e profano" faz com que alguns recorram a caminhos que vão do isolamento cultural, com aparente "pureza", suprimindo a natureza (os prazeres da carne) até a entrega total mesmo que termine na sarjeta.

O religioso pode no carnaval ver o caminho da vida a partir do monastério das abstinências, e de lá, levantar sua vara de "justo juiz" com nojo dos depravados em folia. O folião tende a dar vazão aos desejos obscuros dentro de si que não conseguem vir à superfície todos os dias, e se concentra apenas nisso, agindo de uma forma individualista. Ambos os casos são feios de mais, pois ignoram o que há de mais precioso e prazeroso e negligenciam as reais necessidades que nos cercam – Geralmente em tempos de prazeres assim as atrocidades não mobilizam e nem chocam.

Ante a isso tudo, o que resta geralmente ou é um sentindo de que não se aproveitou como os outros ou então uma ressaca moral por ter ido parar na sarjeta.

Que no carnaval encontremos a fonte do prazer e nos satisfaçamos por inteiros nela. Essa fonte que nos leva ao outro, ao próximo, não nos restringe à satisfação egoísta, mas nos toca para ver aqueles que têm sede de vida, aqueles que sofrem na existência.

Lucas Louback